Relatório divulgado pela Agência Espacial Europeia expõe fracasso global em frear crise climática
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O balanço energético da Terra entrou em rota de desequilíbrio crescente, enquanto os oceanos aquecem em velocidade inédita e os sumidouros naturais de carbono perdem eficiência. O alerta está na edição 2025 do relatório “10 New Insights in Climate Science”, divulgado pela Agência Espacial Europeia em 19 de fevereiro de 2026. O documento reúne estudos científicos revisados por pares publicados entre janeiro de 2024 e junho de 2025 e se baseia fortemente em dados de satélite. A Organização Meteorológica Mundial confirmou que 2024 foi o ano mais quente já registrado, com recordes simultâneos de temperatura oceânica e elevação do nível do mar. Os resultados indicam que a crise climática se acelera em um cenário de inação política global e dependência persistente de combustíveis fósseis.
Produzido por Future Earth, Earth League e pelo Programa Mundial de Pesquisa do Clima, o relatório sintetiza evidências consideradas centrais para orientar políticas públicas. Entre os principais achados está o agravamento do desequilíbrio energético da Terra, fenômeno que ocorre quando o planeta absorve mais energia do que devolve ao espaço, intensificando o aquecimento global. O texto afirma que a variabilidade natural associada ao El Niño não explica sozinha a magnitude das anomalias térmicas observadas em 2023 e 2024.
A ESA destaca o papel decisivo dos dados de satélite na consolidação dessas conclusões. “Essas conclusões são baseadas em dados empíricos robustos publicados em periódicos científicos de referência”, declarou Sophie Hebden, cientista de Aplicações Climáticas da agência. Segundo ela, os registros de longo prazo permitem monitorar as chamadas Variáveis Climáticas Essenciais, validar modelos e avaliar o cumprimento de compromissos internacionais.
O segundo eixo crítico do relatório trata do aquecimento acelerado dos oceanos. As temperaturas da superfície do mar atingem níveis sem precedentes, enquanto ondas de calor marinhas tornam-se mais intensas e duradouras, com impactos severos sobre ecossistemas e economias costeiras. Dados das últimas quatro décadas mostram disseminação global dessas ondas de calor, com efeitos particularmente fortes no Atlântico, no Oceano Índico e no Pacífico Oeste, além de perdas de espécies no Mediterrâneo durante o recorde de calor de 2023.
Outro alerta recai sobre o enfraquecimento do sumidouro terrestre de carbono. Em 2023, a absorção de CO₂ pelos ecossistemas caiu significativamente, indicando que mais carbono permanece na atmosfera e reduz a margem para limitar o aquecimento global. Regiões do hemisfério norte, antes consideradas mais resilientes, agora sofrem com incêndios florestais intensos e degelo do permafrost, liberando ainda mais carbono.
O relatório também evidencia um ciclo de retroalimentação entre mudanças climáticas e perda de biodiversidade, no qual a degradação ecológica reduz a capacidade de absorção de carbono, aprofundando a crise climática. A deterioração das águas subterrâneas é outro vetor crítico, com impactos diretos na agricultura, na segurança alimentar e na estabilidade de solos e zonas costeiras.
No campo da saúde pública, o documento aponta que o atual surto global de dengue é o maior já registrado, associado à expansão de áreas propícias ao mosquito transmissor em razão do aumento das temperaturas. No plano econômico, o estresse térmico já reduz produtividade e renda, sobretudo em países do Sul Global, com efeitos que se espalham pelas cadeias globais de suprimento — as mesmas cadeias que sustentam padrões de consumo intensivos em carbono.
O relatório sustenta que a remoção de dióxido de carbono precisará crescer, mas não pode substituir cortes diretos de emissões. Também alerta para falhas de integridade nos mercados de crédito de carbono, como superestimação de remoções e baixa adicionalidade. Por fim, conclui que políticas integradas — incluindo precificação de carbono e revisão de subsídios a combustíveis fósseis — são mais eficazes do que medidas isoladas.
O “10 New Insights in Climate Science” deixa evidente que a aceleração do aquecimento global expõe, sem metáforas, o custo planetário de um modelo energético historicamente impulsionado por interesses industriais e geopolíticos que seguem determinando o ritmo — e os limites — da ação climática global.




















































