IA rompe o monopólio tecnológico do Norte Global e impulsiona soluções no Sul
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A inteligência artificial deixou de ser monopólio das potências do Norte Global e passa a ser desenvolvida por iniciativas locais em países em desenvolvimento. Um dos exemplos mais concretos vem do Paquistão, onde próteses criadas com IA devolvem mobilidade a trabalhadoras amputadas. O projeto é conduzido pela empresa Bioniks Technologies em parceria com a ONU Mulheres. As aplicações envolvem modelagem 3D, escaneamento digital e inteligência artificial para produzir braços biônicos [...]
A iniciativa foi relatada em 14 de fevereiro de 2026 pelo jornalista Conor Lennon e mostra um impacto direto na vida de trabalhadoras rurais da província de Sindh, no Paquistão. Nessas regiões, máquinas agrícolas com lâminas de alta velocidade causam amputações frequentes, principalmente entre mulheres que dependem de atividades manuais para sobreviver. Sem acesso a próteses avançadas — historicamente restritas aos países ricos — essas trabalhadoras enfrentam exclusão social e perda de renda.
Segundo Ayesha Zulfiqar, cofundadora da empresa, “por meio dessa colaboração, fornecemos próteses de braço avançadas, treinamento prático, apoio psicológico e sessões de conscientização para ajudar as comunidades a entender as práticas de segurança e prevenir tais lesões no futuro”. Ela acrescenta: “ver essas mulheres incríveis recuperarem sua mobilidade, dignidade, independência e retornarem ao bordado manual, sua principal fonte de renda, tem sido profundamente inspirador. Isso é mais do que tecnologia, é restaurar a esperança, a confiança e as oportunidades”.
O caso evidencia o potencial transformador da IA quando ela não está subordinada aos interesses das grandes corporações de tecnologia sediadas nos Estados Unidos e na Europa, que historicamente concentram patentes, infraestrutura de dados e capacidade computacional. A disputa em torno da chamada “divisão da IA” foi reconhecida por Amandeep Gill, enviado especial do secretário-geral da ONU, durante preparativos para a Cúpula de Impacto da IA em Nova Delhi. “A concentração do poder econômico e tecnológico é a nossa maior preocupação nas Nações Unidas”, afirmou. “Já vimos essa história antes [...] não podemos permitir que isso aconteça novamente”.
A Cúpula de Impacto da IA ocorre entre 16 e 20 de fevereiro de 2026 no Bharat Mandapam Convention Centre, em Nova Delhi, reunindo governos, empresas e organismos internacionais. O evento conta com a presença do secretário-geral da ONU, António Guterres, e representa a primeira grande articulação desse tipo sediada no Sul Global. A iniciativa ocorre após encontros anteriores organizados no Reino Unido (2023) e na França (2025), refletindo a disputa geopolítica pelo controle da governança global da inteligência artificial.
A ONU tenta estabelecer diretrizes internacionais por meio de instrumentos como o Pacto Digital Global, os Princípios para o Uso Ético da IA e a Recomendação da UNESCO sobre a Ética da Inteligência Artificial, adotada pelos 193 Estados-membros. Essas medidas buscam enfrentar a distribuição desigual dos benefícios tecnológicos, historicamente apropriados por centros de poder econômico do Norte Global e frequentemente alinhados a interesses estratégicos estadunidenses.
Apesar dos avanços, o cenário permanece marcado por assimetrias estruturais. Países do Sul Global ainda dependem de infraestrutura tecnológica controlada por empresas estrangeiras, enquanto disputam autonomia para desenvolver soluções locais. O caso das próteses com IA no Paquistão demonstra que, quando o conhecimento e a tecnologia são apropriados por inovadores locais, os resultados se traduzem em benefícios sociais diretos — algo que contrasta com o modelo dominante de exploração tecnológica orientado ao lucro e ao controle geopolítico.















































