Uma em cada 17 crianças trabalha; milhões enfrentam condições perigosas diariamente
- www.jornalclandestino.org

- há 2 horas
- 4 min de leitura
Quase 138 milhões de crianças e adolescentes estavam submetidos ao trabalho infantil em 2026, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do UNICEF divulgadas no Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil, em 12 de junho. Desse total, 54 milhões realizavam atividades classificadas como perigosas, com risco à saúde, à integridade física e ao desenvolvimento. Os dados revelam que a meta estabelecida pelas Nações Unidas de eliminar o trabalho infantil até 2025 não foi alcançada.

Entre os cerca de 2,4 bilhões de pessoas com menos de 18 anos existentes no planeta, uma em cada 17 encontra-se em situação de trabalho infantil. A análise divulgada pela Al Jazeera, com base nos números mais recentes da OIT e do UNICEF, mostra que, embora tenha ocorrido redução no número total de crianças exploradas pelo trabalho nas últimas décadas, dezenas de milhões continuam submetidas a jornadas e condições que colocam suas vidas em risco.
Dos 54 milhões de crianças envolvidas em atividades consideradas perigosas, 10,3 milhões têm entre cinco e 11 anos de idade. Outras 12,8 milhões estão na faixa entre 12 e 14 anos. O maior contingente encontra-se entre adolescentes de 15 a 17 anos, grupo que soma 30,8 milhões de pessoas.
Segundo a OIT e o UNICEF, essas atividades incluem exposição a produtos químicos, operação de máquinas, transporte de cargas pesadas, trabalho em minas, contato com ferramentas cortantes, jornadas extensas e permanência em ambientes inseguros. As organizações alertam que essas condições podem provocar lesões, doenças e danos ao desenvolvimento físico e mental.
Os organismos internacionais também apontam que grande parte das crianças submetidas ao trabalho infantil encontra-se fora da escola. A combinação entre exploração laboral e exclusão educacional contribui para a reprodução da pobreza entre gerações, mantendo famílias inteiras presas a condições econômicas que limitam o acesso a direitos básicos.
A agricultura permanece como o principal setor de exploração do trabalho infantil. Dos 138 milhões de crianças e adolescentes em situação de trabalho, aproximadamente 84 milhões atuam em atividades agrícolas, número equivalente a 61% de todos os casos registrados no mundo. O trabalho envolve fazendas, pesca, pecuária, silvicultura e outras atividades ligadas à produção de alimentos e matérias-primas.
Em diversas regiões rurais, crianças carregam sacos e ferramentas, aplicam pesticidas, operam equipamentos, trabalham em minas associadas à atividade agrícola e permanecem por horas sob temperaturas elevadas. Em muitos casos, o início da jornada ocorre antes do amanhecer e interfere diretamente na frequência escolar.
O setor de serviços responde por 27% dos casos de trabalho infantil. Nessa categoria estão incluídas atividades domésticas, comércio varejista, hotelaria e outros serviços. A indústria representa 13% dos casos, abrangendo mineração, manufatura, construção civil e outras atividades produtivas.
A concentração do trabalho infantil na agricultura está relacionada às características desse setor em diversas partes do mundo. Muitas atividades são desenvolvidas em unidades familiares, com baixa regulamentação e fiscalização limitada. Essa combinação facilita a utilização da mão de obra infantil em cadeias produtivas ligadas à produção de alimentos, matérias-primas agrícolas e minerais destinados aos mercados nacionais e internacionais.
A África Subsaariana concentra o maior número de crianças submetidas ao trabalho infantil. Segundo os dados apresentados pela Al Jazeera, a região reúne 87 milhões de crianças exploradas pelo trabalho, número superior ao total registrado em todas as demais regiões do planeta somadas.
A persistência do problema na região está associada a fatores econômicos, sociais e políticos. Crescimento populacional, deslocamentos forçados, conflitos armados, fragilidade dos sistemas de proteção social e impactos de eventos climáticos têm contribuído para limitar a redução do trabalho infantil.
Em entrevista à Al Jazeera, Lucia Soleti, representante adjunta interina do UNICEF para programas em Gana, afirmou que mais de 1,1 milhão de crianças entre cinco e 17 anos são afetadas pelo trabalho infantil no país. Segundo ela, a exploração ocorre principalmente na agricultura, mas também está presente na mineração, na pesca e no trabalho doméstico.
“Isso priva as crianças da educação, as expõe a condições perigosas e perpetua a pobreza intergeracional”, declarou Soleti.
Embora a Ásia e o Pacífico tenham registrado reduções no número de crianças exploradas pelo trabalho, a prática continua integrada a cadeias globais de produção que abastecem mercados internacionais com alimentos, vestuário, minerais e bens de consumo. A busca por custos reduzidos em cadeias produtivas transnacionais continua relacionada à manutenção de formas de exploração da força de trabalho em países periféricos.
A situação da Nigéria ilustra os obstáculos enfrentados para enfrentar o problema. Mona Aika, chefe interina de proteção infantil do UNICEF no país, afirmou à Al Jazeera que medidas isoladas não são suficientes para eliminar o trabalho infantil.
“A lenta redução na África Subsaariana está ligada a múltiplos fatores estruturais, como pobreza, acesso limitado à educação de qualidade, proteção social frágil, meios de subsistência rurais dependentes do trabalho familiar, conflitos, deslocamentos, choques climáticos, crescimento populacional, informalidade do trabalho e capacidade limitada de fiscalização”, declarou.
Aika acrescentou que “são necessários sistemas de proteção à criança mais robustos, proteção social, acesso à educação, apoio aos meios de subsistência das famílias, prevenção comunitária, encaminhamentos e ações governamentais sustentadas”.



































