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ANTES DO MAGA: Bernie Goetz e a atual fase da violência racista nos EUA

Muito antes da indignação branca contemporânea associada ao movimento MAGA, já existia um precedente marcante nos Estados Unidos: o caso de Bernie Goetz. Esta análise — escrita por Paulo Renfro e publicada na Jacobin — reconstrói, com riqueza de detalhes, como um episódio ocorrido em 1984 ajudou a consolidar uma cultura política baseada em ressentimento racial, medo urbano e legitimação do vigilantismo.


Bernie Goetz
Bernie Goetz


O dia dos disparos

Na tarde de 22 de dezembro de 1984, Bernie Goetz, um homem branco de 37 anos, entrou em um vagão do metrô de Nova York com destino ao sul de Manhattan. No mesmo espaço estavam quatro jovens negros — Barry Allen, Darrell Cabey, Troy Canty e James Ramseur — todos desarmados. O ambiente, embora tenso, não era incomum para a cidade naquele período. Em determinado momento, Troy Canty se aproximou de Goetz e pediu cinco dólares. O pedido, ambíguo e sujeito a interpretações, desencadeou uma reação extrema. Goetz levantou-se, abriu a jaqueta, sacou um revólver calibre .38 sem licença e disparou contra os quatro jovens em sequência.


Em poucos segundos, o vagão se transformou em um cenário de guerra urbana. Todos sobreviveram, mas Darrell Cabey sofreu as consequências mais graves: entrou em coma, teve danos cerebrais permanentes e ficou paraplégico.


Apesar da violência do ataque, a reação pública foi profundamente dividida e, em muitos casos, favorável a Goetz. Parte significativa da mídia sensacionalista o retratou como um cidadão comum que reagiu ao crime. Tabloides o transformaram em símbolo de resistência à criminalidade, comparando-o a personagens de filmes como Death Wish. Manchetes exaltavam sua ação como uma inversão de papéis: o “cidadão de bem” enfrentando o “predador urbano”.


Nesse processo, as vítimas foram progressivamente desumanizadas. Em vez de jovens desarmados, passaram a ser apresentadas como encarnações da violência urbana que, na percepção de muitos, dominava Nova York.


Nova York na era Reagan

O episódio não pode ser compreendido fora de seu contexto histórico. Ele ocorreu durante o governo de Ronald Reagan, marcado por transformações profundas na economia e na política social dos Estados Unidos.


A chamada “Revolução Reagan” promoveu cortes em programas sociais, desregulamentação econômica e redução de impostos para os mais ricos, ao mesmo tempo em que reforçava discursos de responsabilização individual pela pobreza. O resultado foi o agravamento das desigualdades sociais. Nova York, ainda se recuperando da crise fiscal dos anos 1970, vivia um período de austeridade severa. Cortes em serviços públicos, aumento da população em situação de rua, precarização urbana e crescimento do mercado de drogas contribuíam para um clima generalizado de insegurança.


Bairros como o Bronx, onde vivia Darrell Cabey, simbolizavam esse cenário: abandono estatal, moradias precárias e exposição constante à violência.


O julgamento de Bernie Goetz refletiu esse ambiente social e político. Apesar de evidências que indicavam motivações raciais e uso desproporcional da força, sua defesa conseguiu explorar o medo do crime e preconceitos raciais.


As vítimas foram retratadas como ameaças, enquanto Goetz foi apresentado como alguém que agiu em legítima defesa. Em 1987, ele foi absolvido das acusações mais graves, incluindo tentativa de homicídio.


A decisão evidenciou como o sistema judicial pode ser influenciado por narrativas sociais mais amplas — especialmente quando atravessadas por questões raciais.


Anos depois, Darrell Cabey obteve uma vitória parcial na esfera civil, recebendo indenização pelos danos sofridos.


Raiva branca

A historiadora Heather Ann Thompson argumenta que o caso teve efeitos duradouros. Em sua análise, o episódio ajudou a legitimar uma forma de “raiva branca” que se tornaria central na política americana nas décadas seguintes. Essa dinâmica pode ser observada na ascensão de figuras como Donald Trump, na expansão de mídias conservadoras e na normalização de discursos que associam segurança à punição violenta.


O caso Goetz teria contribuído para consolidar a ideia de que cidadãos comuns podem — e, em certos contextos, devem — recorrer à violência para “restaurar a ordem”.


Ao mesmo tempo, o episódio se insere em um cenário mais amplo de crescimento da violência supremacista branca nos Estados Unidos. Desde o final dos anos 1970, o país testemunhava o fortalecimento de grupos racistas e o aumento de crimes de ódio. Obras como The Turner Diaries, de William Luther Pierce, influenciaram movimentos extremistas e inspiraram atos violentos.


Ataques contra comunidades negras, assassinatos raciais e ações de grupos organizados faziam parte de um ambiente já profundamente marcado por tensões raciais. Nesse sentido, o caso Goetz foi tanto produto quanto amplificador dessa realidade.



A análise de Paulo Renfro enfatiza o papel central da mídia na construção desse episódio. Ao transformar Goetz em herói e suas vítimas em vilões, os meios de comunicação ajudaram a legitimar uma narrativa perigosa. Essa narrativa — baseada na associação entre criminalidade e raça, e na glorificação da violência como resposta — teve impactos que ultrapassaram o caso específico.


Décadas depois, os ecos do caso Bernie Goetz continuam presentes. Debates sobre segurança pública, racismo estrutural e violência civil ainda são influenciados por ideias que ganharam força naquele período. Ao recuperar esse episódio em profundidade, a análise publicada na Jacobin mostra como um ato de violência pode ser transformado em símbolo político — e como suas consequências podem atravessar gerações.


Mais do que um evento isolado, o caso revela as engrenagens de uma cultura que continua a moldar o presente.

 
 
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