Estado policial: Pentágono convoca civis para reforçar repressão migratória
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O Departamento de Defesa dos Estados Unidos convocou funcionários civis a se voluntariarem para operações de imigração em apoio ao Departamento de Segurança Interna (DHS). A medida ocorre enquanto a agência entra em seu segundo mês sem financiamento aprovado pelo Congresso e enfrenta uma crise pública por denúncias de violência. O chamado foi feito por e-mail na quinta-feira, comparando a repressão migratória a respostas a desastres naturais. O governo do presidente Donald Trump intensifica, assim, a militarização das políticas migratórias em território doméstico. O reforço direto ao aparato de detenção e vigilância amplia o papel do Estado estadunidense no controle coercitivo de populações vulneráveis.
O e-mail, emitido pelo Gabinete do Subsecretário de Defesa para Pessoal e Prontidão, afirma que voluntários irão “apoiar diretamente as operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) em seus esforços para garantir um sistema de imigração seguro e organizado”. O documento também indica que participantes já atuaram no “desenvolvimento de conceitos operacionais, apoio logístico e gerenciamento de atividades de fiscalização que aumentam a segurança pública”.
A mensagem compara explicitamente a repressão migratória a emergências como incêndios florestais, convocando servidores a “se mobilizarem para o próximo desafio do nosso país”. A analogia enquadra a presença de migrantes como uma ameaça a ser contida com lógica de desastre, justificando medidas excepcionais e ampliando a normalização do aparato repressivo.
O DHS está sem financiamento desde fevereiro de 2026, após o Congresso não renovar seu orçamento em meio a disputas políticas. No início de março, Trump demitiu a então secretária Kristi Noem. Paralelamente, operações do ICE e da CBP têm gerado forte reação pública, incluindo denúncias de terror em comunidades migrantes e a morte de dois civis em Minneapolis.
O memorando, divulgado inicialmente pelo Military Times e posteriormente compartilhado em redes sociais, aponta que mais de 900 pessoas já se inscreveram no programa, embora apenas cerca de 200 tenham sido efetivamente mobilizadas até 11 de março, segundo comunicado oficial do próprio Departamento de Defesa. O portal USA Jobs, vinculado ao governo federal, lista vagas com salários entre US$ 25.684 e US$ 191.900 anuais, incluindo funções como entrada de dados, apoio logístico e gestão do fluxo de detidos.

Em agosto de 2025, o subsecretário adjunto de defesa para políticas de pessoal civil, Michael A. Cogar, já havia defendido a participação de civis em operações do DHS, afirmando:
“Este é um problema de segurança nacional, e nossos civis possuem as habilidades essenciais para apoiar o Departamento de Segurança Interna (DHS) em sua missão”.
Desde o início do atual mandato de Trump, o Departamento de Defesa tem sido integrado de forma crescente às políticas migratórias. A declaração de emergência nacional na fronteira sul autorizou o envio de forças militares para a região, consolidando uma estratégia que aproxima práticas de guerra de políticas internas.
Essa convergência entre aparato militar e controle migratório tem implicações profundas. Ao tratar mobilidade humana como ameaça de segurança, o Estado estadunidense expande mecanismos de vigilância, detenção e coerção que historicamente recaem sobre populações racializadas e economicamente vulneráveis. Ao mesmo tempo, desloca recursos e prioridades: em dezembro de 2025, parlamentares acusaram o governo de desviar ao menos US$ 2 bilhões do orçamento do Pentágono para iniciativas na fronteira, em detrimento de outras áreas.
Sem respostas oficiais do DHS, ICE ou CBP aos pedidos de esclarecimento, o que emerge é um quadro de militarização crescente da política migratória. Sob o discurso de “segurança”, consolida-se uma arquitetura institucional que trata civis como alvo e transforma a exceção em rotina — uma lógica que, longe de episódica, reflete padrões históricos de intervenção e controle do poder estadunidense dentro e fora de suas fronteiras.



































