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O mundo virou as costas: guerra no Sudão entra no quarto ano com crise recorde

A guerra no Sudão completa três anos em 15 de abril de 2026 com cerca de 34 milhões de pessoas necessitando de ajuda humanitária urgente. Dados divulgados em 14 de abril por agências da ONU indicam o-mundo-virou-as-costas-guerra-no-sudão-entra-no-quarto-ano-com-crise-recordeque 65% da população do país está afetada pela crise. O conflito, iniciado em 2023 entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), já deslocou aproximadamente 14 milhões de pessoas. Autoridades humanitárias denunciam o fracasso da comunidade internacional em conter a escalada de violência. A crise é agravada por instabilidades globais, incluindo impactos econômicos indiretos de conflitos no Oriente Médio.


Sudão _NPR
Sudão _NPR
O coordenador de ajuda humanitária de emergência da ONU, Tom Fletcher, afirmou em comunicado divulgado em Berlim que “este aniversário sombrio e humilhante marca mais um ano em que o mundo falhou em enfrentar o desafio do Sudão”. A declaração ocorre às vésperas de uma conferência internacional na capital alemã, onde representantes discutem medidas para conter o colapso humanitário no país africano, cenário de uma guerra prolongada que expõe a incapacidade das potências globais — frequentemente engajadas em intervenções seletivas — de responder a crises fora de seus interesses estratégicos imediatos.

Desde o início dos combates em 15 de abril de 2023, a disputa entre SAF e RSF devastou o país e provocou um deslocamento massivo. Segundo dados da ONU, cerca de 14 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar suas casas, sendo 9 milhões deslocadas internamente e 4,4 milhões refugiadas em países vizinhos como Chade, Egito e Sudão do Sul. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) alerta que essas nações estão “à beira do colapso”, pressionadas por fluxos migratórios que superam suas capacidades estruturais.


Apesar de aproximadamente 4 milhões de sudaneses terem retornado às suas regiões de origem, encontram um cenário de destruição generalizada. Zoe Brennan, da Organização Internacional para as Migrações (OIM), declarou em Genebra que essas populações enfrentam “sistemas de água quebrados, destruição e falta de abrigo básico e assistência médica”, evidenciando o abandono sistemático de áreas devastadas pela guerra.


A crise alimentar se intensifica sem perspectiva de reversão. Ross Smith, diretor de preparação e resposta a emergências do Programa Mundial de Alimentos (PMA), afirmou que “já se passaram dois anos desde o início da fome em algumas partes do país, e isso é simplesmente inaceitável nos dias de hoje”. Ele acrescentou que “milhões de sudaneses estão presos em uma luta diária para garantir segurança alimentar e dignidade básica”, descrevendo um cenário em que “os pais estão deixando de fazer refeições para que os filhos possam comer — e as crianças estão passando fome”.


A fome já foi confirmada em regiões como Darfur e Kordofan, onde os combates são mais intensos. Segundo o PMA, a crise interna é agravada por fatores externos, incluindo o aumento dos preços globais de commodities. O impacto indireto de conflitos internacionais — que afetam rotas comerciais e cadeias de suprimento — elevou os custos de alimentos, combustíveis e fertilizantes, dos quais o Sudão depende fortemente. O preço do combustível subiu mais de 24% em média, com aumentos ainda maiores em áreas remotas, ampliando o colapso econômico e empurrando mais pessoas para a fome.


A violência estrutural contra mulheres e meninas é apontada como componente central da guerra. A diretora regional da ONU Mulheres para a África Oriental e Austral, Anna Mutavati, declarou que “à medida que entramos no quarto ano de guerra no Sudão, é importante deixar claro o que isso significa para mulheres e meninas, porque, em última análise, esta é uma guerra contra elas”. Relatório da agência estima que 12,7 milhões de pessoas — majoritariamente mulheres e meninas — necessitam de apoio relacionado à violência sexual e de gênero, um salto em relação aos 3,1 milhões registrados em 2023. Mutavati afirmou que “assassinatos generalizados, deslocamento em massa e, sobretudo, o uso da violência sexual… estão incorporados na estrutura da guerra no Sudão”.


As crianças também estão entre as principais vítimas. De acordo com o UNICEF, mais de 4.300 crianças foram mortas ou mutiladas desde o início do conflito, enquanto mais de 5.700 violações graves foram registradas. A agência destaca que ataques com drones são responsáveis por 80% das mortes e ferimentos infantis. Apenas nos três primeiros meses de 2026, ao menos 245 crianças foram atingidas, principalmente em Darfur e Kordofan, número significativamente superior ao registrado no mesmo período de 2025.


Eva Hinds, chefe de comunicação do UNICEF, afirmou que “a realidade para as crianças no Sudão está se tornando mais sombria a cada hora”. Ela denunciou que drones atingem civis “em suas casas, em mercados, nas estradas, perto de escolas e instalações de saúde — todos lugares que nunca deveriam ser alvos”. Dados da ONU indicam que cerca de 700 civis foram mortos em ataques com drones apenas nos primeiros três meses de 2026.


Além das mortes, a infraestrutura do país está sendo sistematicamente destruída. James Reynolds, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), afirmou que entre 70% e 80% da infraestrutura de saúde em áreas de conflito está fora de operação ou funcionando de forma extremamente limitada. Redes de comunicação também foram amplamente destruídas, dificultando tanto o acesso da população a serviços básicos quanto a atuação de organizações humanitárias.


Diante do colapso generalizado, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reiterou seu apelo por um cessar-fogo imediato, acesso humanitário irrestrito e garantia de passagem segura para civis. Seu enviado pessoal para o Sudão, Pekka Haavisto, esteve no Quênia na semana anterior, onde realizou reuniões com grupos armados e atores políticos civis em tentativa de avançar negociações.


As agências humanitárias planejam alcançar 20 milhões de pessoas em 2026, acima dos 17 milhões previstos no ano anterior, mas o plano de assistência estimado em quase 3 bilhões de dólares permanece gravemente subfinanciado. Tom Fletcher apelou por ação imediata para “deter a violência, proteger os civis, garantir o acesso às comunidades em maior perigo e financiar a resposta”.

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