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Haiti sangra enquanto doadores viram o rosto

O Haiti enfrenta em 2026 uma das mais graves crises humanitárias do planeta, resultado direto da violência de gangues, do colapso institucional e de décadas de intervenções externas fracassadas. Grupos armados controlam amplas áreas de Porto Príncipe e já forçaram mais de 1,4 milhão de pessoas, cerca de 12% da população, a abandonar suas casas. Segundo a ONU, seis milhões de haitianos, de um total de 11,4 milhões, precisarão de algum tipo de assistência humanitária neste ano. Metade da população não tem acesso regular a alimentos, enquanto a desnutrição infantil cresce de forma acelerada. Mesmo assim, a resposta internacional segue dramaticamente subfinanciada.


António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas
António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas

O Plano de Resposta Humanitária da ONU para o Haiti em 2026 solicita US$ 880 milhões para atender 4,2 milhões das seis milhões de pessoas em situação crítica, com ações emergenciais em alimentação, abrigo, saúde, água, saneamento, proteção e educação. A falta desses recursos compromete operações básicas de salvamento, como apoio nutricional a crianças e serviços de proteção a mulheres e meninas, em um país onde a violência armada impede até o acesso físico das equipes humanitárias. De acordo com dados da ONU, milhares de pessoas já morreram em consequência direta da atuação das gangues apenas na capital.


A coordenadora humanitária da ONU no Haiti, Nicole Boni Kouassi, afirmou que o financiamento é indispensável “para preservar a vida e a dignidade de todos os haitianos e para manter viva a esperança para as gerações mais jovens”. Em agosto de 2025, o secretário-geral da ONU, António Guterres, foi ainda mais direto ao denunciar o abandono político do país: “O Haiti continua vergonhosamente negligenciado e lamentavelmente subfinanciado”. As declarações expõem a distância entre o discurso diplomático e a prática dos grandes doadores internacionais.

Haiti I ARQUIVO
Haiti I ARQUIVO

Os cortes já em curso atingem setores vitais. Programas de segurança alimentar foram reduzidos, deixando famílias sem assistência regular, enquanto o acesso à água potável encolheu com a diminuição dos serviços de WASH. A atenção primária em saúde perdeu cobertura, o apoio educacional foi limitado em um contexto de escolas fechadas e deslocamento em massa, e serviços de proteção — incluindo enfrentamento à violência de gênero e proteção infantil — sofreram retração significativa.


Em 2025, a ONU solicitou US$ 908 milhões para a resposta humanitária no Haiti e recebeu apenas 24% desse valor, colocando o país entre as crises menos financiadas do mundo. A justificativa oficial aponta “fadiga de doadores” e a concorrência com outras emergências globais, enquanto os efeitos estruturais do colonialismo, das políticas econômicas impostas de fora e das recorrentes intervenções internacionais seguem fora do debate central. O subfinanciamento também ameaça serviços aéreos humanitários, muitas vezes a única forma de alcançar comunidades isoladas por territórios controlados por gangues.


As consequências extrapolam as fronteiras haitianas. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) alertou que a combinação de violência, deslocamento e ausência de serviços básicos tende a intensificar a migração irregular, pressionar países vizinhos e fragilizar a cooperação regional. Em episódios recentes, crianças resgatadas no mar foram devolvidas às autoridades haitianas pela Guarda Costeira estadunidense, evidenciando como a crise humanitária se converte em problema regional sem que suas causas estruturais sejam enfrentadas.


No fim de 2025, a ONU lançou oficialmente o Plano de Resposta Humanitária para 2026, apelando a governos e parceiros por compromissos concretos. No início de fevereiro, porém, a campanha de arrecadação havia alcançado menos de 4% do necessário. Sem uma mudança real na prioridade política e financeira dada ao Haiti, milhões de pessoas seguirão presas a um ciclo de violência, privação e abandono internacional que já dura gerações.

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