Sudão sitiado: campo em Darfur abriga meio milhão de seres humanos que sobrevivem entre fome, deslocamento e abandono internacional
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No dia 16 de fevereiro de 2026, um campo de deslocados internos em Tawila, na região de Darfur, no Sudão, concentra mais de 500 mil pessoas vivendo em estruturas improvisadas de galhos, palha e lona. O local se tornou refúgio após a intensificação da violência armada que devastou cidades como El Fasher, sob cerco por 18 meses e palco de massacres documentados por organismos internacionais. Relatos reunidos pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos indicam que mais de 6.000 pessoas foram mortas em apenas três dias durante a tomada da cidade pelas Forças de Apoio Rápido (RSF). Crianças e adolescentes compõem uma parcela significativa dos deslocados, muitas tendo fugido repetidas vezes. Em meio à escassez de água, alimentos e acesso à educação, a sobrevivência depende de ajuda humanitária que diminui à medida que as necessidades crescem.

O campo de Tawila simboliza o colapso humanitário no Sudão contemporâneo: famílias vivem há meses em condições precárias, sem serviços básicos e sob risco constante de violência. Entre os deslocados está Doha, 17 anos, que chegou após três dias de viagem a pé e em carroça desde El Fasher, onde sua casa se tornou inabitável devido à fome, à destruição de hospitais e ao fechamento de escolas. A história da jovem foi registrada por UNICEF, que mantém centros de nutrição e apoio psicossocial no campo.
“Essa menina chamou nossa atenção porque estava sorrindo”, relatou Eva Hinds, porta-voz do UNICEF no Sudão, em entrevista à ONU News. “E ela queria muito falar inglês. Sempre me impressiona quando vejo alguém radiante em meio a tantas dificuldades.” Segundo Hinds, o nome Doha significa “manhã” em árabe e reflete a esperança que a adolescente ainda sustenta: “O brilho nos olhos dessa menina mostrava que ela fazia jus ao seu nome.”
Antes do deslocamento forçado, Doha estudava inglês e sonhava em ensinar outras pessoas. Mesmo após perder a escola e a rotina, ela perguntou se havia oportunidades de continuar aprendendo no campo. Hinds destacou que “a resiliência das pessoas e a forma como elas não desistem quando o mundo parece estar contra elas” permanece um dos poucos elementos de estabilidade em meio ao caos.
A crise humanitária é agravada pela repetição de deslocamentos. “Há milhões de crianças que tiveram que fugir de suas casas várias vezes, não apenas uma ou duas vezes, mas muito mais do que isso”, afirmou Hinds. Nos campos, essas crianças enfrentam espaços superlotados, falta de água potável e alimentação insuficiente, além de traumas decorrentes da violência testemunhada. “A sensação de segurança deles foi abalada… viram coisas que muitas crianças nunca deveriam ver”, acrescentou.
No terreno, o UNICEF e parceiros oferecem cuidados de saúde, nutrição e espaços seguros para apoio psicossocial. Esses centros funcionam como áreas de convivência onde crianças podem brincar, aprender e reconstruir vínculos sociais. A agência também atua na reunificação familiar e na proteção de meninas e mulheres contra violência sexual, cuja incidência aumenta nas zonas de deslocamento.
Ainda assim, a resposta humanitária enfrenta um obstáculo estrutural: a redução de financiamento internacional. O Sudão reúne cerca de 34 milhões de pessoas necessitando de assistência, enquanto os recursos disponíveis diminuem. “As necessidades estão aumentando vertiginosamente e o financiamento está diminuindo”, afirmou a porta-voz do UNICEF. “É uma equação muito difícil… e muitas vezes são as crianças que pagam o preço mais alto.”
Além da guerra, persistem práticas nocivas como a mutilação genital feminina. O UNICEF e o UNFPA mantêm programas conjuntos para eliminar a prática, inclusive por meio de clubes para meninas que incentivam permanência na escola e construção de redes de apoio. Esses espaços, segundo Hinds, fortalecem identidade, pertencimento e proteção contra violência.
Em Tawila, a educação emerge como último fio de estabilidade em um cenário de destruição prolongada. “A educação é uma tábua de salvação”, reforça o UNICEF. Para milhares de crianças como Doha, que sobreviveram a massacres, deslocamentos e à destruição de suas cidades, aprender continua sendo o gesto mais concreto de resistência diante de uma crise alimentada por décadas de disputas geopolíticas, negligência internacional e intervenções externas que historicamente aprofundaram a instabilidade do Sudão.















































