top of page
  • LOGO CLD_00000

ONU: “Ataques em El Fasher apresentam características de genocídio no Sudão.”

Investigadores da Organização das Nações Unidas concluíram que os ataques em El Fasher, no norte de Darfur, apresentam “características de genocídio” contra comunidades Zaghawa e Fur. O relatório da Missão Independente Internacional de Apuração de Factos para o Sudão foi divulgado em 19 de fevereiro de 2026 e documenta assassinatos em massa, violência sexual generalizada e desaparecimentos forçados. Os crimes ocorreram durante a tomada da cidade pelas Forças de Apoio Rápido, após um cerco de 18 meses iniciado no contexto da guerra civil que começou em 15 de abril de 2023. Segundo a ONU, dezenas de milhares de pessoas já foram mortas e milhões deslocadas desde o início do conflito entre Forças Armadas Sudanesas e as RSF.


Hospital no Sudão ©MSF
Hospital no Sudão ©MSF

O relatório da Missão Independente Internacional de Apuração de Factos para o Sudão, criada pelo Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas em outubro de 2023, concluiu que há evidências de pelo menos três atos constitutivos de genocídio: assassinato de membros de grupos étnicos protegidos, danos graves à integridade física e mental e imposição deliberada de condições de vida destinadas à destruição física, total ou parcial, das comunidades atingidas. O documento detalha que os ataques foram conduzidos de forma organizada e com apoio da liderança superior das Forças de Apoio Rápido.


Mohamed Chande Othman, presidente da missão, afirmou que “a escala, a coordenação e o endosso público da operação por parte da liderança sénior das RSF demonstram que os crimes cometidos em e à volta de El Fasher não foram excessos aleatórios da guerra”. Segundo ele, tratou-se de “uma operação planejada e organizada que apresenta as características definidoras de um genocídio”. A integrante da missão Mona Rishmawi reforçou que a fome imposta, a violência sexual, os assassinatos em massa e os desaparecimentos forçados “deixam apenas uma inferência razoável: estas são as características de um genocídio”.

A cidade de El Fasher foi submetida a um cerco de cerca de 500 dias, durante os quais a população civil foi privada sistematicamente de alimentos, água, assistência médica e ajuda humanitária. O relatório aponta que esse bloqueio prolongado “enfraqueceu sistematicamente a população-alvo através da fome, privação, trauma e confinamento”, impedindo a fuga de milhares de pessoas antes da ofensiva final das RSF em outubro de 2025. A estratégia, segundo os investigadores, reproduz e amplia padrões anteriores de perseguição a comunidades não árabes em Darfur desde o início dos anos 2000.


Testemunhos recolhidos pela missão revelam a intenção explícita de extermínio étnico. Sobreviventes relataram ameaças diretas de combatentes das RSF, como “Há algum Zaghawa entre vocês? Se encontrarmos Zaghawa, matamo-los a todos” e “Queremos eliminar tudo o que é preto de Darfur”. A missão identificou um padrão consistente de ataques direcionados por etnia, gênero e filiação política, incluindo violência sexual seletiva contra mulheres Zaghawa e Fur, enquanto mulheres percebidas como árabes eram poupadas.


Apesar de alertas internacionais reiterados desde meados de 2024 sobre o risco iminente de atrocidades, nenhuma medida eficaz foi tomada para proteger a população civil em El Fasher. O relatório destaca que havia “indicadores claros de risco de atrocidades” antes da ofensiva final e que o fracasso em agir permitiu a escalada dos crimes. O conflito, iniciado em abril de 2023 entre as Forças Armadas Sudanesas e as RSF, já se expandiu para outras regiões, como Cordofão, agravando a crise humanitária e o colapso dos serviços básicos.


A integrante da missão Joy Ngozi Ezeilo classificou os acontecimentos como “uma manifestação aguda de padrões consistentes com violência genocida”. O documento conclui que, sem mecanismos efetivos de responsabilização, a repetição de crimes em larga escala é provável. Ohtman declarou que “os perpetradores em todos os níveis de autoridade devem ser responsabilizados” e que, quando há evidências de genocídio, “a comunidade internacional tem uma obrigação acrescida de prevenir, proteger e garantir que a justiça seja feita”.


O relatório será apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em 26 de fevereiro de 2026 e reforça a urgência de proteção imediata aos civis em Darfur. Em meio à repetição de padrões históricos de violência étnica e negligência internacional, El Fasher torna-se mais um capítulo de um ciclo de destruição que, apesar de amplamente documentado, continua a se repetir sob a complacência de uma ordem global incapaz — ou desinteressada — em impedir crimes contra a humanidade quando estes ocorrem longe dos centros de poder.

editora
clandestino

Ao adquirir um de nossos arquivos, você contribui para a expansão de nosso trabalho.

Adquira um dos nossos produtos e fortaleça quem segue produzindo conteúdo, arte e resistência independente.

últimas
histórias

bottom of page