Da escravidão ao negacionismo oficial: legado de resistência da História Negra enfrenta retrocessos e ataques sob o governo Trump
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A celebração do Mês da História Negra nos Estados Unidos tem origem no trabalho do historiador Carter G. Woodson, no início do século XX, em meio a um regime de segregação racial institucionalizada. Filho de pessoas anteriormente escravizadas, Woodson fundou em 1915 a associação que hoje é conhecida como Associação para o Estudo da Vida e História Afro-Americana (ASALH). Em 1926, ele instituiu a “Semana da História Negra”, realizada em fevereiro, mês dos aniversários de Frederick Douglass e Abraham Lincoln. A iniciativa buscava confrontar o apagamento sistemático das contribuições negras em uma sociedade marcada por leis discriminatórias. Um século depois, sob o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a disputa sobre memória histórica e racismo estrutural segue no centro da política estadunidense.

Carter Godwin Woodson nasceu em 1875, na Virgínia, filho de pais que haviam sido escravizados e não sabiam ler nem escrever. Trabalhou na fazenda da família e em minas de carvão na Virgínia Ocidental antes de conseguir acesso regular à educação formal já na juventude. Mesmo tendo iniciado o ensino médio apenas aos vinte e poucos anos, concluiu doutorado em História pela Universidade Harvard, tornando-se um dos primeiros afro-americanos a obter o título na instituição.
No início do século XX, Woodson denunciava o que considerava um silenciamento deliberado das realizações negras. “O negro não foi educado”, escreveu ele. “Ele foi apenas informado sobre outras coisas que lhe são proibidas.” Para o historiador, o sistema educacional estadunidense reproduzia estereótipos racistas ao omitir a complexidade das sociedades africanas e as contribuições de afro-americanos na formação econômica, cultural e política do país.
Em 1915, ano em que os Estados Unidos marcavam o 50º aniversário do fim formal da escravidão após a Guerra Civil (1861-1865), Woodson fundou a organização que daria origem à atual ASALH. No mesmo período, colaborou na Exposição do Progresso Negro, realizada em Chicago, que apresentou ao público realizações históricas e contemporâneas da população negra. Também lançou o que se tornaria o The Journal of African American History, primeiro periódico acadêmico dedicado ao tema.
A partir de 1926, Woodson institucionalizou a “Semana da História Negra”, celebrada anualmente em fevereiro. Escolheu o mês por coincidir com os aniversários de Frederick Douglass, abolicionista que escapou da escravidão e se tornou um dos principais intelectuais do século XIX, e de Abraham Lincoln, presidente durante a Guerra Civil. Durante a semana, escolas promoviam encenações históricas e jornais negros publicavam reportagens e ensaios sobre a trajetória afro-americana.
O historiador Jeffrey Aaron Snyder registra que a semana não se limitava ao passado. Ela também celebrava produção artística contemporânea nas áreas de música, literatura e artes visuais, reforçando a ideia de que a história negra era dinâmica e constitutiva da identidade nacional. Ao longo das décadas, a iniciativa se expandiu até se consolidar como o Mês da História Negra, oficialmente reconhecido pelo governo federal em 1976.
A origem da celebração revela, no entanto, que o reconhecimento institucional não nasceu de concessão espontânea do poder. Foi fruto de organização intelectual e política diante de um Estado que, durante grande parte de sua história, legitimou a segregação racial por meio de leis e práticas excludentes. Do período escravista às legislações Jim Crow, a exclusão foi estruturante da formação estadunidense.
Hoje, quando debates sobre currículo escolar, racismo estrutural e memória histórica voltam a polarizar o país sob o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a trajetória iniciada por Woodson permanece atual. O Mês da História Negra não surgiu como peça decorativa do calendário oficial, mas como resposta direta a um projeto histórico de apagamento. Celebrá-lo, portanto, é também disputar narrativas sobre poder, cidadania e democracia em uma sociedade ainda marcada por desigualdades raciais profundas.















































