Tijuca leva Carolina Maria de Jesus à Sapucaí em 2026
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A Unidos da Tijuca anunciou que o desfile de 2026 contará a trajetória de Carolina Maria de Jesus, escritora negra marcada pelo apagamento estrutural no Brasil pós-escravidão. O enredo foi apresentado pelo carnavalesco Edson Pereira em entrevista à Agência Brasil, em 14 de janeiro de 2026, no barracão da escola, na Cidade do Samba, no Rio de Janeiro. A narrativa será conduzida pela personagem Bitita, apelido dado à autora pelo avô Benedito, homem alforriado e contador de histórias. A proposta reconstrói cronologicamente a vida da escritora desde a infância em Sacramento, Minas Gerais, até o reconhecimento literário tardio. A escola afirma que o desfile assume o papel de reposicionar Carolina como figura central da cultura brasileira, historicamente marginalizada.

Segundo Edson Pereira, o enredo é explicitamente biográfico e organizado em ordem cronológica. “É um enredo bem biográfico. A história se desenvolve cronologicamente. O que a Tijuca faz é colocar a Carolina no palco”, declarou o carnavalesco. A escola apresentará múltiplas representações da autora, incluindo “a doméstica”, “a catadora”, “a escritora” e “a do carnaval”, evidenciando as camadas sociais impostas a uma mulher negra em um país estruturado pela herança colonial.
Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, em Sacramento (MG), e migrou para São Paulo, onde passou a viver na favela do Canindé, na Zona Norte da cidade. Foi nesse contexto que registrou, em diários, a fome, o racismo, a violência de gênero e a exclusão social. A obra Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, lançada em 1960, vendeu 10 mil exemplares na primeira semana, foi traduzida para ao menos 14 idiomas e publicada em mais de 40 países.
A terceira alegoria do desfile será dedicada ao livro, construída com papelão e materiais alternativos, em referência direta ao período em que Carolina sobreviveu como catadora de recicláveis. “É um carnaval de reconhecimento, de botar o dedo nas feridas”, afirmou Edson Pereira, ao destacar que os problemas denunciados pela autora seguem presentes na sociedade brasileira. Para ele, o apagamento da escritora não é um acidente histórico, mas resultado de uma estrutura que silencia vozes negras e periféricas.
A diretora de carnaval Elisa Fernandes, mulher negra e estreante na função no Grupo Especial, destacou o peso simbólico do enredo. “Como mulher negra, no primeiro ano na direção de carnaval, pegar um enredo desse é um presente até difícil de explicar”, disse. Elisa também implementou uma equipe de psicólogos nos bastidores da escola, medida inédita na Tijuca, para atender artistas e trabalhadores submetidos à intensa pressão do espetáculo.
A Unidos da Tijuca desfila na segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026, encerrando o segundo dia do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Ao levar Carolina Maria de Jesus à Sapucaí, a escola transforma o desfile em um ato político de memória, confrontando o apagamento histórico produzido por uma sociedade marcada pela desigualdade racial, social e de gênero.









































