Entre a tradição e os direitos humanos: como comunidades africanas enfrentam a mutilação genital feminina
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A mutilação genital feminina (MGF) segue vitimando meninas e mulheres na África, apesar de décadas de denúncia, com mais de 230 milhões de sobreviventes vivas hoje, segundo o Programa das Nações Unidas para a Saúde Sexual e Reprodutiva (UNFPA). Em 2026, cerca de 4,5 milhões de meninas correm risco imediato de serem submetidas ao procedimento, de acordo com a mesma agência. A prática é frequentemente justificada por discursos religiosos distorcidos e pela falácia de que sua erradicação seria “imposição estrangeira”. Dados e depoimentos reunidos pela ONU mostram o oposto: a resistência à MGF parte das próprias comunidades afetadas. Leis nacionais, fatwas islâmicas e liderança de sobreviventes estão produzindo mudanças mensuráveis.

Na região de Mara, na República Unida da Tanzânia, a MGF deixou de ser tratada como “rito de passagem inevitável” e passou a ser enfrentada publicamente por jovens como Olivia Albert, hoje com 19 anos. Submetida à prática aos 14, ela relatou ao UNFPA que “no fundo, eu sabia que o que tinha vivenciado não era algo pelo qual nenhuma garota deveria passar”, apesar da pressão social para silenciar a dor. Após participar de diálogos comunitários apoiados pela ONU, Albert passou a liderar um grupo juvenil de defesa de direitos. “Quando as meninas ouvem alguém que passou por isso, elas prestam atenção de forma diferente”, afirmou. “A liderança das sobreviventes está mudando minha comunidade.”
O UNFPA estima que a persistência da MGF se apoia na desinformação deliberada que associa a prática à religião islâmica. Em Kindia, na Guiné, o imã Ousmane Yabara Camara declarou publicamente: “A mutilação genital feminina não é uma prática do Islã”. Segundo ele, “muitas meninas sofrem com graves consequências para a saúde” e a educação deve ser usada para romper o ciclo. Escolas locais passaram a incluir educação sexual abrangente, ampliando o alcance da informação entre crianças e adolescentes.
Mudanças legais reforçam esse enfrentamento a partir de dentro. Em 2025, estudiosos islâmicos do Djibuti, da Eritreia e da Somália emitiram uma fatwa nacional afirmando que não há qualquer fundamento religioso para a MGF. A ativista djibutiana Nafissa Mahamoud Mouhoumed sintetizou o impacto político da medida: “Em nossos bairros, agora temos dois escudos poderosos: a Constituição e a fatwa”. Para ela, a combinação desmonta a “desculpa religiosa usada por gerações” e fortalece o diálogo direto com famílias.
Na Etiópia, onde três quartos das mulheres e meninas entre 15 e 49 anos foram submetidas a alguma forma de MGF, programas conjuntos do UNFPA e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) passaram a envolver homens e meninos. Mitiku Gunte, chefe distrital, relatou: “Durante anos, ficamos impotentes, assistindo mulheres sofrerem com complicações no parto”. Hoje, diálogos comunitários segmentados percorrem casas e vilarejos para confrontar crenças e responsabilidades masculinas.
A ONU também contesta a noção de “medicalização” da prática. Mesmo quando realizada por profissionais de saúde, a MGF “não é segura nem necessária” e “nunca tem justificativa médica”, segundo o UNFPA. A médica Maram Mahmoud, do Alto Egito, afirmou: “Frequentemente recebo casos em que o dano já está feito, com complicações graves”. Para ela, a informação direta tem mudado percepções: “Agora entendo melhor as mentalidades e me sinto mais confiante para explicar os sérios riscos e consequências.”









































