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Motosserra em Milei: Crise econômica e escândalos de corrupção derrubam aprovação de presidente argentino

O presidente argentino Javier Milei registra os piores índices de rejeição desde que assumiu a Casa Rosada em dezembro de 2023. Pesquisas divulgadas nas últimas semanas apontam desaprovação superior a 60% em meio a denúncias de corrupção, recessão econômica e desgaste do discurso “anticasta”. Dados econômicos mostram retração da atividade industrial, aumento do desemprego e crescimento da informalidade enquanto o governo mantém políticas de austeridade apoiadas pelo capital financeiro internacional.


Foto: Tomas Cuesta/Getty Images
Foto: Tomas Cuesta/Getty Images

Levantamento da Atlas Intel divulgado no fim de abril apontou 63% de rejeição ao governo Milei e 35% de aprovação. Outra pesquisa, produzida pela consultoria Zentrix, mostrou que 66,6% da população considera que o governo abandonou a promessa de combate à corrupção e passou a integrar a mesma “casta política” denunciada pelo presidente durante a campanha eleitoral.


A retórica antipolítica utilizada por Milei durante a eleição presidencial de 2023 foi construída em torno do ataque ao Estado argentino, aos partidos tradicionais e ao peronismo. O presidente prometeu desmontar estruturas públicas, eliminar regulações econômicas e reduzir programas sociais em nome do ajuste fiscal exigido pelo mercado financeiro e pelos organismos multilaterais alinhados à política econômica estadunidense.


Desde o início do mandato, o governo argentino passou a enfrentar denúncias envolvendo integrantes da Casa Rosada e aliados políticos de Milei. Entre os casos investigados estão o escândalo envolvendo a criptomoeda Libra, irregularidades no armazenamento de alimentos no Ministério do Capital Humano, suspeitas sobre contratos farmacêuticos ligados à irmã do presidente, Karina Milei, e investigações sobre integrantes do núcleo político do governo. O governo argentino nega irregularidades e os processos ainda não foram concluídos pela Justiça.


O episódio mais recente envolve Manuel Adorni, chefe de gabinete e ex-porta-voz da Casa Rosada. Investigações apuram a aquisição de imóveis de alto valor considerados incompatíveis com a renda declarada pelo funcionário, estimada em cerca de R$ 12 mil mensais no câmbio atual. Adorni nega enriquecimento ilícito e afirma que seu patrimônio possui origem legal.


Javier Milei saiu em defesa de Adorni e declarou que preferiria perder eleições a abandonar seu aliado político. A declaração provocou repercussão entre setores que apoiaram o discurso “anticasta” utilizado pelo presidente contra governos anteriores.


O cientista político Ivan Schulliaquier, professor da Universidade San Martín, afirmou à Opera Mundi que o impacto político dos escândalos aumentou em meio ao agravamento das condições econômicas da população argentina. Segundo ele, houve deterioração da renda e do poder de compra da população.


“Também se colocou em risco a confiabilidade das estatísticas oficiais, depois das mudanças metodológicas e saídas de técnicos responsáveis por indicadores sociais, ampliando a desconfiança nos dados divulgados pelo governo, como a redução da inflação e da pobreza”, afirmou Schulliaquier.

Apesar da queda de popularidade, o pesquisador declarou que Milei ainda mantém uma base política próxima de 35% da população. “Ainda há um núcleo forte que segue apoiando o governo, como vemos nas pesquisas”, disse.


O cientista social argentino Alejo Pasetto, chefe de análise política da Epyca Consultores, afirmou que o aumento do custo de vida, o fechamento de empresas e a precarização do trabalho ampliaram a insatisfação social no país. Segundo ele, os casos de corrupção aprofundaram o desgaste político do governo.


“A crise econômica, impulsionada pelo aumento do custo de vida, fechamento de empresas e precarização do trabalho, é agravada pelos escândalos de corrupção e pela crise política da qual o governo não conseguiu sair ileso”, declarou.

O desgaste político do governo também atingiu a relação da Casa Rosada com a imprensa argentina. O governo Milei proibiu jornalistas credenciados de participarem de coletivas após acusações relacionadas a gravações dentro da sede presidencial. A medida foi revertida após repercussão pública.


Um jornalista argentino ouvido sob anonimato relatou à reportagem da Opera Mundi ter sofrido pressão interna após investigar denúncias envolvendo o governo Milei.


Quando assumiu a presidência, Javier Milei declarou que os argentinos deveriam suportar um período de “sacrifício” para equilibrar as contas públicas e reduzir a inflação. O governo implementou cortes de gastos públicos, redução de investimentos estatais e retração de programas sociais.


Dois anos e meio depois, indicadores econômicos mostram redução da inflação anual de cerca de 250% para aproximadamente 33%, além da obtenção de superávit fiscal. Ao mesmo tempo, dados oficiais registram retração econômica e deterioração das condições de emprego.


A atividade econômica argentina caiu 2,6% em fevereiro na comparação com janeiro e acumula retração de 2,1% em 12 meses. A produção industrial recuou 4% no mês e registra queda interanual de 8,7%.


O desemprego chegou a 7,5% no quarto trimestre de 2025, acima dos 6,4% registrados no mesmo período do ano anterior. O índice representa cerca de 1,7 milhão de desempregados. Na região da Grande Buenos Aires, a taxa atingiu 8,6%.


A informalidade alcançou quase 43% da população economicamente ativa do país. Economistas apontam que os setores que impulsionam o Produto Interno Bruto argentino possuem baixa capacidade de geração de empregos formais.


O economista Francisco Cantamutto, pesquisador do Centro de Investigação Científica Conicet, afirmou que a Argentina atravessa uma década de estagnação econômica sem retomada sustentada do crescimento. Segundo ele, o governo Milei representa “uma versão extrema da ortodoxia econômica”.


“O crescimento dos últimos anos foi puxado por poucos setores, mas isso não se traduz em criação de emprego”, afirmou.

Cantamutto declarou que os setores ligados ao agronegócio exportador, mineração, hidrocarbonetos e intermediação financeira concentram o crescimento econômico argentino sem absorver parcela significativa da força de trabalho. “Nenhum desses setores é especialmente gerador de empregos”, disse.


Segundo o pesquisador, a economia argentina registra substituição de empregos formais por trabalho informal e ocupações autônomas. “As pessoas trabalham mais horas, em jornadas extenuantes, para tentar alcançar uma renda suficiente”, afirmou.


“A população está esgotada, sem recursos suficientes e sem perspectiva de futuro”, declarou Cantamutto.

Pesquisas de intenção de voto mostram que Milei perdeu cerca de 10 pontos percentuais nos últimos cinco meses e aparece em empate técnico com o peronismo para as eleições presidenciais de 2027, oscilando entre 33% e 37%.


O cientista político Facundo Cruz, da Universidade de Buenos Aires, afirmou que apenas parte da perda eleitoral do governo foi absorvida pelo peronismo. “Os outros cinco pontos foram para forças menores e indecisos”, declarou.


Cruz afirmou que setores da base governista demonstram “desconcerto” e “desencanto” com o governo, mas declarou que Milei ainda pode recuperar apoio político caso consiga reduzir os efeitos dos escândalos e melhorar indicadores econômicos.


A oposição argentina permanece fragmentada desde a prisão domiciliar de Cristina Kirchner em junho de 2025. Segundo Alejo Pasetto, setores oposicionistas tentam construir alianças para 2027 enquanto Milei ainda se beneficia da divisão política do campo adversário.


“Diversos setores tentam construir alianças competitivas, mas Milei ainda se beneficia da fragmentação opositora”, afirmou Pasetto.

Ivan Schulliaquier declarou que o apoio ao presidente argentino também está ligado à identidade antiperonista e antikirchnerista consolidada nos últimos anos. “Há algo interessante: as identidades políticas continuam importando”, disse.


Segundo o pesquisador, a polarização política permanece intensa entre apoiadores e opositores do governo. Em janeiro de 2024, Milei registrava 49% de aprovação e 48% de rejeição. Pouco mais de dois anos depois, os índices se inverteram e a rejeição ultrapassou 60%.

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