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Da escravidão ao negacionismo oficial: legado de resistência da História Negra enfrenta retrocessos e ataques sob o governo Trump

A celebração do Mês da História Negra nos Estados Unidos tem origem no trabalho do historiador Carter G. Woodson, no início do século XX, em meio a um regime de segregação racial institucionalizada. Filho de pessoas anteriormente escravizadas, Woodson fundou em 1915 a associação que hoje é conhecida como Associação para o Estudo da Vida e História Afro-Americana (ASALH). Em 1926, ele instituiu a “Semana da História Negra”, realizada em fevereiro, mês dos aniversários de Frederick Douglass e Abraham Lincoln. A iniciativa buscava confrontar o apagamento sistemático das contribuições negras em uma sociedade marcada por leis discriminatórias. Um século depois, sob o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a disputa sobre memória histórica e racismo estrutural segue no centro da política estadunidense.


Whipped Peter, também conhecido como Gordon, foi um homem escravizado nos Estados Unidos que se tornou símbolo internacional da brutalidade da escravidão após a divulgação, em 1863, de uma fotografia mostrando suas costas marcadas por cicatrizes de chicotadas.
Whipped Peter, também conhecido como Gordon, foi um homem escravizado nos Estados Unidos que se tornou símbolo internacional da brutalidade da escravidão após a divulgação, em 1863, de uma fotografia mostrando suas costas marcadas por cicatrizes de chicotadas.

Carter Godwin Woodson nasceu em 1875, na Virgínia, filho de pais que haviam sido escravizados e não sabiam ler nem escrever. Trabalhou na fazenda da família e em minas de carvão na Virgínia Ocidental antes de conseguir acesso regular à educação formal já na juventude. Mesmo tendo iniciado o ensino médio apenas aos vinte e poucos anos, concluiu doutorado em História pela Universidade Harvard, tornando-se um dos primeiros afro-americanos a obter o título na instituição.


No início do século XX, Woodson denunciava o que considerava um silenciamento deliberado das realizações negras. “O negro não foi educado”, escreveu ele. “Ele foi apenas informado sobre outras coisas que lhe são proibidas.” Para o historiador, o sistema educacional estadunidense reproduzia estereótipos racistas ao omitir a complexidade das sociedades africanas e as contribuições de afro-americanos na formação econômica, cultural e política do país.


Em 1915, ano em que os Estados Unidos marcavam o 50º aniversário do fim formal da escravidão após a Guerra Civil (1861-1865), Woodson fundou a organização que daria origem à atual ASALH. No mesmo período, colaborou na Exposição do Progresso Negro, realizada em Chicago, que apresentou ao público realizações históricas e contemporâneas da população negra. Também lançou o que se tornaria o The Journal of African American History, primeiro periódico acadêmico dedicado ao tema.


A partir de 1926, Woodson institucionalizou a “Semana da História Negra”, celebrada anualmente em fevereiro. Escolheu o mês por coincidir com os aniversários de Frederick Douglass, abolicionista que escapou da escravidão e se tornou um dos principais intelectuais do século XIX, e de Abraham Lincoln, presidente durante a Guerra Civil. Durante a semana, escolas promoviam encenações históricas e jornais negros publicavam reportagens e ensaios sobre a trajetória afro-americana.


O historiador Jeffrey Aaron Snyder registra que a semana não se limitava ao passado. Ela também celebrava produção artística contemporânea nas áreas de música, literatura e artes visuais, reforçando a ideia de que a história negra era dinâmica e constitutiva da identidade nacional. Ao longo das décadas, a iniciativa se expandiu até se consolidar como o Mês da História Negra, oficialmente reconhecido pelo governo federal em 1976.


A origem da celebração revela, no entanto, que o reconhecimento institucional não nasceu de concessão espontânea do poder. Foi fruto de organização intelectual e política diante de um Estado que, durante grande parte de sua história, legitimou a segregação racial por meio de leis e práticas excludentes. Do período escravista às legislações Jim Crow, a exclusão foi estruturante da formação estadunidense.


Hoje, quando debates sobre currículo escolar, racismo estrutural e memória histórica voltam a polarizar o país sob o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a trajetória iniciada por Woodson permanece atual. O Mês da História Negra não surgiu como peça decorativa do calendário oficial, mas como resposta direta a um projeto histórico de apagamento. Celebrá-lo, portanto, é também disputar narrativas sobre poder, cidadania e democracia em uma sociedade ainda marcada por desigualdades raciais profundas.

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