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Milei privatiza principal hidrovia da Argentina sob denúncias de favorecimento e alertas sobre soberania e impactos ambientais

O governo de Javier Milei concluiu a concessão da hidrovia Paraná-Paraguai, principal corredor de exportações do país. O processo entrega a gestão da via fluvial a um consórcio liderado pela empresa belga Jan de Nul. A decisão envolve uma rota que concentra cerca de 80% das exportações argentinas e integra uma das principais redes logísticas da América do Sul.


Javier Milei, presidente da Argentina
Javier Milei, presidente da Argentina

Na última sexta-feira, 19 de junho de 2026, a Argentina formalizou a nova concessão da hidrovia Paraná-Paraguai, que se estende pelo sistema do Rio Paraná até o estuário do Rio da Prata. O contrato inclui 1.635 quilômetros de via navegável e cobre um eixo por onde circula parte central do comércio exterior argentino. A empresa Jan de Nul, em associação com a argentina Servimagnus S.A., assumiu a operação após vencer o processo licitatório conduzido pelo governo.


O Ministério da Economia argentino e a Agência de Portos conduziram o processo de concessão após uma fase de suspensão judicial provocada por questionamentos de empresas concorrentes, incluindo a brasileira DTA Engenharia, que alegou restrições no edital e direcionamento da licitação. O procedimento também teve participação técnica da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, que acompanhou a estruturação do modelo de concessão.


O contrato inclui cobrança de pedágios, dragagem, manutenção e sinalização da hidrovia. As projeções financeiras indicam receita anual média de US$ 628,2 milhões para a concessionária. O governo argentino prevê redução de custos logísticos em 13,5%, segundo os termos apresentados no edital.


A disputa pela concessão ocorreu após o cancelamento de um processo anterior em fevereiro de 2026, quando apenas uma concorrente participou da etapa inicial. Na nova rodada, empresas europeias mantiveram participação limitada, enquanto estatais estrangeiras foram excluídas do processo. Entre os critérios técnicos definidos, a experiência operacional na própria hidrovia foi determinante para a habilitação da vencedora, condição já acumulada pela Jan de Nul durante concessões anteriores.


O processo de concessão também ocorreu sob disputa geopolítica envolvendo interesses de Estados Unidos e China no controle de infraestrutura logística regional. A empresa vencedora informou que não permitirá participação de entidades estatais chinesas na operação e declarou intenção de priorizar fornecedores de tecnologia de origem estadunidense e europeia.


A hidrovia Paraná-Paraguai integra um sistema de cerca de 3,5 mil quilômetros que atravessa Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Brasil. No território argentino, o trecho concentra mais de 60 terminais portuários e operações ligadas ao agronegócio exportador. A gestão privada do canal foi iniciada nos anos 1990, durante o governo de Carlos Menem, com a mesma empresa que agora retorna ao controle do sistema.


Em 1996, o Estado argentino concedeu a operação à Jan de Nul em consórcio com a empresa Emepa, sob o modelo Hidrovía S.A. O contrato permaneceu vigente até 2021, quando expirou e passou para administração temporária da Administração Geral dos Portos. Mesmo nesse período, contratos emergenciais mantiveram a participação da antiga concessionária em atividades de dragagem e balizamento.


Em janeiro de 2025, o governo de Javier Milei dissolveu a Administração Geral dos Portos e transferiu atribuições ao setor privado, reduzindo a estrutura estatal responsável pela regulação da hidrovia. No mesmo período, o governo anunciou novo plano de aprofundamento do canal de navegação de 36 para 39 pés em cinco anos, com possibilidade de expansão futura sem definição final de parâmetros técnicos adicionais.


A decisão de renovação da concessão encerra o período de administração transitória iniciado após o fim do contrato anterior e recoloca a Jan de Nul no centro da operação logística do principal corredor fluvial argentino, com impacto direto sobre a estrutura de exportação do país e sobre a gestão do sistema hidroviário da bacia do Prata.

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