"A maioria das pessoas que minha unidade matou não estava armada": depoimento de um soldado israelense em Gaza
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Um soldado israelense que participou das operações militares na Faixa de Gaza afirmou que sua unidade matou palestinos desarmados, utilizou civis como escudos humanos e participou da destruição sistemática de áreas residenciais. O depoimento foi publicado em 4 de junho de 2026 pela revista 1843, vinculada ao The Economist, e fornecido por meio da organização israelense Breaking the Silence. As declarações descrevem práticas que o próprio militar classificou como ilegais e que, segundo ele, decorreram de diretrizes aplicadas ao longo do genocídio contra a população palestina.

O relato foi concedido por um soldado identificado pelo pseudônimo Jonathan, integrante da infantaria israelense que atuou durante meses na Faixa de Gaza. A entrevista foi publicada pela revista 1843 e divulgada pela organização Breaking the Silence, entidade israelense que reúne depoimentos de militares sobre ações realizadas nos territórios palestinos ocupados. Segundo a organização, mais de 1.500 soldados já forneceram testemunhos relacionados à conduta das forças israelenses.
Jonathan afirmou que apoiou o início da ofensiva militar após os acontecimentos de 7 de outubro de 2023. Segundo seu relato, ele acreditava que a operação militar era necessária e via os bombardeios anteriores à invasão terrestre como uma forma de reduzir riscos para as tropas israelenses. “Eu sentia que não tínhamos escolha a não ser lutar em Gaza, que esta era a guerra mais justificada da nossa história”, declarou.
Com o passar dos meses, o militar afirmou ter mudado sua percepção sobre as operações. Segundo ele, o que testemunhou em Gaza o levou a concluir que parte das ações executadas pelas tropas contrariava normas legais e princípios básicos de conduta militar.
Uma das principais acusações apresentadas por Jonathan refere-se às regras de engajamento adotadas durante a campanha militar. O soldado afirmou que, ao contrário do que ocorre na Cisjordânia ocupada, as tropas que entraram em Gaza não receberam orientações claras sobre identificação de alvos.
“Como soldado de infantaria, aprendi que as regras de engajamento são a primeira e mais básica coisa que preciso conhecer. Mas em Gaza, ao contrário da Cisjordânia, não recebemos nenhuma regra de engajamento”, afirmou.
Segundo o depoimento, homens palestinos em idade considerada militar eram tratados como alvos potenciais independentemente de portarem armas. Jonathan afirmou que a definição dessa faixa etária era aplicada sem critérios uniformes.
“Idade militar é algo aberto à interpretação. Pode ser de 16 a 60 anos ou até menos.”
O soldado declarou que diversos disparos foram efetuados contra pessoas cuja condição não havia sido verificada pelas tropas.
“A maioria das pessoas que minha unidade matou não estava armada.”
Ele acrescentou que, em diversos episódios, os militares não confirmavam se os mortos possuíam armas ou uniformes.
“Tivemos casos em que minha unidade matou muitas pessoas e não verificamos se elas tinham uniformes ou armas.”
Segundo Jonathan, soldados disparavam contra figuras vistas à distância entre escombros e edifícios destruídos sem saber quem eram aquelas pessoas ou qual era sua atividade.
“É ilegal, não é moral e está errado.”
Outro aspecto descrito pelo militar envolve o uso de civis palestinos como escudos humanos. De acordo com seu relato, após a morte de cães utilizados em operações militares durante os primeiros meses da invasão terrestre, unidades israelenses passaram a obrigar palestinos detidos a entrar em edifícios antes das tropas.
Segundo Jonathan, esses civis eram enviados para identificar armadilhas explosivas, revelar posições de combate ou acionar mecanismos explosivos escondidos.
A prática recebeu entre os soldados o nome de “protocolo do mosquito”.
Jonathan afirmou que, até o verão de 2024, o procedimento já fazia parte da rotina operacional. Sua própria unidade teria recebido um palestino obrigado a acompanhar as tropas durante missões militares.
“Tivemos discussões dentro do meu pelotão, mas não era uma discussão moral sobre usar escudos humanos. Era sobre como tratá-lo.”
Segundo o relato, durante a noite o homem permanecia amarrado próximo a um posto de guarda enquanto soldados discutiam a quantidade de comida que receberia e se deveria ser agredido.
“A maioria o via como terrorista. Eles o odiavam. Queriam espancá-lo.”
Jonathan afirmou que alguns militares demonstravam desconforto com a prática, mas a maioria a aceitava porque acreditava que ela diminuía os riscos enfrentados pelas tropas israelenses.
“Entendíamos que, se não o utilizássemos, nossas chances de morrer aumentariam.”
Quando a unidade deixou a área de operação, o civil palestino foi abandonado no local.
“Nós simplesmente dissemos para ele ir embora.”
O depoimento também descreve a destruição de bairros inteiros da Faixa de Gaza. Segundo Jonathan, as missões de demolição passaram a ocupar parcela crescente das operações militares.
Áreas residenciais, escolas, instalações industriais, estruturas agrícolas e edifícios civis foram demolidos durante a campanha militar. O soldado afirmou que a destruição ocorria principalmente em zonas de amortecimento estabelecidas pelas forças israelenses.
“Existe uma grande missão da qual nós, soldados comuns, não tínhamos conhecimento.”
Inicialmente, as demolições eram realizadas por unidades de engenharia militar. Posteriormente, soldados de infantaria passaram a instalar explosivos em construções civis antes da autorização final para detonação.
Jonathan relatou que o processo perdeu qualquer relação perceptível com objetivos militares específicos. Segundo ele, após a destruição de um edifício por oferecer uma posição elevada, outro prédio passou a ocupar o ponto mais alto da área e também foi demolido.
O procedimento se repetiu em diferentes setores da Faixa de Gaza.
“Eu não conseguia explicar a destruição por uma razão militar. Não se tratava de segurança nem de derrotar o Hamas. Era outra coisa. Bairros inteiros desapareceram.”
O militar afirmou que a devastação observada em Gaza não resultou de decisões individuais tomadas por soldados no terreno.
“A destruição sistemática em Gaza não acontece porque soldados decidiram demolir edifícios. Não é nossa decisão. É uma política.”
Jonathan também relatou uma transformação nas atitudes de parte dos militares em relação à população palestina. Segundo ele, à medida que a operação se prolongava, tornou-se comum associar qualquer palestino presente na área a atividades armadas.
“Todas as pessoas na área eram chamadas de terroristas.”
De acordo com o soldado, comunicações militares utilizavam termos depreciativos para se referir aos palestinos.
Ele afirmou ainda que presenciou deslocados palestinos abrigados em escolas e clínicas e que alguns militares demonstravam insatisfação quando eram impedidos de abrir fogo contra essas pessoas.
“Na visão de muitos israelenses e soldados, todo palestino em Gaza é terrorista. Se for uma criança, provavelmente será um futuro terrorista. Se for uma mulher, provavelmente será a futura mãe de um futuro terrorista.”
Jonathan declarou que, naquele momento, passou a questionar as justificativas utilizadas para sustentar a campanha militar, mas se sentia isolado dentro de sua unidade.
“Eu me sentia bastante sozinho com esses sentimentos.”
Após deixar Gaza, o soldado afirmou que começou a refletir sobre sua participação nas operações e sobre a diferença entre o que testemunhou no território palestino e a forma como a campanha militar era apresentada à sociedade israelense.
Segundo ele, a destruição da estrutura social palestina, o sofrimento dos deslocados e o aumento do número de mortos civis raramente eram discutidos dentro de Israel.
Posteriormente, decidiu prestar depoimento à Breaking the Silence.
Jonathan reconheceu sua responsabilidade individual pelos acontecimentos, mas sustentou que as práticas descritas decorreram de decisões institucionais.
“No final das contas, um soldado fará aquilo que lhe mandarem fazer.”
Ele declarou que continua lidando com as consequências das experiências vividas durante sua passagem por Gaza.
“Tenho críticas a mim mesmo e sinto culpa e vergonha por algumas das coisas das quais participei.”
Questionado sobre qual episódio mais lamentava, Jonathan não respondeu diretamente e voltou a refletir sobre seu passado.
“Não posso apagar meu passado.”
“Hoje não tenho orgulho de ser israelense, de ter sido soldado.”
“É algo de que tenho vergonha.”



































