'Brasil cansou de ser tratado como invisível', diz Lula, na maior feira industrial do mundo
- www.jornalclandestino.org

- 21 de abr.
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O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, declarou em 20 de abril de 2026 que o país “cansou de ser tratado como invisível” no cenário internacional. A fala ocorreu durante a abertura do pavilhão brasileiro na Feira Industrial de Hanôver, na Alemanha, considerada a maior do setor no mundo. O evento reúne governos e corporações centrais da economia global, historicamente dominada por potências industrializadas do Norte global. Lula defendeu que o Brasil busca protagonismo na transição energética e maior inserção tecnológica internacional. O discurso foi marcado por críticas indiretas à hierarquia econômica global e à posição periférica imposta a países do Sul.

Segundo informações da Agência Gov, via Palácio do Planalto, Lula afirmou que o Brasil pretende se consolidar como parceiro estratégico da Europa em inovação industrial, energia limpa e desenvolvimento sustentável. “O Brasil é um país que quer se transformar numa economia rica. Nós cansamos de ser tratados como um país pobre e um país pequeno”, declarou o presidente diante de autoridades brasileiras e alemãs. A fala ocorre em um contexto histórico no qual países latino-americanos foram sistematicamente inseridos como fornecedores de matérias-primas no sistema econômico internacional, enquanto tecnologias e cadeias de valor permaneceram concentradas em países centrais.
Durante o discurso, Lula destacou a capacidade produtiva e tecnológica brasileira, citando empresas como a Petrobras e a Embraer, esta última descrita como a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo. “Nós temos uma boa base intelectual, nós temos uma boa base tecnológica, nós temos empresas extraordinárias como a Petrobras, nós temos empresas como a Embraer”, afirmou. Ele também indicou interesse em expandir cooperação não apenas com a Alemanha, mas com a América do Sul e o continente africano, sinalizando uma tentativa de articulação entre economias historicamente subordinadas à lógica do capital internacional.
A participação brasileira na Hannover Messe 2026 marca o retorno do país como parceiro oficial do evento após 46 anos, reforçando uma estratégia de reposicionamento internacional. A feira é reconhecida como principal vitrine global de tecnologias industriais, incluindo automação, digitalização, eletrificação e, mais recentemente, inteligência artificial e transição energética. A presença brasileira envolve mais de 300 empresas, incluindo 60 startups e 140 expositores distribuídos em seis pavilhões, sob coordenação da ApexBrasil.
Lula enfatizou que o Brasil possui vantagens estruturais na transição energética, destacando que cerca de 90% da matriz elétrica nacional é composta por fontes renováveis. Ele também mencionou o avanço na política de biocombustíveis, com mistura de 30% de etanol na gasolina e 15% de biodiesel no diesel. “O Brasil fala que será uma potência mundial na transição energética e que será uma potência mundial na oferta de combustível renovável ao mundo. Nós não estamos falando pouca coisa”, declarou. A afirmação confronta o modelo energético dominante em países industrializados, fortemente dependente de combustíveis fósseis.
Ao abordar competitividade, Lula propôs uma comparação direta entre emissões de combustíveis brasileiros e europeus. “Vamos fazer uma comparação entre os combustíveis brasileiros e os combustíveis alemães ou qualquer outro combustível de outro país, para que a gente possa ver qual é o combustível que emite menos CO₂”, afirmou. A proposta surge em meio a disputas globais por liderança tecnológica na descarbonização, frequentemente instrumentalizadas por potências econômicas como mecanismo de pressão comercial.
Após a cerimônia, Lula visitou estandes de empresas brasileiras presentes na feira, incluindo WEG, BE8, Vale, Volkswagen Brasil, Embraer e Bayer Brasil. Entre as demonstrações tecnológicas, foram apresentados dois caminhões movidos a biocombustível, incluindo um modelo da Mercedes-Benz abastecido com biodiesel verde, evidenciando a tentativa de inserir o Brasil nas cadeias globais de inovação industrial sustentável.
O presidente também afirmou que a participação brasileira vai além da exposição de produtos e busca aprofundar cooperação tecnológica com a Alemanha. “Viemos aqui para aprender aquilo que a indústria mundial tem de novidade para o mundo. Segundo, aprender com a capacidade tecnológica e produtiva do povo alemão. Terceiro, mostrar aquilo que nós somos capazes de fazer e aquilo que a gente pode compartilhar e pode construir junto”, declarou. A fala reflete uma estratégia de inserção internacional baseada na troca tecnológica, em contraste com modelos historicamente marcados por dependência tecnológica.
No campo diplomático, Lula defendeu o fortalecimento das relações bilaterais com a Alemanha, apontando oportunidades em investimentos, pesquisa científica e integração industrial. “Nós, brasileiros, temos muito o que oferecer de oportunidade de investimento, também de oportunidade de compartilhamento de atividades empresariais, de atividade entre as nossas universidades”, afirmou. A Alemanha, maior economia da Europa e terceira maior do mundo, possui PIB superior a US$ 5 trilhões em 2025 e mantém população de mais de 84 milhões de pessoas.
Dados oficiais indicam que a Alemanha é o quarto maior parceiro comercial do Brasil, com fluxo bilateral de US$ 20,9 bilhões no ano anterior. O país europeu também ocupa a sétima posição entre os maiores investidores diretos no Brasil, com estoque acumulado de US$ 44 bilhões. A relação econômica, embora significativa, ocorre dentro de uma estrutura global marcada por assimetrias entre centros industriais e economias exportadoras de recursos.
Ao encerrar sua fala, Lula afirmou: “Depois da participação do Brasil nesta feira, a relação Alemanha e Brasil nunca mais será a mesma”.



































