top of page
  • LOGO CLD_00000

Haiti: explosão no recrutamento de crianças por gangues enquanto Estado desmorona

A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou em 20 de fevereiro de 2026 para um “aumento alarmante” no recrutamento de crianças por gangues no Haiti. O fenômeno ocorre em meio ao colapso da segurança pública, da governança e dos serviços básicos no país caribenho. Pelo menos 26 grupos armados operam em Porto Príncipe e arredores, controlando territórios e impondo extorsões violentas à população.


Um agente da Polícia Nacional Haitiana patrulha Porto Príncipe em um veículo blindado. ©Giles Clarke I UNNEWS
Um agente da Polícia Nacional Haitiana patrulha Porto Príncipe em um veículo blindado. ©Giles Clarke I UNNEWS

O relatório divulgado pela ONU detalha que gangues como 103 Zombies, Village de Dieu, Tokyo e Kraze Barye dominam amplas zonas de Porto Príncipe, enfrentando forças de segurança fragilizadas e disputando supremacia territorial com armamento pesado. Em bairros sob seu controle, o acesso a escolas, serviços de saúde e assistência social foi drasticamente reduzido, ampliando a vulnerabilidade de milhares de menores.


A pobreza extrema e o deslocamento forçado agravam o cenário. Milhares de famílias continuam fugindo de suas casas devido à violência armada, segundo dados apresentados pela ONU. Com a desestruturação familiar e a fome, crianças passam a enxergar nas gangues uma fonte de renda, proteção ou pertencimento — ainda que sob coerção.


Pierre, recrutado aos 10 anos, relatou à ONU: “Eles (os membros da gangue) me deram cigarros e restos de cocaína. Fiquei muito viciado. Depois de usar cocaína, eu não me comportava mais como uma pessoa normal. Eu me sentia em outro mundo e pronto para matar qualquer um.” O testemunho expõe o uso deliberado de drogas como instrumento de manipulação psicológica.

Joseph, hoje com 16 anos, descreveu o ambiente em que cresceu: “Via homens armados nas ruas o tempo todo. Alguns estavam bem vestidos, tinham carros bons e estavam rodeados de mulheres.” A ostentação armada e a ausência do Estado criam uma lógica perversa em que o poder das armas substitui qualquer promessa institucional.


Dentro das estruturas criminosas, crianças desempenham múltiplas funções: vigias, mensageiros, informantes e participantes diretos de confrontos armados, postos de controle e sequestros para resgate. Uma delas relatou receber até US$ 1.000 por semana — cifra expressiva em um país onde grande parte da população vive abaixo da linha da pobreza. O dado evidencia como a economia do crime se tornou uma engrenagem estruturante em territórios abandonados pelo poder público.


Meninas enfrentam riscos ainda mais graves. Julia declarou: “Membros de duas gangues aliadas me forçaram a ter relações sexuais com vários deles em pelo menos seis ocasiões. Essas gangues controlam a área onde eu morava e criaram uma atmosfera de medo.” A violência sexual, segundo a ONU, aprofunda traumas, estigmatiza vítimas e dificulta qualquer reintegração social.


Louis, de 17 anos, afirmou ter ingressado em uma gangue após o assassinato do pai: “Entrei para uma gangue para vingar a morte do meu pai. Ele foi morto por uma gangue rival enquanto ia para o trabalho. Rapidamente ganhei a confiança dos membros mais velhos da gangue. Eles se tornaram como minha família.” O ciclo de violência, nesse contexto, retroalimenta-se.

A ONU sustenta que respostas puramente securitárias são insuficientes. O novo relatório defende o fortalecimento urgente dos sistemas de proteção à criança, a retomada do acesso à educação e programas de apoio financeiro a famílias, especialmente aquelas chefiadas por mulheres. Escolas são apontadas como elemento central de prevenção, com iniciativas como cantinas escolares, reabilitação de prédios, construção de espaços temporários de aprendizagem e transferência direta de renda.


Organizações locais recebem apoio para desenvolver programas de formação profissional destinados a jovens, oferecendo alternativas concretas à economia armada. Paralelamente, foi criada em 2025 a Força de Repressão a Gangues, com mandato de 5.000 agentes e apoio da ONU, com a missão de conter a expansão territorial dos grupos armados.


A ONU também trabalha para fortalecer o sistema judiciário haitiano no combate ao tráfico de crianças, reconhecendo que sem reconstrução institucional e investimento social, o recrutamento infantil tende a se consolidar como parte estrutural da crise haitiana.



Valoriza o que estamos fazendo? Considere apoiar a ampliação do nosso trabalho com uma contribuição via PIX para jornalclandestino@icloud.com

editora
clandestino

Ao adquirir um de nossos arquivos, você contribui para a expansão de nosso trabalho.

Adquira um dos nossos produtos e fortaleça quem segue produzindo conteúdo, arte e resistência independente.

últimas
histórias

bottom of page