Haiti enfrenta "uma das crises humanitárias mais graves e de rápida deterioração no Hemisfério Ocidental", alerta alto funcionário da ONU
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Em 10 de abril de 2026, a Organização das Nações Unidas classificou a situação no Haiti como uma das crises humanitárias mais graves do Hemisfério Ocidental. A avaliação foi apresentada por Edem Wosornu, diretora de resposta a crises do Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, após missão realizada entre 16 e 20 de março de 2026. Segundo dados oficiais, 6,4 milhões de haitianos necessitam de assistência humanitária imediata, enquanto 5,7 milhões enfrentam fome aguda. A capital, Porto Príncipe, permanece cerca de 90% sob controle de grupos armados, evidenciando o colapso da autoridade estatal. O cenário inclui deslocamento massivo, fechamento de escolas e aumento expressivo da violência de gênero.

Durante coletiva de imprensa, Wosornu detalhou que a deterioração da situação é acelerada e estrutural, marcada por insegurança generalizada, colapso institucional e incapacidade operacional de resposta humanitária em diversas regiões. A missão incluiu visitas à capital Porto Príncipe e ao departamento Centre, onde uma recente escalada de violência deixou cerca de 80 mortos e forçou 13 mil pessoas a abandonar suas casas, ampliando um quadro já crítico de deslocamento interno que atinge 1,5 milhão de pessoas, equivalente a 12% da população nacional.
A diretora do OCHA enfatizou que os números refletem vidas concretas, afirmando: “Esses não são números abstratos. Eles representam famílias desenraizadas, famílias deslocadas; crianças separadas – muitas que perderam os lares que conheciam.” O agravamento da crise alimentar força famílias a reduzirem drasticamente o consumo de alimentos, enquanto crianças abandonam a escola para contribuir com a sobrevivência doméstica, aprofundando ciclos de pobreza e exclusão.
Nos locais visitados, a realidade observada revela condições extremas de sobrevivência. Em uma escola projetada para 400 alunos, aproximadamente 2.800 pessoas vivem amontoadas, sem infraestrutura mínima. “Eles descreveram a presença de vermes, baratas, saindo à noite; e erupções cutâneas na pele das crianças”, relatou Wosornu. “O próprio chão em que eu estava caminhando era o mesmo lugar onde as pessoas dormiam à noite.” O colapso educacional é igualmente evidente: 1.600 escolas permanecem fechadas, deixando cerca de 250 mil crianças sem acesso à educação formal.
A crise atinge de forma desproporcional mulheres e meninas, configurando um quadro descrito pela ONU como particularmente horrendo. Em 2025, foram registrados 8.100 casos de sobreviventes de violência de gênero, um aumento de 25% em relação ao ano anterior, sendo que metade envolve estupro. Uma em cada seis vítimas tem menos de 18 anos, evidenciando a vulnerabilidade extrema da infância em um ambiente dominado por violência armada e ausência de proteção institucional.
Durante a missão, Wosornu relatou o encontro com uma adolescente de 16 anos, deslocada e separada da família, que deu à luz após sofrer abuso sexual. A jovem, com um bebê de três meses, foi descrita como “uma criança segurando outra criança”, ilustrando a dimensão humana das estatísticas. Apesar da gravidade, apenas 30% das vítimas recebem atendimento médico ou psicológico nas 72 horas seguintes à violência, devido à insuficiência crônica de financiamento humanitário.
Mesmo diante desse cenário, equipes humanitárias seguem operando sob condições extremas. Funcionários locais, muitos também deslocados, continuam prestando assistência em áreas controladas por grupos armados. “Às vezes, eles negociam com os próprios atores armados de que estamos falando, prestando assistência em áreas de acesso extremamente difícil”, afirmou Wosornu, evidenciando o nível de risco envolvido nas operações.
Para 2026, organizações humanitárias solicitaram US$ 880 milhões para atender 4,2 milhões de pessoas no Haiti. Até o momento, menos de 20% desse valor foi efetivamente financiado, refletindo a retração global da ajuda internacional em um contexto de múltiplas crises simultâneas. A insuficiência de recursos compromete diretamente a capacidade de resposta em áreas críticas como alimentação, saúde e proteção.
Ao final da apresentação, Wosornu fez três apelos centrais: o fim imediato da violência armada, o reforço do financiamento humanitário e a construção de soluções políticas estruturais. “Precisamos ser honestos. A ajuda humanitária por si só não pode mudar o destino do povo haitiano e a trajetória do Haiti”, declarou. Segundo ela, investimentos contínuos em serviços essenciais são indispensáveis para alterar o curso da crise, em um país onde a resiliência da população contrasta com a persistente ausência de soluções políticas efetivas.



































