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Terras raras, rejeitos e a pressa imperial por minerais

A corrida por terras raras levou empresas a vasculharem rejeitos e drenagens ácidas de minas nos Estados Unidos, transformando passivos ambientais em ativos estratégicos. Projetos-piloto na Virgínia Ocidental e uma planta em construção em Montana prometem extrair óxidos de terras raras enquanto reduzem a contaminação de cursos d’água. O movimento é impulsionado por metas industriais ligadas a veículos elétricos, turbinas eólicas e centros de dados, todos dependentes de metais críticos. Ao mesmo tempo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou emergência energética nacional e acelerou licenças, encurtando avaliações ambientais. A estratégia, apresentada como transição “limpa”, revela uma política estadunidense que prioriza velocidade e domínio geopolítico sobre cautela socioambiental.


Donald Trump
Donald Trump

Na Virgínia Ocidental, décadas de mineração de carvão expuseram rochas sulfurosas ao oxigênio, gerando drenagem ácida que matou riachos inteiros. Pesquisadores da Universidade da Virgínia Ocidental e da Virginia Tech desenvolveram um método que captura terras raras liberadas pelo ácido sulfúrico, limpando cursos d’água e criando uma nova fonte de receita. Três instalações-piloto no estado produzem entre quatro e cinco toneladas anuais de óxidos de terras raras cada. Em Butte, Montana, uma planta maior está em construção na Berkeley Pit, mina de cobre desativada, com meta de 40 toneladas por ano a partir de bilhões de litros de água residual tóxica.


O processo, descrito por Paul F. Ziemkiewicz, diretor do Instituto de Pesquisa da Água da Universidade da Virgínia Ocidental, dispensa trituração intensiva: o lodo é filtrado em sacos de tecido denso, gerando um pré-concentrado refinado por solventes. Segundo Ziemkiewicz, a pegada de carbono seria cerca de metade da mineração convencional. Um estudo da Escola de Minas do Colorado sustenta que a recuperação de 90% dos subprodutos existentes poderia suprir quase toda a demanda estadunidense por minerais críticos, reduzindo desperdício e risco geopolítico.


A pressa tem endereço político. Em 2025, Trump assinou a ordem executiva “Medidas Imediatas para Aumentar a Produção Mineral Americana” e declarou emergência energética nacional, comprimindo avaliações ambientais sob a Lei Nacional de Política Ambiental de anos para semanas, reduzindo análises de impactos sobre espécies ameaçadas de 135 para sete dias e permitindo a dispensa de consultas a tribos indígenas. Muitos sítios de mineração histórica ficam em reservas ou territórios indígenas, ou em suas proximidades, o que amplia os riscos sociais da aceleração regulatória.


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O financiamento público acompanha a agenda. Em 2025, o Departamento de Energia dos Estados Unidos destinou US$ 135 milhões a empresas que demonstraram viabilidade comercial para refinar e recuperar terras raras a partir de rejeitos e resíduos. Ann Maest, geoquímica e autora de estudo revisado por pares financiado pela Earthjustice, afirma: “O material já vem pré-moído, o que economiza muita água e energia… sou defensora da remineração se houver monitoramento antes e depois e melhoria comprovada”. Ainda assim, Maest alerta para perigos ao mexer em rejeitos submersos, cuja exposição ao oxigênio pode desencadear falhas de barragens.


Os riscos não são teóricos. Em janeiro de 2000, uma operação de remineração em Baia Mare, na Romênia, provocou o rompimento de uma barragem e contaminou a água potável de mais de 2 milhões de pessoas. Aaron Mintzes, consultor sênior de políticas da Earthworks, foi direto: “Remineração é mineração, e as leis atuais não são suficientes… a lei que rege a mineração em terras públicas é de 1872”. A crítica expõe a contradição de uma política que promete remediação enquanto afrouxa salvaguardas.


Casos como a Mina de Ouro Stibnite, em Idaho, ilustram a ambiguidade. A Perpetua Resources afirma que limpará milhões de toneladas de rejeitos para produzir ouro, prata e antimônio, mas também planeja expandir a área minerada para cerca de 3.200 acres e abrir 24 quilômetros de estradas na borda da Área Selvagem Frank Church–River of No Return. O antimônio, usado em munição e baterias, evidencia como a lógica de “minerais críticos” serve tanto à transição energética quanto a interesses militares.


A corrida é global e competitiva. A União Europeia flexibilizou normas ambientais para reduzir dependência da China; Austrália e Canadá aceleraram licenças para novas minas e reprocessamento de resíduos. Nos Estados Unidos, além da drenagem ácida, cinzas volantes de carvão entram na mira: o Laboratório Nacional de Tecnologia Energética opera planta piloto em Wyoming, e a Phoenix Tailings constrói unidade nos Adirondacks para processar rejeitos de uma mina de ferro dos anos 1940.


Há rejeitos de sobra. O Relatório Global sobre Rejeitos estima 8.500 instalações ativas e inativas no mundo, com 217 bilhões de metros cúbicos de material, muitas liberando toxinas. David Cam, da Envirogold Global, afirma recuperar “99% do metal e reduzir os sulfetos em mais de 96%” e planeja uma unidade de 500 toneladas no Arizona. Ainda assim, Aimee Boulanger, da Iniciativa para Garantia de Mineração Responsável, adverte: “Não existe nenhum país no mundo com leis suficientemente fortes para impedir danos significativos onde a mineração ocorre”. Para ela, falar em sustentabilidade sem economia circular é retórica vazia.


No fundo, a remineração expõe o paradoxo estadunidense: transformar passivos ambientais em insumos estratégicos enquanto o Estado acelera licenças, corta consultas públicas e terceiriza riscos. A promessa de limpar rios e reduzir emissões convive com a velha pressa imperial por controle de cadeias críticas. Sem marcos legais robustos e fiscalização independente, a transição “limpa” corre o risco de repetir, em nova embalagem, os danos de sempre.

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