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Uma corrida por direitos: como o esporte está ajudando a proteger meninas em Uganda

Em comunidades rurais do leste de Uganda, o esporte tem sido usado como ferramenta de proteção contra a mutilação genital feminina, o casamento infantil e outras formas de violência de gênero. A treinadora Zuena Cheptoek atua como mentora e confidente de meninas da sub-região de Sebei, onde práticas tradicionais seguem impondo riscos à integridade física e ao futuro das jovens. Em parceria com a Fundação Joshua Cheptegei para o Desenvolvimento, o UNFPA e o UNICEF, iniciativas esportivas buscam romper ciclos de exclusão social e violência. A mutilação genital feminina segue sendo descrita como grave violação de direitos humanos e problema de saúde pública em áreas rurais do país. O trabalho no esporte também se conecta a debates sobre segurança, educação, pobreza e violência de gênero em um contexto de resistência comunitária e mudança gradual de mentalidades.


Zuena Cheptoek: “como treinadora, as meninas confiam em mim..."
Zuena Cheptoek: “como treinadora, as meninas confiam em mim..."

No leste de Uganda, em uma pista de atletismo no Centro Nacional de Treinamento em Altitude de Teryet, no distrito de Kapchorwa, o esporte tem sido incorporado como instrumento de enfrentamento direto a práticas tradicionais violentas. A treinadora Zuena Cheptoek, que atua com jovens atletas da sub-região de Sebei, afirma que sua função ultrapassa o treinamento esportivo e se estende à proteção social das meninas expostas à mutilação genital feminina, ao casamento infantil e ao abandono escolar.


Segundo Cheptoek, “como treinadora, as meninas confiam em mim. Elas me contam coisas que não conseguem contar a mais ninguém, sobre pressão para se submeterem à mutilação genital feminina (MGF), sobre serem aconselhadas a abandonar a escola, sobre relacionamentos que as fazem se sentir inseguras”. A região ainda enfrenta forte influência de normas sociais tradicionais que sustentam práticas de mutilação genital feminina e reforçam desigualdades de gênero, especialmente em áreas rurais e de difícil acesso.

A prática da mutilação genital feminina, definida como alteração ou lesão dos órgãos genitais femininos por razões não médicas, segue sendo classificada como grave violação de direitos humanos e problema de saúde pública. Em muitas comunidades de Sebei, essa prática está diretamente associada a casamento infantil precoce, evasão escolar e violência doméstica, compondo um ciclo estrutural ligado à pobreza e à exclusão social.


A atuação de Cheptoek ocorre por meio da Fundação Joshua Cheptegei para o Desenvolvimento, em cooperação com o Programa Conjunto do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). As iniciativas utilizam o esporte como ponto de entrada para alcançar adolescentes, especialmente meninas frequentemente excluídas de políticas públicas e serviços básicos. Segundo a treinadora, “essa mentalidade subestima o potencial social, intelectual e cultural deles. O esporte nos ajuda a combater isso”.


Em eventos comunitários, como a corrida anual de Natal na região de Sebei, meninas participantes recebem bolsas de estudo que permitem o acesso à educação formal. De acordo com Cheptoek, “a maioria dessas meninas vem de comunidades onde a mutilação genital feminina ainda é praticada. Sem esporte e educação, muitas delas já estariam casadas ou fora da escola”. O programa busca interromper esse ciclo ao associar desempenho esportivo a oportunidades educacionais, criando alternativas concretas à imposição de práticas tradicionais.

O avanço dessas iniciativas ocorre em meio a pressões sociais intensas. Meninas que recusam a mutilação genital feminina enfrentam rejeição comunitária, isolamento e, em alguns casos, violência. O contexto também inclui a sobreposição de pobreza estrutural, baixa escolarização e normas de gênero rígidas, que reforçam a vulnerabilidade feminina desde a infância.


Além do acesso à educação, o programa inclui orientações sobre saúde sexual e reprodutiva, segurança pessoal e apoio psicossocial. Cheptoek relata que muitas atletas enfrentam pressão para abandonar o esporte e aderir ao casamento precoce. “Muitas vezes, as meninas que se tornam atletas de sucesso ouvem: ‘Você deveria parar de correr e se casar’. Mas a independência financeira e a educação lhes dão opções”, afirmou.


As discussões sobre segurança ganharam maior centralidade após o assassinato da atleta ugandense de longa distância Rebecca Cheptegei, morta em 2024 após ser atacada por seu ex-parceiro em meio a uma disputa de terras. O caso passou a ser referência local para alertas sobre violência de gênero contra mulheres em ascensão social. Cheptoek afirmou: “Falamos sobre segurança porque não queremos perder mais nenhuma mulher. As atletas estão se tornando mais vulneráveis porque desafiam os papéis de gênero tradicionais, mas nenhuma mulher deve ser punida por buscar seu potencial”.


Ela também destacou que a autonomia feminina tem provocado reações violentas em contextos sociais ainda marcados por estruturas patriarcais. “As atletas estão se tornando mais independentes financeira e socialmente, e isso pode desencadear violência em uma sociedade que ainda acredita que a mulher deve ficar na cozinha, cozinhando e cuidando dos filhos”, disse.


As ações no país são acompanhadas por programas do UNFPA e parceiros que defendem abordagens centradas em sobreviventes e lideradas por comunidades locais, com foco na eliminação da mutilação genital feminina e na ampliação do acesso a direitos sexuais e reprodutivos. As iniciativas também buscam ampliar a circulação de informações sobre saúde, fortalecer redes de proteção e garantir que meninas possam exercer autonomia sobre seus próprios corpos em meio a estruturas sociais historicamente restritivas.

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