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Washington quer as “joias da coroa”: ofensiva estadunidense mira terras raras e testa a soberania brasileira

O governo de Donald Trump iniciou nesta quarta-feira, 4 de fevereiro, uma ofensiva diplomática para tentar romper a hegemonia da China no mercado global de terras raras, insumos estratégicos para a indústria de alta tecnologia, a defesa e a transição energética. A Casa Branca sediou uma reunião de emergência com cerca de 20 países para formalizar uma aliança mineral liderada pelo secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio. O Brasil, que detém uma das maiores reservas mundiais desses elementos, foi convidado, mas optou por não enviar seu chanceler, Mauro Vieira. A ausência sinaliza uma estratégia de cautela diante da pressão direta de Washington por alinhamento. As informações foram divulgadas pelo jornalista Jamil Chade, no ICL Notícias.

Donald Trump conversa com membros da mídia antes de embarcar no Marine One. ©White House
Donald Trump conversa com membros da mídia antes de embarcar no Marine One. ©White House

O núcleo da proposta apresentada pelo governo Trump é a criação de um mecanismo de preço mínimo de importação para terras raras, acompanhado da coordenação de tarifas contra produtos chineses. A Casa Branca sustenta que a medida serviria para “proteger” mineradoras e refinarias ocidentais da política de preços baixos praticada por Pequim, que concentra quase a totalidade da capacidade global de refino desses minerais estratégicos. Na prática, trata-se de uma tentativa de reorganizar cadeias produtivas globais sob liderança estadunidense, utilizando instrumentos comerciais e diplomáticos para conter a China.

Em Brasília, a leitura é menos entusiasmada. Segundo Jamil Chade, o Palácio do Planalto considera as terras raras as “joias da coroa” da política mineral brasileira e rejeita qualquer alinhamento automático sem contrapartidas concretas. A estratégia, conduzida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, é empurrar o tema para a fase final das negociações bilaterais com Trump, previstas para março, usando o acesso às reservas como moeda de troca para a retirada de tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.

A pressão estadunidense extrapola o plano federal e avança sobre territórios subnacionais. A diplomacia de Trump passou a dialogar diretamente com governos estaduais, como Minas Gerais e Goiás, para mapear jazidas, movimento acompanhado de perto pela CIA, orientada a monitorar reservas naturais na América Latina consideradas vitais para os interesses estratégicos dos Estados Unidos nas próximas décadas. Para setores do governo brasileiro e da academia, essa atuação representa não apenas ingerência econômica, mas um risco estrutural à soberania regional.

Esse alerta foi explicitado em debate promovido pelo Projeto Brasil, na TV GGN. A pesquisadora Astrid Aguilera Cazalbon, do GESENE/UFPB, afirmou que a ofensiva sobre recursos estratégicos sul-americanos, incluindo a pressão permanente sobre a Venezuela, fragiliza a integração regional.

“Qualquer processo de ataque, mesmo que pareça isolado em um país, representa um ataque à soberania de todos os outros países da região e do subcontinente como um todo”, declarou.

No plano interno, o debate escancara fragilidades históricas da política industrial brasileira. No mesmo encontro do Projeto Brasil, o professor Fernando Landgraf, da USP, criticou a ausência de investimentos nacionais no setor de terras raras. “Com a taxa de juros nesse patamar, o capital brasileiro não tem apetite para esse tipo de investimento”, afirmou, alertando para o risco de o país repetir o papel de mero exportador de matéria-prima bruta em uma economia mundial cada vez mais tecnologizada.

Como contraponto, a diretora executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos, defendeu a adoção de uma estratégia de “refino verde”. A proposta é utilizar a matriz elétrica majoritariamente limpa do Brasil para processar os minerais no próprio território nacional. “Isso resultaria em minerais refinados com emissões que poderiam chegar a apenas 1/3 das emissões de qualquer outro lugar do mundo”, explicou, em entrevista à TV GGN.

Para que o potencial econômico não se converta em passivo social e ambiental, o Projeto Brasil destacou a importância de marcos regulatórios robustos, como o PL 2780/2024. O projeto estabelece a chamada “regra dos 80%”, exigindo que a maior parte da produção mineral seja processada no país. Sem instituições fortes e uma política nacional clara, o diagnóstico apresentado no debate é direto: a América do Sul corre o risco de seguir como fornecedora subordinada de insumos básicos em meio a uma guerra tecnológica global conduzida pelas grandes potências.

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