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"Precisamos de mais islamofobia": Republicanos intensificam ataques anti-muçulmanos

A retórica anti-muçulmana de parlamentares republicanos no Congresso estadunidense atingiu novos níveis de intensidade em 2026, com declarações públicas que defendem abertamente exclusão religiosa e cultural. Deputados como Andy Ogles e Randy Fine utilizaram a rede X para difundir conteúdo hostil, acumulando centenas de publicações com teor islamofóbico. Apesar da escalada, líderes republicanos no Congresso limitaram-se a declarações genéricas, sem aplicar sanções ou medidas disciplinares concretas. O fenômeno ocorre em contexto de alinhamento político com Israel e reconfiguração das disputas internas da direita estadunidense.


O deputado Andy Ogles, do Tennessee, declarou no mês anterior que “muçulmanos não pertencem à sociedade americana” e, desde então, publicou mais de 100 conteúdos anti-muçulmanos na plataforma X, segundo levantamento citado pela revista Mother Jones em 3 de abril de 2026. A ofensiva digital não é isolada: o deputado Randy Fine, da Flórida, escreveu em fevereiro que “se nos obrigarem a escolher, a escolha entre cães e muçulmanos não é difícil” e, já em abril, afirmou que “precisamos de mais islamofobia, não menos”. O senador Tommy Tuberville, do Alabama, também ampliou a retórica ao compartilhar imagens dos ataques de 11 de setembro ao lado do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, acompanhadas da legenda “O inimigo está dentro dos portões”.


A resposta institucional da liderança republicana tem sido limitada a tentativas de contenção retórica. O presidente da Câmara, Mike Johnson, declarou ter conversado com membros do partido sobre “nosso tom e nossa mensagem”, mas relativizou a gravidade das falas ao afirmar existir “um forte sentimento popular de que a exigência de impor a lei da sharia nos Estados Unidos é um problema sério”. Apenas no final de março, Johnson afirmou que “nunca devemos rejeitar grupos inteiros de pessoas” e acrescentou: “Obviamente, amamos os muçulmanos”, sem anunciar qualquer medida disciplinar contra os parlamentares envolvidos. No Senado, o líder da maioria, John Thune, disse não concordar com declarações que classificam muçulmanos como “inimigos”, mas evitou criticar diretamente Tuberville.



A intensificação do discurso islamofóbico se insere em uma trajetória política consolidada dentro do Partido Republicano. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, construiu parte de sua ascensão política com propostas como a proibição da entrada de muçulmanos no país durante sua primeira campanha presidencial. Em 2015, durante um comício, não contestou a afirmação de um participante de que o então presidente Barack Obama seria muçulmano e teria nascido fora dos Estados Unidos, reforçando teorias conspiratórias já disseminadas por setores da direita estadunidense.


O ambiente político recente ampliou essa dinâmica. Na Conferência de Ação Política Conservadora realizada na semana anterior à publicação da reportagem, Bo French, candidato republicano ao cargo de Comissário Ferroviário do Texas, declarou: “O problema é que chamamos isso de Sharia [lei], mas o problema é, na verdade, o Islã”. No Congresso, um grupo recém-formado denominado “Grupo da América Livre da Sharia” reúne cerca de 60 parlamentares, incluindo Ogles e Fine. Entre seus integrantes, o deputado Brandon Gill afirmou que “o Islã é incompatível com nossa cultura e nosso sistema de governo”, enquanto Andrew Clyde defendeu a proibição da “imigração islâmica”, além da revogação de cidadania e deportação de cidadãos já naturalizados.


A escalada retórica também se conecta ao posicionamento internacional do partido, especialmente no apoio à política israelense e à guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Parlamentares que lideram ataques contra muçulmanos figuram entre os mais alinhados à política externa israelense, direcionando a hostilidade a um alvo politicamente consolidado dentro da base republicana. Esse deslocamento ocorre em meio a tensões internas, com setores da extrema-direita demonstrando aproximação com discursos antissemitas, o que torna o ataque a muçulmanos uma alternativa de mobilização com menor custo político.


O caso de Andy Ogles ilustra essa dinâmica. Em junho de 2025, ele ganhou visibilidade ao pedir que Zohran Mamdani fosse privado da cidadania estadunidense e deportado, referindo-se a ele com o apelido “pequeno Mohammad”. Desde então, Ogles intensificou a publicação de conteúdos anti-muçulmanos, chegando a compartilhar o mesmo meme ofensivo ao menos dez vezes em um único dia. O deputado representa um distrito com milhares de eleitores muçulmanos, que correspondem a cerca de 1% da população adulta dos Estados Unidos.


Antes dessa escalada, Ogles era conhecido por controvérsias envolvendo declarações falsas e por uma investigação do FBI relacionada ao financiamento de sua campanha de 2022, na qual admitiu ter declarado um empréstimo pessoal inexistente. Promotores responsáveis pela investigação foram retirados do caso pouco após Ogles propor uma emenda constitucional para permitir que Donald Trump concorresse a um terceiro mandato.


Outro elemento relevante é o uso instrumental da desinformação histórica. Em março de 2026, um vídeo publicado na conta de Ogles o mostra criticando o Islã e afirmando que os colonos de Jamestown eram puritanos, o que contradiz registros históricos amplamente documentados nos currículos educacionais básicos dos Estados Unidos.


Randy Fine, por sua vez, combina ataques a muçulmanos com apoio explícito à ofensiva israelense contra palestinos. Em 2021, ao ser questionado nas redes sociais sobre como conseguia dormir após a morte de uma criança palestina, respondeu: “Muito bem, na verdade! Obrigado pela foto!”. Durante o genocídio em Gaza, escreveu: “Digam aos seus companheiros terroristas muçulmanos para libertarem os reféns e se renderem. Até lá, #MorramDeFome”.


Pesquisas recentes indicam que a base republicana mantém forte apoio a Israel e percepções negativas sobre muçulmanos. Levantamento realizado pela YouGov em novembro de 2025 para o Instituto para o Entendimento do Oriente Médio mostrou que republicanos mais velhos favorecem israelenses em relação a palestinos por uma margem de 67 pontos percentuais, com apenas 2% expressando apoio aos palestinos. Entre republicanos com menos de 30 anos, essa diferença cai para 19 pontos percentuais, evidenciando uma mudança geracional significativa.


Essa divisão foi acentuada pela guerra contra o Irã, que gerou dissidência inédita entre figuras da mídia de direita com grande influência sobre o público jovem. Tucker Carlson emergiu como uma das vozes mais críticas dessa agenda, posicionando-se contra ataques a muçulmanos e afirmando que a preocupação republicana com o “islamismo radical” deriva do “governo israelense e seus muitos defensores e funcionários informais nos Estados Unidos”.

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