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Degelo da Antártica influencia toda a sociedade brasileira, diz especialista

O avanço do degelo na Antártica está associado a mudanças no regime de chuvas, no nível do mar e na dinâmica climática que afeta o território brasileiro. A avaliação foi apresentada pelo pesquisador marinho Ronaldo Christofoletti em entrevista à ONU News publicada em 12 de junho. O cientista relaciona o aumento da temperatura dos oceanos e a redução do gelo antártico a eventos climáticos registrados em diferentes regiões do Brasil.


Segundo Christofoletti, os dados mais recentes apontam que os últimos quatro anos registraram recordes de perda de gelo no continente antártico. O pesquisador afirmou que esse processo amplia o volume de água nos oceanos e modifica a interação entre oceano e atmosfera, alterando mecanismos que influenciam diretamente o clima brasileiro.


Aurora nas montanhas
Aurora nas montanhas

“Os últimos quatro anos são recordes de degelo da Antártica. E aí isso influencia drasticamente toda a sociedade brasileira. Porque a gente está falando de mais água no oceano e uma desregulação da relação do oceano com a atmosfera, que faz alterar as frentes frias. Frente fria regula o clima no Brasil, regula o agronegócio, regula o ciclo de chuva”, declarou.


A entrevista foi concedida após a divulgação da Terceira Avaliação Global dos Oceanos (WOA-3), publicada pelas Nações Unidas por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho. Christofoletti integrou o grupo de 25 autores responsáveis pela elaboração do relatório.


De acordo com o pesquisador, o documento também registra o aumento da frequência de ondas de calor marinhas e a elevação da temperatura dos oceanos. Ele afirmou que esse cenário contribui para alterações em fenômenos climáticos que afetam diferentes continentes.


“Seja pela água, seja pelo ar, quando o oceano está mais quente, que é o outro dado que o relatório traz, as ondas de calor no oceano, os momentos dele mais quente estão cada vez mais frequentes e trazem impactos. Basta a gente ver o super El Niño. O El Niño é um fenômeno natural, mas que está vindo agora com muito mais força”, afirmou.


O pesquisador destacou a existência de uma conexão climática entre a Antártica, a Amazônia, o Pantanal, os Pampas e outras regiões da América do Sul. Segundo ele, a circulação de umidade entre oceano, floresta e massas de ar frio constitui um sistema integrado que condiciona a distribuição das chuvas no território brasileiro.

Christofoletti explicou que a umidade proveniente do Oceano Atlântico alimenta o ciclo hidrológico da Amazônia. Parte dessa água retorna à atmosfera por meio da transpiração das árvores e segue em direção ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país através dos chamados rios atmosféricos.


“A chuva que cai na Amazônia, ela vem da umidade do oceano, que é trazida pelos ventos ali na região norte. Chove na Amazônia. A Amazônia manda água de volta, evapora pelas árvores quando elas transpiram a água para a atmosfera. Essa água tem um ciclo na atmosfera que ele é anti-horário. Então ele vem descendo, pelo contrário do relógio. E isso é o que forma os chamados rios aéreos da Amazônia”, explicou.


Segundo o pesquisador, a precipitação aumenta quando essa umidade encontra frentes frias originadas nas regiões próximas à Antártica. A interação entre esses sistemas atmosféricos determina parte do regime de chuvas observado no Brasil.


“Eles trazem essa umidade e ela vai fazendo chover no Centro-Oeste, no Sudeste, no Sul do país. Mas o que principalmente faz aumentar a chuva é quando vem lá da Antártica as frentes frias”, declarou.


O cientista afirmou que oceanos mais quentes e níveis mais elevados do mar ampliam a quantidade de vapor d’água disponível na atmosfera. Nesse contexto, a combinação entre rios atmosféricos e frentes frias pode resultar em episódios de precipitação intensa.


Ao abordar os impactos observados nos últimos anos, Christofoletti citou as enchentes registradas no Rio Grande do Sul em 2024 e os episódios posteriores de chuvas que atingiram áreas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Segundo ele, a alteração dos padrões climáticos associados ao aquecimento dos oceanos e ao degelo antártico está relacionada ao aumento da disponibilidade de umidade na atmosfera.


O pesquisador também associou essas transformações a efeitos sobre a produção agrícola, a qualidade do ar e a ocorrência de desastres ligados a eventos hidrológicos e meteorológicos.


Durante a entrevista à ONU News, Christofoletti ressaltou que aproximadamente 70% da superfície terrestre é coberta por água e que mais de 97% desse volume corresponde aos oceanos. A observação foi feita ao comentar os resultados da Terceira Avaliação Global dos Oceanos, documento das Nações Unidas que reúne dados sobre elevação do nível do mar, aquecimento dos oceanos, derretimento de gelo marinho, retração de geleiras e mudanças nos padrões de precipitação em escala planetária.

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