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Eles fugiram da guerra quando crianças, como refugiados, e agora estão jogando na Copa

A Copa do Mundo de 2026 reúne atletas cujas vidas começaram em campos de refugiados ou foram moldadas por guerras, ocupações e deslocamentos forçados. Pelo menos nove jogadores presentes no torneio carregam trajetórias ligadas ao refúgio, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). As histórias desses atletas contrastam com a celebração esportiva promovida pela FIFA e expõem a dimensão humana de crises produzidas por décadas de violência, intervenções militares e colapsos políticos em diferentes regiões do mundo.


Nestory Irankunda nasceu em um campo de refugiados na Tanzânia e agora representa a Austrália na Copa do Mundo da FIFA de 2026 | Stu Forster / AFP
Nestory Irankunda nasceu em um campo de refugiados na Tanzânia e agora representa a Austrália na Copa do Mundo da FIFA de 2026 | Stu Forster / AFP

Disputada por 48 seleções e sediada por Canadá, México e Estados Unidos, a Copa do Mundo de 2026 tornou-se também um espaço onde emergem relatos de famílias obrigadas a abandonar seus países devido a guerras civis, perseguições e destruição social. Em maio, o ACNUR reuniu vários desses atletas na campanha "Gamechanging Team" ("Equipe que Muda o Jogo"), apresentada como uma iniciativa para destacar trajetórias de refugiados que alcançaram o principal torneio do futebol mundial.


Segundo o ACNUR, 117 milhões de pessoas encontram-se deslocadas no mundo atualmente, incluindo quase 49 milhões de crianças. O Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, Barham Salih, afirmou ao anunciar a campanha que a Copa do Mundo representa "um momento ideal... para enviar uma mensagem de esperança aos fãs de todo o mundo".


Entre os casos de maior destaque está o de Nestory Irankunda, atacante australiano de 20 anos que se tornou o jogador mais jovem a marcar um gol pela Austrália em uma Copa do Mundo. O feito ocorreu em Vancouver, durante a vitória australiana por 2 a 0 sobre a Turquia na fase de grupos.


A comemoração reproduziu um gesto associado ao ex-jogador australiano Tim Cahill, mas a trajetória de Irankunda começou longe dos estádios. Ele nasceu em um campo de refugiados em Kigoma, na Tanzânia, após seus pais fugirem da guerra civil no Burundi. Em entrevista à beIN Sports, o atleta recordou a fuga da família e relatou: "Minha irmã mais velha estava doente e eles quase a abandonaram, mas meu pai não conseguiu". Após marcar contra a Turquia, declarou: "É surreal, um sonho que se tornou realidade".


A seleção australiana reúne outras histórias semelhantes. Mohamed Touré nasceu em 2004 em um campo de refugiados em Conacri, na Guiné, depois que sua família escapou de um ataque contra sua cidade natal na Libéria. Seu pai, Amara Touré, afirmou ao canal Football Australia, em declarações reproduzidas pela ITV News Anglia em 12 de junho de 2026: "Nossa cidade foi atacada por um grupo de homens e tivemos que fugir". A família passou 14 anos aguardando reassentamento antes de se estabelecer em Adelaide. O jogador afirmou que sua maior satisfação seria ouvir o pai dizer que o filho disputou uma Copa do Mundo.


Outro integrante da equipe australiana, Awer Mabil, nasceu no campo de refugiados de Kakuma, no Quênia, após seus pais deixarem o Sudão do Sul em meio à guerra civil. Reassentado na Austrália aos dez anos de idade, Mabil converteu o pênalti que garantiu a classificação australiana para a Copa do Mundo de 2022. Em junho de 2026, durante a Semana dos Refugiados, declarou ao jornal filipino Sunstar: "Tudo é possível... então continue". O jogador também participou da fundação da organização Barefoot to Boots, que distribui equipamentos esportivos para crianças em Kakuma.


O Canadá é representado por Alphonso Davies, capitão da seleção e um dos nomes mais conhecidos do torneio. Davies nasceu em 2000 no campo de refugiados de Buduburam, em Gana, depois que seus pais deixaram a Libéria durante a guerra civil. A família mudou-se para Edmonton quando ele tinha cinco anos. Em março de 2021, tornou-se o primeiro jogador de futebol nomeado Embaixador Global da Boa Vontade do ACNUR. Ao anunciar sua nomeação, afirmou: "Embora o campo de refugiados tenha proporcionado um lugar seguro para minha família quando fugiram da guerra, muitas vezes me pergunto onde eu estaria se tivesse ficado lá. Não acho que teria chegado aonde cheguei hoje".


A representação da Bósnia e Herzegovina também inclui atletas cujas vidas foram impactadas pela guerra dos Bálcãs. Ermedin Demirovic nasceu na Alemanha após seu pai fugir da Bósnia durante o conflito da década de 1990. Apesar de ter nascido em território alemão, optou por defender a seleção bósnia. Em maio, declarou ao ACNUR: "Representar a Bósnia e Herzegovina em apenas sua segunda Copa do Mundo me deixa incrivelmente orgulhoso".


Seu companheiro Asmir Begovic deixou a Bósnia aos quatro anos de idade. A família passou pela Alemanha antes de se estabelecer no Canadá, onde ele iniciou sua formação esportiva. Em entrevista concedida ao Goal.com em 2022, recordou os efeitos da guerra: "De vez em quando, tenho flashbacks quando viajo de carro. Ninguém sentia pena de nós, e você não podia sentir pena de si mesmo".


A Alemanha conta com Antonio Rudiger, cuja mãe deixou Serra Leoa em 1991 durante a guerra civil no país africano. Nascido em Berlim, o defensor cresceu em Neukölln. Em entrevista publicada pelo Chelsea FC em 2020, descreveu o bairro como uma região habitada por muitos refugiados. Ao participar da campanha do ACNUR, declarou: "Meus pais vieram da Serra Leoa para a Alemanha em busca de segurança e um futuro melhor. Representar a Alemanha é um momento de fechamento de ciclo para mim".


A seleção iraquiana voltou à Copa do Mundo após cerca de quatro décadas e levou consigo a história de Ali Al-Hamadi. Sua família deixou o Iraque em 2003 após seu pai ser preso por participar de um protesto contra Saddam Hussein. Após a libertação, a família estabeleceu-se no Reino Unido. Em entrevista reproduzida pela BBC neste mês, o atacante afirmou: "Não é só meu pai, é minha mãe. Para uma jovem mulher me gerar... e ter que deixar seu país natal... foi realmente doloroso".


A França conta com Eduardo Camavinga, nascido em um campo de refugiados em Angola após seus pais deixarem a República Democrática do Congo. Antes da final da Liga dos Campeões de 2022, declarou em comunicado divulgado pelo ACNUR: "Nasci em um campo de refugiados em Angola, depois que minha família fugiu da guerra. Sou grato por jogar e orgulhoso de fazê-lo como ex-refugiado".


Nem todas as trajetórias ligadas ao refúgio chegaram à fase final do torneio. Bernard Kamungo, nascido próximo a um campo de refugiados na Tanzânia após sua família fugir da República Democrática do Congo, estreou pela seleção dos Estados Unidos em 2024, mas ficou fora da lista final para a Copa do Mundo.


Também ausente do torneio está Victor Moses. A Nigéria não conseguiu classificação para a competição, encerrando a possibilidade de nova participação do jogador em Copas do Mundo. Em 2002, aos 11 anos, Moses perdeu os pais em um episódio de violência religiosa na cidade de Kaduna e fugiu sozinho para o Reino Unido, onde foi acolhido por uma família adotiva. Anos depois, conquistou a Premier League pelo Chelsea e disputou a Copa do Mundo de 2018 pela seleção nigeriana.

 
 

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