Sudão: 14 milhões de deslocados; fome e ataques à saúde continuam enquanto a guerra entra no quarto ano
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A guerra civil no Sudão, iniciada em 15 de abril de 2023, já forçou cerca de 14 milhões de pessoas a fugir de suas casas, segundo dados divulgados em 10 de abril de 2026 por agências da ONU. Do total, 9 milhões permanecem deslocados internamente e 4,4 milhões buscaram refúgio em países como Chade, Sudão do Sul e Egito. Autoridades da ONU afirmam que os combates entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) continuam sem perspectiva concreta de cessar-fogo. O conflito, que entra em seu quarto ano, é marcado por bombardeios aéreos, ataques com drones e violações sistemáticas de direitos humanos. Paralelamente, a fome e o colapso dos serviços de saúde ampliam o impacto humanitário em escala massiva.

Falando de Cartum, a representante da ACNUR no Sudão, Marie-Helene Verney, declarou que o deslocamento atinge cerca de um quarto da população do país. “Infelizmente, não estamos vendo progressos claros rumo a uma resolução”, afirmou, destacando que os combates persistem em regiões estratégicas como Darfur, Kordofans e o estado do Nilo Azul. Segundo ela, houve aumento significativo no uso de bombardeios aéreos e drones, frequentemente direcionados contra infraestrutura civil sem aviso prévio.
A intensificação das operações militares tem sido acompanhada por graves violações de direitos humanos. Verney relatou a continuidade de massacres, recrutamento forçado e detenções arbitrárias. Mulheres e meninas figuram entre os grupos mais vulneráveis, especialmente durante deslocamentos forçados, quando se tornam alvos recorrentes de violência sexual. Dados do ACNUDH indicam que mais de 500 casos de violência sexual foram registrados apenas em 2025, enquanto o número de civis mortos no mesmo ano chegou a 11.300, com milhares ainda desaparecidos ou não identificados.
A crise humanitária se aprofunda com o avanço da fome em larga escala. Segundo Hongjie Yang, representante da FAO no Sudão, cerca de 21 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar severa, incluindo 6,3 milhões em situação de emergência extrema. Regiões rurais em áreas de conflito, como Darfur e Kordofans, concentram os níveis mais críticos de escassez. A produção agrícola foi amplamente destruída, particularmente no estado de Cartum, enquanto instalações essenciais, como laboratórios veterinários, deixaram de operar, comprometendo inclusive a produção de vacinas para o gado.
O sistema de saúde sudanês, já fragilizado antes do conflito, encontra-se em colapso. De acordo com o representante da Organização Mundial da Saúde no país, Shible Sahbani, mais de 40% da população necessita de assistência médica urgente. Hospitais operam acima da capacidade, surtos de doenças se multiplicam e o acesso a serviços básicos tornou-se extremamente limitado. Ataques diretos a unidades de saúde agravam ainda mais o cenário: em três anos de guerra, a OMS documentou mais de 200 ataques contra instalações médicas, resultando em 2.052 mortes. Profissionais de saúde foram mortos, feridos, detidos e submetidos à tortura.
Além da dinâmica interna do conflito, fatores externos vêm agravando a crise. Sahbani destacou que a escalada da guerra no Oriente Médio impactou diretamente a logística humanitária destinada ao Sudão. Grande parte das operações depende de centros logísticos nos Emirados Árabes Unidos, e a interrupção de rotas e o aumento dos custos de transporte reduziram a capacidade de resposta das agências. “Felizmente, tínhamos alguns suprimentos no país para responder imediatamente… mas agora estamos usando nossos estoques e precisamos de reposição urgente”, afirmou.
O bloqueio de rotas comerciais e o encarecimento do envio de ajuda expõem a vulnerabilidade estrutural de países periféricos diante de crises internacionais que reconfiguram fluxos de energia, alimentos e insumos básicos, ampliando os efeitos de guerras interligadas em diferentes regiões do sistema global.



































