Trump aperta o torniquete do petróleo e empurra Cuba para apagões em série
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Cuba enfrenta uma crise energética aguda após o endurecimento do bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos. As medidas adotadas nas últimas semanas pelo presidente Donald Trump agravaram a escassez de combustível e provocaram apagões diários em uma ilha de 11 milhões de habitantes.

O presidente Miguel Díaz-Canel decretou restrições emergenciais que incluem semana de trabalho de quatro dias nas empresas estatais, redução do transporte interprovincial, fechamento de grandes instalações turísticas e encurtamento do calendário escolar. Universidades terão menor frequência presencial. “O combustível será usado para proteger serviços essenciais à população e atividades econômicas indispensáveis”, declarou o vice-primeiro-ministro Óscar Pérez-Oliva Fraga. Hospitais, produção de alimentos e defesa foram listados como prioridades absolutas.
A crise se aprofundou após ordem executiva assinada por Trump no mês passado designando Cuba como “ameaça à segurança nacional” e impondo tarifas a qualquer país que venda ou forneça petróleo à ilha. A pressão adicional sobre o governo mexicano reduziu as reservas cubanas a níveis historicamente baixos, segundo autoridades de Havana. Na semana anterior, companhias aéreas foram notificadas de que o fornecimento de combustível de aviação será suspenso por um mês. Pontos de ônibus esvaziados e famílias recorrendo a lenha e carvão tornaram-se imagens cotidianas.
A dependência energética cubana está diretamente ligada à Venezuela, seu principal fornecedor de petróleo na última década. O sequestro de Nicolás Maduro por forças estadunidenses, ocorrido no mês passado, interrompeu fluxos logísticos e ampliou o cerco econômico contra Havana. A região do Caribe permanece sob tensão crescente, com manobras políticas e militares que redesenham o equilíbrio regional. Para o governo cubano, trata-se de uma tentativa deliberada de “estrangular energeticamente” o país.
O bloqueio contra Cuba não é episódio isolado, mas parte de uma política iniciada em 1962, quando Washington ampliou o embargo a todo o comércio bilateral. Ao longo de seis décadas, leis como a Torricelli (1992) e a Helms-Burton (1996) reforçaram sanções extraterritoriais, enquanto Cuba foi incluída e retirada repetidas vezes da lista estadunidense de Estados patrocinadores do terrorismo. Em janeiro de 2025, às vésperas do fim do mandato anterior, Havana havia sido retirada dessa lista; no dia de sua posse, Trump reincluiu o país e reativou mecanismos punitivos como o Título III da Helms-Burton.
Dados oficiais mostram que, apenas no ano fiscal de 2023, 200.287 cidadãos cubanos foram registrados em encontros na fronteira dos Estados Unidos, reflexo direto da deterioração econômica. Entre outubro de 2023 e setembro de 2024, foram registradas 217.615 tentativas de travessia irregular. Em fevereiro de 2026, a Western Union suspendeu indefinidamente as transferências de dinheiro para Cuba, ampliando o impacto sobre famílias dependentes de remessas. Ao mesmo tempo, importações agrícolas dos Estados Unidos somaram US$ 342,6 milhões em 2023, revelando a contradição entre comércio seletivo e bloqueio estrutural.
Desde o rompimento diplomático em 1961, passando pela Crise dos Mísseis de 1962 e pela reaproximação parcial entre 2014 e 2016, a relação bilateral oscilou entre distensão e recrudescimento. A visita de Barack Obama a Havana, em março de 2016, marcou o primeiro deslocamento de um presidente estadunidense em exercício desde 1928. O ciclo atual, contudo, retoma a lógica de asfixia econômica como instrumento de pressão política.
Ao impor tarifas a terceiros países e restringir fluxos financeiros e energéticos, Washington transforma o abastecimento de petróleo em arma geopolítica. Em uma ilha com infraestrutura envelhecida e dependente de importações, cada navio bloqueado se converte em horas de escuridão. A ofensiva energética não apenas paralisa a economia, mas também redefine o cotidiano de milhões de cubanos, revelando que, no século XXI, a coerção raramente chega em forma de bombardeio — muitas vezes, ela vem na forma de um interruptor desligado.















































