Sem passar pano: quais os limites da relação entre Noam Chomsky e Jeffrey Epstein
- Lucas Siqueira

- há 9 horas
- 4 min de leitura
Com a explosão midiática dos arquivos ligados a Jeffrey Epstein, é preciso dizer, com franqueza, que poucos nomes ali citados realmente surpreenderam. Grande parte das figuras que aparecem associadas às festas, viagens e círculos de sociabilidade do financista condenado já orbitava, há décadas, o mesmo universo de poder, dinheiro e impunidade. O nome de Noam Chomsky, no entanto, causou impacto pessoalmente maior. Não apenas por sua presença nos registros, mas pelo grau de intimidade revelado, perceptível tanto nas correspondências por e-mail quanto em algumas fotografias de caráter claramente pessoal.
Diante disso, a questão central não é fabricar acusações nem antecipar vereditos, mas delimitar com precisão os contornos reais dessa relação. O que se apresenta a seguir não pretende induzir conclusões nem substituir o juízo do leitor, mas expor fatos documentados de forma direta. Para esse fim, tornou-se necessário deixar de lado tanto a obra teórica de Chomsky quanto leituras acumuladas ao longo da última década, e apoiar a análise exclusivamente em documentos desclassificados do próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos, cotejados com reportagens recentes publicadas pelo The Guardian.

Os registros, reunidos em milhões de páginas investigativas tornadas públicas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, mostram trocas frequentes entre Chomsky e Epstein para organizar encontros sociais, viagens e jantares, além de tratar de questões financeiras pessoais. Em um e-mail de 2016, Epstein convidou Chomsky para Nova York ou para o Caribe, escrevendo:
“Gostei… [como] sempre. Venha para Nova York ou para o Caribe? Aproveite a comida.”
Chomsky respondeu:
“Nós também, e muito. Valeria sempre gostou muito de Nova York. Eu estou realmente fantasiando sobre a ilha caribenha.”
Não há referência explícita à ilha privada de Epstein onde menores foram abusadas, mas a familiaridade expressa nas mensagens é inequívoca.

A documentação também revela o papel de Epstein como intermediário em contatos políticos sensíveis. Em 2017, Chomsky escreveu a Steve Bannon, então estrategista-chefe da Casa Branca no primeiro mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, solicitando uma reunião inicial.
“Jeffrey… me deu seu endereço. Espero que possamos combinar algo em breve. Temos muito o que conversar”, escreveu Chomsky.
Evidentemente, o trecho citado, por si só, não comprova nada. Processos de negociação política — especialmente aqueles voltados à redução de conflitos ou à busca de algum tipo de acomodação — raramente ocorrem entre aliados ou amigos; historicamente, exigem que se sente à mesa justamente com adversários. Vale lembrar que, em contexto semelhante, o escritor Gabriel García Márquez atuou como mensageiro informal de Fidel Castro junto à Casa Branca, dialogando, no covil do diabo, diretamente com o núcleo do poder estadunidense sem que isso, por si só, o convertesse em cúmplice de suas políticas. Feito esse registro necessário, é preciso avançar para além dessa comparação confortável.

Aí chegamos a um dos trechos mais perturbadores dos arquivos envolve um suposto aconselhamento direto de Chomsky a Epstein, em fevereiro de 2019, sobre como lidar com a pressão pública decorrente das acusações de abuso sexual. Segundo um e-mail enviado por Epstein a um advogado e a um assessor de imprensa, Chomsky teria escrito:
“A melhor maneira de proceder é ignorar”, acrescentando que havia “uma histeria que se desenvolveu em relação ao abuso de mulheres”. O texto prossegue: “Chegou ao ponto em que até mesmo questionar uma acusação é um crime pior do que assassinato.”
Nem Chomsky nem sua esposa e porta-voz, Valeria Chomsky, responderam aos questionamentos sobre a autenticidade dessas mensagens.
É importante situar essas trocas no tempo. Elas ocorreram 11 anos depois de Epstein ter se declarado culpado, em 2008, por aliciar uma menor de idade para prostituição na Flórida — um crime que resultou em apenas 13 meses de prisão local, graças a um acordo com promotores federais. Em 2019, um juiz federal concluiu que o Departamento de Justiça violou a lei ao ocultar de mais de 30 vítimas menores de idade a existência desse acordo, como revelou a jornalista Julie K. Brown, do Miami Herald. O juiz distrital Kenneth Marra afirmou ainda que as provas indicavam a operação de uma rede internacional de prostituição de menores, em violação direta da legislação federal.
Os arquivos também detalham benefícios financeiros e simbólicos associados à relação entre Chomsky e Epstein. Há registros de um cheque de US$ 20 mil, enviado por um associado de Epstein, para apoiar um projeto descrito como “desafio Chomsky na linguística”. Consta ainda que Chomsky consultou Epstein em disputas patrimoniais envolvendo ao menos US$ 187 mil. Em outro episódio, kits de testes genéticos da empresa 23andMe foram enviados, por iniciativa de Epstein, tanto para Chomsky e sua esposa quanto para Woody Allen e Soon-Yi Previn, conforme e-mails de 2016 e 2017.
Epstein foi formalmente acusado por promotores federais de Nova York por tráfico sexual em julho de 2019 e morreu em agosto do mesmo ano em uma prisão federal, em um episódio oficialmente classificado como suicídio. Sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, foi posteriormente condenada a 20 anos de prisão. O interesse público no caso voltou a crescer após o presidente Donald Trump prometer, durante a campanha eleitoral de 2024, divulgar uma lista completa dos clientes de Epstein; já no cargo, em 2025, o Departamento de Justiça de sua administração declarou que tal lista não existia, apesar da pressão política que levou à liberação parcial dos arquivos agora conhecidos.
Dito isso, é necessário registrar com clareza: não há, ao menos nos documentos divulgados até aqui, qualquer comprovação de envolvimento criminoso direto de Noam Chomsky nos crimes cometidos por Jeffrey Epstein. Chomsky não foi acusado por promotores, nem aparece como participante das redes de abuso. Ainda assim, o que causa desconforto — e, para muitos, como é o caso deste autor, decepção — é a relação de proximidade mantida mesmo após a condenação de 2008.
Como afirmado no título, sem passar pano: não há elementos que justifiquem uma fogueira inquisitorial. Mas também não é possível ignorar o contraste entre o discurso humanista de alguém que dedicou décadas a denunciar crimes de poder e o fato de se sentar à mesa, com naturalidade, ao lado de um predador sexual condenado. Essa constatação, infelizmente, diz menos sobre um caso isolado e mais sobre uma recorrência amarga: figuras públicas que, na prática, revelam limites éticos muito mais flexíveis do que aqueles que proclamam em suas obras; mas, agora sim, essa é minha opinião...
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