Fome fabricada pela guerra empurra crianças sudanesas para níveis catastróficos de desnutrição
- www.jornalclandestino.org

- 9 de fev.
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A desnutrição aguda infantil atingiu níveis catastróficos em partes do norte de Darfur e da região do Grande Kordofan, no Sudão, segundo alerta divulgado em 5 de fevereiro de 2026 por analistas apoiados pela ONU. O aviso foi emitido pelo Sistema Integrado de Classificação da Segurança Alimentar em Fases (IPC), que aponta deterioração acelerada das condições alimentares em áreas devastadas por guerra, deslocamentos forçados e bloqueio de ajuda humanitária. Em duas localidades de Darfur do Norte, Um Baru e Kernoi, os limites críticos de desnutrição foram ultrapassados após a queda de El Fasher, capital regional, em outubro de 2025. As avaliações mais recentes indicam taxas de desnutrição aguda infantil de 52,9% em Um Baru e cerca de 34% em Kernoi. O cenário amplia o risco imediato de mortes evitáveis em um país já empurrado para uma emergência prolongada.

De acordo com o alerta do IPC, Um Baru e Kernoi localizam-se em zonas remotas do noroeste de Darfur do Norte, próximas a corredores de deslocamento em direção à fronteira com o Chade. Ambas passaram a concentrar grandes contingentes de civis que fugiram dos combates em El Fasher e arredores, onde a violência destruiu mercados, interrompeu meios de subsistência e praticamente paralisou o acesso humanitário. As avaliações realizadas em dezembro de 2025 confirmaram que Um Baru apresenta quase o dobro do limiar de fome definido pelo IPC, enquanto Kernoi já ultrapassa amplamente os níveis de emergência.
Embora o IPC tenha ressaltado que o alerta não constitui uma nova classificação formal de fome, os especialistas advertiram que “essas taxas alarmantes sugerem um risco aumentado de mortalidade excessiva”. O sistema de monitoramento acrescentou que muitas áreas afetadas por conflitos armados ou atualmente inacessíveis à ajuda humanitária podem estar enfrentando condições igualmente extremas, sem sequer serem plenamente avaliadas.
As projeções nacionais do IPC indicam que quase todo o Sudão deverá permanecer entre a Fase 4 (Emergência) e a Fase 5 (Catástrofe) entre fevereiro e maio de 2026. Para o conjunto do país, estima-se que ocorram cerca de 4,2 milhões de casos de desnutrição aguda ao longo do ano, incluindo mais de 800 mil casos de desnutrição aguda grave, números significativamente superiores aos registrados em 2025.
A crise alimentar está diretamente ligada à guerra iniciada em abril de 2023 entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), que devastou os sistemas de produção e abastecimento em todo o país. O conflito provocou deslocamentos em massa, colapso dos mercados, interrupções recorrentes nos serviços de saúde, água e nutrição e a fragmentação das redes de assistência.
Na região do Grande Kordofan, o IPC alertou para uma deterioração acelerada, especialmente após a retomada dos confrontos no fim de outubro de 2025. Mais de 88 mil pessoas foram deslocadas recentemente, elevando o total de deslocados na região para mais de um milhão. Os mercados locais figuram entre os menos funcionais do Sudão, com preços de alimentos muito acima da média nacional.
Sem a cessação imediata dos combates e a garantia de acesso humanitário em larga escala, os especialistas do IPC advertiram que o número de mortes evitáveis tende a crescer. O alerta expõe, mais uma vez, como a guerra prolongada e a militarização do território transformaram a fome em arma estrutural, com crianças pagando o preço mais alto do colapso político e social do Sudão.



































