Guterres expõe exclusão africana enquanto potências preservam privilégios coloniais
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O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em 14 de fevereiro de 2026 que a estrutura de poder internacional permanece presa à lógica do pós-guerra. Durante a 39ª Cúpula da União Africana, em Adis Abeba, ele declarou que a ausência de assentos permanentes africanos no Conselho de Segurança é “indefensável”. “Estamos em 2026, não em 1946”, disse, ao exigir reformas imediatas no sistema multilateral. O discurso ocorreu em meio a disputas globais por recursos, dívida e influência política sobre países africanos. A fala foi registrada em reportagem publicada em 14 de fevereiro de 2026 pelo jornalista Vibhu Mishra.

Guterres afirmou que a África permanece fora do centro de decisões globais mesmo sendo diretamente afetada por elas. “Sempre que decisões sobre a África e o mundo estiverem em discussão, a África deve estar presente”, declarou. A crítica atinge diretamente a arquitetura do Conselho de Segurança, que mantém poder concentrado nas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial, incluindo os Estados Unidos, estrutura que, oito décadas depois, continua determinando intervenções, sanções e agendas de segurança.
O secretário-geral classificou a União Africana como “símbolo do multilateralismo” em um cenário global marcado por desconfiança e fragmentação. Ele destacou que a cooperação entre ONU e UA cresceu na última década, especialmente nas áreas de paz, desenvolvimento e direitos humanos, mas reconheceu que os conflitos no Sudão, Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Sahel, Líbia e Chifre da África seguem exigindo soluções políticas lideradas pelos próprios países africanos — uma posição que contrasta com o histórico de intervenções militares externas promovidas por potências ocidentais.
Na área econômica, Guterres apontou um déficit anual de 4 trilhões de dólares para financiar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e afirmou que o continente africano perde mais recursos com dívida e fluxos financeiros ilícitos do que recebe em ajuda internacional. Em suas palavras, é “simplesmente inconcebível” que países africanos continuem submetidos a “um sistema econômico e financeiro que permanece totalmente injusto”. O secretário-geral defendeu a ampliação da capacidade de empréstimo dos bancos multilaterais e a inclusão efetiva dos países do Sul Global na tomada de decisões econômicas globais.
Ao tratar da exploração de recursos naturais, Guterres foi direto: “Chega de exploração. Chega de pilhagem. O povo da África deve se beneficiar dos recursos da África”. A declaração expõe a permanência de estruturas econômicas herdadas do colonialismo, nas quais matérias-primas estratégicas continuam sendo extraídas por empresas estrangeiras enquanto os países produtores permanecem dependentes e endividados.
Na pauta climática, o secretário-geral afirmou que o planeta ultrapassará o limite de 1,5°C de aquecimento global e classificou a situação africana como “injustiça climática pura e simples”. Ele lembrou que o continente contribuiu minimamente para a crise, mas sofre impactos desproporcionais, como secas, enchentes e ondas de calor. Guterres cobrou dos países ricos a triplicação do financiamento para adaptação climática e a mobilização de 1,3 trilhão de dólares anuais para países em desenvolvimento até 2035.
O discurso na capital etíope recoloca no centro do debate a disputa estrutural entre um sistema internacional moldado por interesses das potências centrais e as demandas por soberania, desenvolvimento e representação do Sul Global. Ao afirmar que o mundo não pode continuar operando sob a lógica de 1946, Guterres sintetiza uma crítica crescente à ordem internacional que, até hoje, preserva privilégios geopolíticos de um pequeno grupo de países — enquanto a maioria permanece do lado de fora das decisões que definem seu próprio destino.















































