Vale tudo para tentar vencer o Irã, até dormir com o inimigo terrorista
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- 4 de abr.
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Ahmed al-Sharaa, líder “interino” da Síria, foi recebido em Londres em 31 de março de 2026 com honras oficiais e encontros com o Rei Charles e o primeiro-ministro Keir Starmer. Apenas 15 meses antes, o governo estadunidense oferecia recompensa de 10 milhões de dólares por informações sobre seu paradeiro devido a seu histórico na Al-Qaeda. A visita consolidou anos de articulação da inteligência britânica, especialmente do MI6, para reposicionar al-Sharaa como liderança política aceitável. O encontro incluiu discussões sobre a escalada envolvendo Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, tema central da agenda bilateral. A recepção pública marca a formalização de um processo de reintegração da Síria ao eixo ocidental após o golpe em dezembro de 2024.

A ascensão de al-Sharaa ao poder foi precedida por uma longa operação de reconfiguração política conduzida por estruturas britânicas de inteligência e diplomacia paralela. O MI6, em colaboração com o Ministério das Relações Exteriores britânico, atuou diretamente na construção de sua legitimidade internacional, com apoio estratégico de Jonathan Powell, atual Conselheiro de Segurança Nacional de Keir Starmer. Powell, ex-assessor de Tony Blair e figura central na formulação da invasão anglo-estadunidense do Iraque em 2003, também lidera a ONG Inter-Mediate, organização que desempenhou papel decisivo na transformação da facção Hayat Tahrir al-Sham (HTS) de grupo insurgente para estrutura governamental.
Segundo revelou Robert Ford, ex-embaixador dos Estados Unidos na Síria entre 2011 e 2014, a Inter-Mediate o procurou em 2023 para colaborar na reformulação da imagem da HTS, com o objetivo explícito de converter sua percepção internacional de “terroristas” para “atores políticos”. Ford afirmou ter se reunido diversas vezes com al-Sharaa, destacando que o líder sírio “não demonstrou nenhum remorso” por suas ações anteriores no Iraque. Al-Sharaa foi preso por cinco anos na instalação militar estadunidense de Camp Bucca por vínculos com a Al-Qaeda e libertado em 2011, no início da guerra na Síria.
A consolidação do poder da HTS culminou no chamado golpe palaciano de dezembro de 2025, quando o grupo assumiu formalmente o controle de Damasco. Poucos dias antes, Jonathan Powell havia sido nomeado para o cargo de conselheiro de segurança nacional britânico, coincidência que reforça a sobreposição entre operações de inteligência e decisões políticas formais. Em setembro de 2025, o então chefe do MI6, Richard Moore, declarou publicamente que a agência havia estabelecido relações com a HTS “um ou dois anos” antes da queda de Bashar Assad, afirmando que essa aproximação “abriu caminho” para o retorno britânico ao país.
A estratégia incluiu operações de guerra psicológica e programas de “assistência” que ampliaram a influência da HTS em territórios sob seu controle. Documentos vazados indicam que o MI6 tinha plena ciência de que a alegada ruptura da HTS com a Al-Qaeda era fictícia. Ainda assim, campanhas de comunicação apresentaram a administração do grupo como uma alternativa “moderada” ao governo anterior. Entre os instrumentos utilizados estavam a Polícia Livre Síria e os Capacetes Brancos, organizações promovidas como entidades humanitárias, mas que, segundo os documentos, operavam em coordenação com grupos extremistas e participaram de abusos sistemáticos.

A integração política de al-Sharaa avançou rapidamente no plano internacional. Em maio de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu o líder sírio na Casa Branca, gesto que a BBC classificou como “impensável há apenas alguns meses”. Na ocasião, Trump presenteou al-Sharaa com um frasco de perfume de sua própria marca, simbolizando a normalização das relações. Em março do mesmo ano, o Reino Unido suspendeu a maior parte das sanções contra a Síria, seguido pela União Europeia, enquanto Washington revogou suas medidas em julho, completando o processo de reinserção do país.
Em janeiro de 2026, al-Sharaa assinou um acordo mediado pelos Estados Unidos com Israel, revertendo décadas de recusa do governo sírio anterior. O impacto foi imediato: forças leais a Damasco avançaram sobre áreas curdas no nordeste do país, enquanto o enviado estadunidense Tom Barrack declarou que a parceria com os curdos havia “expirado”. Em poucas semanas, regiões estratégicas produtoras de trigo e petróleo passaram ao controle do novo governo, encerrando anos de ocupação liderada pelos Estados Unidos.
Atualmente, o território e o espaço aéreo sírios são utilizados de forma recorrente por Israel e seus aliados ocidentais em operações militares contra o Irã. Embora não haja normalização formal entre Damasco e Tel Aviv, al-Sharaa descreveu as relações como “boas”. Paralelamente, operações militares internas continuam a gerar denúncias de massacres contra minorias, incluindo alauítas, enquanto a estrutura estatal é reorganizada sob supervisão indireta de atores externos.
No plano interno britânico, a recepção a al-Sharaa envolveu figuras diretamente ligadas ao aparato de segurança. O parlamentar Hamish Falconer, ex-integrante da equipe de resposta ao terrorismo do Ministério das Relações Exteriores e com histórico de colaboração com o MI6, participou dos encontros oficiais. Falconer mantém vínculos com Amil Khan, contratado da inteligência britânica envolvido em campanhas de mídia favoráveis à HTS.
A influência de redes associadas ao período de Tony Blair permanece ativa no governo britânico atual. Charlie Falconer, pai do parlamentar, exerceu pressão direta sobre o então Procurador-Geral Lord Goldsmith para alterar parecer jurídico que considerava ilegal a invasão do Iraque em 2003. Hoje, segundo relatos da imprensa britânica, membros do governo expressam preocupação com a crescente influência desses círculos, questionando “em que momento a ‘orientação’ se transforma em ‘controle’”.
Mesmo antes da retirada formal da designação de grupo terrorista da HTS pela legislação britânica, autoridades mantiveram encontros públicos com al-Sharaa a partir de dezembro de 2024. A continuidade dessas reuniões, apesar de sua ilegalidade reconhecida, acompanhou a pressão diplomática liderada por Londres para o levantamento das sanções contra a Síria.
Em janeiro de 2026, forças de al-Sharaa invadiram o nordeste do país e libertaram combatentes do Estado Islâmico detidos em prisões administradas por curdos. Segundo relatos, diversas combatentes estrangeiras recusaram repatriação, afirmando que seus maridos estavam agora integrados às forças do novo governo sírio.



































