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Candidatos apoiados por Mamdani vencem as primárias democratas em Nova York

A rede política articulada pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, conquistou uma sequência de vitórias nas primárias democratas para o Congresso realizadas na terça-feira, 24 de junho. Os três candidatos apoiados por Mamdani venceram disputas contra nomes vinculados à estrutura tradicional do Partido Democrata. Os resultados fortaleceram um bloco político que associa temas econômicos locais à oposição ao apoio estadunidense ao genocídio israelense contra a população palestina em Gaza.


Zohran Mamdani | FRANCE24
Zohran Mamdani | FRANCE24

O teste eleitoral representou a primeira grande prova da capacidade de Mamdani de transferir capital político para outros candidatos desde sua chegada à prefeitura da maior cidade dos Estados Unidos. Ao final da apuração, o ex-controlador municipal Brad Lander derrotou o deputado estadual Dan Goldman, enquanto a deputada estadual Claire Valdez venceu Antonio Reynoso, presidente do distrito do Brooklyn, na disputa pela vaga deixada pela aposentadoria da congressista Nydia Velazquez.


O resultado que mais repercutiu ocorreu no distrito representado pelo deputado Adriano Espaillat. A defensora pública Darializa Avila Chevalier, candidata sem experiência prévia no Congresso, derrotou Espaillat, então em seu quinto mandato e presidente do Congressional Hispanic Caucus.


Apoiadores dos vencedores classificaram os resultados como evidência de que a ascensão política de Mamdani não se limitou à eleição municipal e passou a influenciar a correlação de forças dentro do Partido Democrata nova-iorquino. Entre os setores alinhados ao prefeito, as vitórias foram interpretadas como um revés para dirigentes partidários que mantiveram influência sobre as estruturas eleitorais locais.


Mamdani participou diretamente das campanhas, comparecendo a eventos, realizando atividades conjuntas e promovendo uma plataforma que definiu como uma “agenda de acessibilidade”, centrada no aumento do custo de vida em Nova York. O prefeito vinculou questões como moradia, alimentação, saúde e transporte às prioridades orçamentárias do governo federal, argumentando que a população enfrenta dificuldades econômicas enquanto recursos públicos continuam sendo direcionados para operações militares e alianças externas.


O genocídio israelense em Gaza ocupou espaço nas campanhas e tornou-se uma das linhas de divisão entre diferentes correntes do Partido Democrata. A disputa entre Brad Lander e Dan Goldman refletiu esse cenário. Lander adotou posições públicas contra as ações israelenses em Gaza, enquanto Goldman recebeu apoio do Comitê de Assuntos Públicos Israelo-Americano (AIPAC) e manteve alinhamento com as posições do governo israelense.


Durante a celebração das vitórias eleitorais, participantes da campanha de Mamdani entoaram gritos de “Palestina Livre”, episódio que circulou nas redes sociais e passou a ser citado por apoiadores como demonstração da presença da causa palestina na política eleitoral da cidade.


Claire Valdez e Darializa Avila Chevalier também construíram suas campanhas com posições favoráveis à causa palestina. Ambas receberam apoio de setores mobilizados contra o apoio militar e diplomático oferecido por Washington a Israel desde o início do genocídio em Gaza.


Antes da disputa eleitoral, Avila Chevalier participou da organização de manifestações pró-Palestina na Universidade Columbia. Sua plataforma eleitoral combinou propostas de saúde universal, proteção aos inquilinos, direitos dos imigrantes e mudanças nas regras de financiamento de campanhas.


Para parte do eleitorado mobilizado durante as primárias, a questão palestina tornou-se um critério para avaliar até que ponto candidatos democratas estariam dispostos a desafiar a influência de grupos de lobby pró-Israel e a relação militar mantida entre Washington e Tel Aviv.


A derrota de Adriano Espaillat ganhou dimensão política pela posição ocupada pelo congressista dentro da bancada hispânica democrata. A vitória de Avila Chevalier foi apresentada por seus apoiadores como demonstração de que mandatos consolidados, estruturas de arrecadação financeira e apoios partidários não garantem mais proteção automática nas disputas internas do partido.


As mudanças observadas nas primárias para o Congresso também alcançaram as eleições estaduais. No Queens, a palestino-americana Aber Kawas venceu as primárias democratas para uma vaga no Senado estadual de Nova York ao derrotar o deputado estadual Steven Raga.


Kawas recebeu apoio de Mamdani e da seção nova-iorquina dos Socialistas Democráticos da América. Sua campanha articulou propostas sobre moradia, saúde e direitos trabalhistas com críticas ao apoio político oferecido por autoridades de Nova York ao genocídio israelense em Gaza.


A vitória de Kawas acrescentou outro elemento ao resultado eleitoral da noite. Uma candidata palestino-americana que colocou Gaza no centro de sua campanha derrotou um adversário respaldado por setores da estrutura partidária em uma das disputas estaduais acompanhadas pela imprensa local.


As campanhas apoiadas por Mamdani também exploraram um tema presente em diferentes regiões da cidade: o custo de vida. O prefeito construiu sua projeção política argumentando que moradores de Nova York enfrentam aluguéis elevados, custos de saúde, despesas com creches e dificuldades para permanecer em seus bairros.


Essa abordagem esteve presente nas campanhas de Lander, Valdez e Avila Chevalier. Os três candidatos apresentaram propostas relacionadas à habitação, saúde e direitos trabalhistas como eixo central de suas candidaturas.


Os resultados ocorreram em meio ao governo do presidente Donald Trump. O cenário político nacional tem sido marcado por debates sobre imigração, funcionamento dos serviços públicos e ampliação das competências do Poder Executivo.


A agência Reuters avaliou que os resultados refletiram tanto a insatisfação de eleitores progressistas com políticas do governo Trump quanto a reação ao apoio fornecido pela administração democrata anterior às operações israelenses em Gaza. A agência também descreveu as eleições como um teste da capacidade de Mamdani de remodelar o Partido Democrata em direção a posições associadas ao socialismo democrático.


Nas redes sociais, organizações ligadas aos direitos palestinos, ativistas comunitários e integrantes dos Socialistas Democráticos da América comemoraram os resultados. Parte dos comentários comparou o momento político às primárias de 2018 que levaram Alexandria Ocasio-Cortez ao Congresso após derrotar um nome da direção partidária.


Outras manifestações apontaram as derrotas de Dan Goldman e Adriano Espaillat como evidência de que candidatos vinculados ao establishment democrata enfrentam dificuldades crescentes diante de campanhas que combinam propostas econômicas com críticas abertas a Israel e à política externa estadunidense.


A revista New York Magazine informou que sete dos oito candidatos apoiados pelos Socialistas Democráticos da América em Nova York venceram suas respectivas disputas legislativas, ampliando a presença da organização em cargos eletivos.


As vitórias provocaram reações de setores centristas do Partido Democrata e de comentaristas conservadores. Esses grupos passaram a defender que a ampliação da influência do socialismo democrático e das críticas a Israel poderia produzir impactos eleitorais em distritos considerados competitivos.


Donald Trump utilizou os resultados para afirmar que os democratas estariam se afastando do centro político. Paralelamente, dirigentes partidários demonstraram preocupação com os efeitos da expansão da esquerda progressista sobre futuras disputas eleitorais.


O avanço desse campo político também ampliou tensões entre Mamdani e figuras da direção democrata nacional. Entre elas está Hakeem Jeffries, líder democrata na Câmara dos Representantes, que apoiou Dan Goldman durante as primárias.


As divergências tendem a ocupar espaço no debate interno democrata antes das eleições legislativas de novembro. A direção partidária busca conciliar a mobilização de eleitores progressistas com estratégias voltadas para distritos de resultado indefinido.


Na prática, os resultados de terça-feira demonstraram que a coalizão construída por Mamdani conseguiu ampliar sua influência para além da prefeitura de Nova York e derrotar candidatos apoiados pela estrutura tradicional do Partido Democrata em disputas para o Congresso dos Estados Unidos.

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