Resultados de busca
3363 resultados encontrados com uma busca vazia
- Haiti: violência de gangues e ação policial causam 1,6 mil mortes em 3 meses
Mais de 1,6 mil pessoas morreram e 745 ficaram feridas no Haiti entre janeiro e março de 2026, segundo relatório divulgado em 14 de maio pelo Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti, Binuh. A ONU informou que operações policiais apoiadas por empresas militares privadas e drones responderam por mais de 60% das vítimas registradas no período. Enquanto Porto Príncipe permanece sob domínio armado de facções, a expansão da violência para regiões centrais do país expõe o colapso político haitiano após décadas de intervenções estrangeiras e tutela internacional. Porto Princípe - August 18, 2023 | Reuters 8 O representante da ONU no Haiti, Carlos Ruiz Massieu, afirmou que parte das operações de segurança conseguiu conter o avanço territorial de gangues em áreas da capital, Porto Príncipe, mas reconheceu que a população continua vivendo sob “forte sensação de insegurança”. Segundo o Binuh, a violência segue avançando para departamentos centrais do país, em meio à incapacidade do Estado haitiano de restabelecer controle administrativo e social sobre territórios dominados por grupos armados. O relatório apresentado pela ONU descreve assassinatos, sequestros, extorsões e destruição de propriedades em regiões controladas pelas gangues. O documento também registra denúncias de execuções sumárias atribuídas a agentes policiais durante operações conduzidas com apoio de empresas militares privadas e uso de drones. A ONU informou que essas ações foram responsáveis por mais de 60% dos mortos e feridos contabilizados no primeiro trimestre de 2026. Na região de Artibonite, no centro do Haiti, ataques coordenados ocorreram no fim de março contra diferentes localidades do país. Segundo o Binuh, guardas comunitários foram alvo direto das ofensivas. O relatório aponta que 27% das vítimas mortas ou feridas no período resultaram de ações conduzidas por gangues armadas. A ONU registrou ainda casos de violência sexual cometidos contra mulheres e adolescentes entre 12 e 17 anos. O Binuh afirmou que estupros e exploração sexual vêm sendo utilizados como instrumentos de controle social em áreas dominadas pelas facções. O relatório não apresentou números absolutos sobre vítimas de violência sexual, mas indicou que os crimes cresceram junto da expansão territorial das gangues. Imagens divulgadas por agências humanitárias ligadas à ONU mostram filas de haitianos aguardando distribuição de ajuda alimentar e financeira em diferentes regiões do país. Segundo o Programa Mundial de Alimentos, parte da população deslocada depende de programas emergenciais de transferência de renda e alimentação para sobreviver após abandonar bairros controlados por grupos armados. A crise haitiana ocorre após anos de ocupações estrangeiras, operações militares patrocinadas por potências ocidentais e sucessivas intervenções conduzidas sob bandeiras da ONU e da Organização dos Estados Americanos. Desde a ocupação estadunidense iniciada em 1915 até as missões internacionais das últimas décadas, o Haiti permaneceu submetido a mecanismos externos de controle político, financeiro e militar que desmontaram estruturas produtivas locais e aprofundaram dependência econômica. Em março de 2026, a ONU já havia alertado que ao menos 26 gangues operavam em Porto Príncipe e arredores. O organismo internacional informou na ocasião que 85% da capital haitiana encontrava-se sob influência de grupos armados. Dados divulgados pela própria ONU apontavam que mais de 55 mil pessoas morreram no Haiti em 2025 em episódios ligados à violência armada. Em 23 de abril de 2026, outro relatório das Nações Unidas registrou que gangues haviam ampliado presença para territórios fora da capital, agravando deslocamentos internos e a crise humanitária. O documento citava superlotação de presídios, avanço do tráfico de armas e incapacidade das autoridades haitianas de conter a expansão territorial das facções. O Binuh pediu que autoridades haitianas e a comunidade internacional reforcem medidas contra o tráfico de armas e acelerem reformas judiciais no país. A ONU também declarou que operações de segurança precisam respeitar direitos humanos, após denúncias envolvendo execuções atribuídas a agentes do aparato policial haitiano durante ações realizadas com suporte armado privado e tecnologia militar de vigilância.
- Centrão articula aliança com Michelle após crise de Flávio Bolsonaro
O vazamento de mensagens entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro abriu uma crise no campo bolsonarista e acelerou negociações entre dirigentes do Centrão e setores do mercado financeiro para redefinir a disputa presidencial de 2026. Lideranças do bloco passaram a discutir a formação de uma chapa encabeçada pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) como vice. Nos bastidores, dirigentes partidários e empresários passaram a tratar Flávio Bolsonaro como um “zumbi político” após a exposição do escândalo envolvendo Vorcaro. ARQUIVO As movimentações ganharam força depois da divulgação, pelo jornalista Igor Gadelha, do portal Metrópoles, de conversas atribuídas a Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. A repercussão do caso produziu reação entre setores da direita institucional e operadores do mercado financeiro que buscam reorganizar um campo conservador fragmentado diante da perspectiva de candidatura à reeleição do presidente Lula em 2026. A nova articulação tenta reunir dois segmentos que sustentaram a ascensão eleitoral do bolsonarismo desde 2018: o agronegócio e o eleitorado evangélico. Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura do governo Jair Bolsonaro, é vista por dirigentes do PP e aliados do Centrão como representante política do agronegócio exportador e da bancada ruralista no Congresso Nacional. Michelle Bolsonaro mantém influência sobre setores evangélicos ligados a igrejas neopentecostais e grupos conservadores organizados em torno da figura do ex-presidente. Segundo a reportagem do Metrópoles, representantes do Centrão e agentes do mercado financeiro procuraram o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do PP, para discutir a viabilidade eleitoral da chapa. O dirigente evitou assumir apoio imediato à proposta em meio às consequências políticas do chamado Caso Master. Ciro Nogueira também passou a enfrentar desgaste depois de ser alvo de operação de busca e apreensão relacionada às investigações envolvendo Daniel Vorcaro. As apurações apontam suspeitas de pagamentos mensais atribuídos ao banqueiro, com valores entre R$ 300 mil e R$ 500 mil. O caso ampliou tensões internas no bloco fisiológico que historicamente negocia apoio parlamentar em troca de espaços no aparelho estatal e verbas públicas. A crise envolvendo Flávio Bolsonaro alterou os cálculos eleitorais da direita tradicional e do empresariado alinhado ao receituário econômico liberal. Entre dirigentes partidários consolidou-se a avaliação de que o senador perdeu capacidade de disputar competitivamente a Presidência da República contra Lula. O desgaste atingiu o núcleo do bolsonarismo num momento em que setores do capital financeiro procuram um nome capaz de preservar agendas de privatização, austeridade fiscal e alinhamento político aos interesses estadunidenses na região. Governadores apresentados como alternativas ao bolsonarismo também enfrentam resistência dentro do Centrão. Ronaldo Caiado (PSD), governador de Goiás, e Romeu Zema (Novo), governador de Minas Gerais, são vistos por lideranças do bloco como nomes com dificuldade para construir alianças nacionais e ampliar influência para além de bases regionais. Antes da divulgação das mensagens entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, Tereza Cristina aparecia como possível candidata a vice em uma chapa liderada pelo senador do PL. A senadora demonstrava resistência à posição secundária e defendia maior protagonismo dentro da direita parlamentar ligada ao agronegócio. Com o enfraquecimento político de Flávio, dirigentes do Centrão passaram a discutir seu nome como cabeça de chapa. Michelle Bolsonaro também demonstrava insatisfação com a escolha de Flávio Bolsonaro como herdeiro político do bolsonarismo. A ex-primeira-dama defendia aproximação com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), visto por setores empresariais como alternativa para reorganizar a direita com discurso menos associado às crises políticas acumuladas pelo núcleo familiar Bolsonaro. Após a divulgação das mensagens envolvendo Vorcaro, setores da direita passaram a defender o nome de Michelle Bolsonaro para a disputa presidencial. Flávio Bolsonaro reagiu à movimentação e tentou conter a fragmentação interna do grupo político. Ao Metrópoles, o senador afirmou que Jair Bolsonaro determinou que ele deve “seguir firme” na disputa política, em tentativa de impedir o avanço das articulações que começaram a redesenhar a disputa presidencial da direita para 2026.
- Irã rejeita acusações “infundadas” e novas sanções do Reino Unido
A embaixada iraniana em Londres rejeitou em 15 de maio as novas sanções impostas pelo Reino Unido e classificou as acusações britânicas como “infundadas” e “politicamente motivadas”. O governo britânico anunciou congelamento de bens, restrições de viagem e bloqueios financeiros contra indivíduos e organizações supostamente ligados ao Irã. A crise diplomática ocorre enquanto Teerã mantém o fechamento do Estreito de Ormuz após ataques conjuntos dos regimes estadunidense e israelense iniciados em 28 de fevereiro. O governo britânico afirmou que as sanções integram uma coordenação política conduzida em conjunto com governos europeus O comunicado iraniano foi divulgado após a ministra das Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, anunciar novas sanções contra entidades e pessoas acusadas por Londres de participação em “atividades hostis apoiadas pelo Irã” contra interesses britânicos e aliados europeus. As medidas incluem congelamento de ativos financeiros, proibição de entrada no território britânico e impedimento para ocupação de cargos empresariais e administrativos. O governo britânico afirmou que as sanções integram uma coordenação política conduzida em conjunto com governos europeus. A embaixada iraniana em Londres respondeu afirmando que as acusações não possuem provas verificáveis. “Essas acusações são completamente infundadas e não são sustentadas por nenhuma evidência crível. Elas parecem ser alegações com motivação política, destinadas a aumentar as tensões e justificar políticas hostis contra a República Islâmica do Irã”, declarou a representação diplomática. O governo iraniano também rejeitou tentativas de autoridades britânicas de relacionar incidentes internos ocorridos no Reino Unido ao Irã. Segundo o comunicado, Londres não apresentou provas por vias diplomáticas ou mecanismos jurídicos internacionais. “Acusações tão irresponsáveis correm o risco de minar as normas diplomáticas e prejudicar as relações bilaterais”, afirmou a embaixada iraniana. Teerã declarou ainda que o Irã permanece entre os países atingidos por operações terroristas e ações armadas organizadas nas últimas décadas. O comunicado acusou governos ocidentais de permitirem atuação de grupos separatistas e organizações extremistas em seus territórios. A missão diplomática iraniana criticou o que chamou de “abordagens seletivas e politizadas” relacionadas ao combate ao terrorismo e afirmou que essas práticas reforçam “padrões duplos” utilizados por governos ocidentais em disputas internacionais. O comunicado também exigiu que Londres suspenda as novas sanções e abandone “medidas coercitivas unilaterais”. A embaixada pediu que o Reino Unido respeite o direito internacional e conduza relações diplomáticas “com base no respeito mútuo e na igualdade soberana”. Ao justificar as sanções, Yvette Cooper afirmou que o pacote “visa diretamente organizações e indivíduos que ameaçam a segurança nas ruas do Reino Unido e a estabilidade no Oriente Médio”. A ministra britânica declarou que Londres não tolerará “grupos criminosos apoiados por setores do regime iraniano”. A nova rodada de sanções ocorre em meio à escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel após o início da ofensiva militar lançada contra o território iraniano em 28 de fevereiro. Desde então, Teerã realizou ataques retaliatórios contra alvos israelenses e bases militares estadunidenses instaladas em países da região. As operações iranianas ocorreram após bombardeios conduzidos pelos regimes estadunidense e israelense contra instalações civis, militares e científicas iranianas. Em resposta, o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz para países envolvidos na ofensiva e seus aliados. As autoridades iranianas endureceram controles marítimos após o presidente estadunidense Donald Trump anunciar medidas de bloqueio direcionadas contra portos e embarcações iranianas. Teerã afirma que as ações violam acordos relacionados ao cessar-fogo negociado pelo Paquistão e implementado em 8 de abril. Segundo o governo iraniano, Washington prorrogou unilateralmente medidas de pressão econômica e naval após o acordo. A República Islâmica afirma que o Estreito de Ormuz permanecerá fechado enquanto o bloqueio marítimo continuar em vigor e enquanto não houver encerramento definitivo das operações militares. O fechamento do estreito afeta uma rota responsável pelo transporte de aproximadamente um quinto do petróleo e gás comercializados no planeta. Relatórios citados pela HispanTV apontam que interrupções na região provocaram retirada de cerca de 1 bilhão de barris de petróleo do mercado internacional. A declaração da embaixada iraniana foi publicada pela HispanTV em 15 de maio de 2026.
- OIM envia assistência emergencial ao Líbano, onde 1 milhão estão deslocados
A Organização Internacional para Migrações enviou mais de 4,5 mil itens de assistência emergencial ao Líbano em meio ao deslocamento de mais de 1 milhão de pessoas. A operação humanitária ocorre após meses de ataques israelenses contra áreas civis libanesas e expansão das tensões envolvendo o Hezbollah no sul do país. A ONU lançou um apelo de US$ 19 milhões enquanto famílias deslocadas enfrentam falta de abrigo, alimentação, atendimento médico e infraestrutura básica. © Unicef/Fouad Choufany Crianças brincam no pátio entre as tendas de um abrigo coletivo temporário em Beirute, no Líbano A remessa humanitária foi anunciada pela Organização Internacional para Migrações (OIM) em 14 de maio. Segundo a agência da ONU, os materiais começaram a ser distribuídos em regiões atingidas pelos bombardeios israelenses e pelos deslocamentos internos provocados pela escalada militar no território libanês. A operação conta com financiamento da União Europeia e do governo de Luxemburgo. Equipes da OIM coordenam a distribuição dos itens com base em levantamentos realizados nos locais que concentram pessoas deslocadas fora dos centros coletivos administrados pelo governo libanês. A ONU informou que famílias deslocadas enfrentam dificuldades para acessar moradia, utensílios domésticos e serviços públicos. Parte da população deixou cidades atingidas por mísseis e drones israelenses e passou a ocupar abrigos improvisados em Beirute e em outras áreas urbanas do país. O chefe da missão da OIM no Líbano, Mathieu Luciano, afirmou que o agravamento da crise humanitária força famílias a se deslocarem repetidamente dentro do território libanês. Segundo ele, muitas dessas pessoas “não têm um local seguro para ir e possuem poucos recursos”. Luciano declarou que o apoio internacional permitiu ampliar a assistência humanitária às populações atingidas pelos ataques. “Sem isso, as condições de vida podem se deteriorar nas próximas semanas”, afirmou. Desde março, a OIM passou a fornecer itens básicos de sobrevivência, auxílio financeiro, alimentação, assistência médica e suporte para acesso a abrigos. A operação concentra parte das ações em áreas fora da jurisdição direta do Estado libanês, regiões marcadas pela destruição de infraestrutura e pela ausência de serviços públicos. A ONU informou que mais de 700 pedidos de evacuação foram registrados desde o início da crise. Até 14 de maio, a OIM intermediou o retorno de 41 migrantes e acompanha outros 150 casos em cooperação com autoridades libanesas e representações diplomáticas estrangeiras. A ofensiva israelense no Líbano provocou destruição de bairros residenciais, redes elétricas, estradas e hospitais. Imagens divulgadas pela ONU mostram edifícios destruídos em Beirute e famílias vivendo em tendas montadas em estacionamentos, escolas e áreas públicas. Em relatórios anteriores, organismos da ONU alertaram para o risco de expansão da destruição observada na Faixa de Gaza para o território libanês. A ONU também registrou continuidade de ataques aéreos e operações com drones mesmo após anúncios de cessar-fogo. Em 8 de maio, relatórios humanitários da ONU apontaram que mais de meio milhão de mulheres permaneciam deslocadas no Líbano. O documento também registrou aumento da fome e informou que até 639 mil mulheres poderiam enfrentar insegurança alimentar nos meses seguintes. Em 28 de abril, a ONU declarou que tensões militares continuavam em várias regiões do Líbano apesar das negociações diplomáticas em curso. A agência para refugiados da ONU relatou pressão sobre abrigos coletivos e sobre a infraestrutura das comunidades que recebem deslocados internos. A OIM informou que o apelo de US$ 19 milhões integra o plano emergencial coordenado entre Nações Unidas e governo libanês para financiar operações de assistência humanitária, evacuação e distribuição de suprimentos em regiões atingidas pelos ataques israelenses.
- Na Etiópia, Guterres alerta para ações externas que agravam conflitos na África
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em 13 de maio, na Etiópia, que intervenções externas alimentam conflitos armados no continente africano. Durante reuniões com dirigentes da União Africana e com o presidente francês Emmanuel Macron, ele declarou que a África será “a primeira vítima da crise no Oriente Médio” diante do impacto econômico provocado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. O chefe da ONU também associou guerras, tráfico de armas, colonialismo e exploração mineral ao bloqueio histórico do desenvolvimento africano. Unicef/Ahmed Mohamdeen Elfatih Uma mãe segura a bala que foi retirada de sua filha de oito anos depois que ela foi atingida em sua casa, nos arredores da capital Cartum Guterres participou em Addis Abeba da abertura do Diálogo Anual de Alto Nível entre Nações Unidas e União Africana. O encontro reuniu representantes da ONU, chefes de Estado africanos e integrantes da União Africana em meio à expansão das tensões militares no Oriente Médio e ao agravamento de disputas armadas em regiões africanas atingidas por operações estrangeiras, redes de armas e disputas por recursos minerais. Durante reunião com o presidente da Comissão da União Africana, Mahamoud Ali Youssouf, e com o presidente francês Emmanuel Macron, Guterres afirmou que os impactos econômicos da crise no Oriente Médio atingirão o continente africano antes de outras regiões. Segundo ele, mesmo uma eventual reabertura imediata do Estreito de Ormuz não impediria desaceleração econômica e inflação nos países africanos. “A África será a primeira vítima da crise no Oriente Médio”, declarou o secretário-geral da ONU. Ele acrescentou que as dificuldades de acesso à energia derivada de combustíveis fósseis e fertilizantes provocarão aumento de custos e inflação em vários países do continente. Guterres afirmou que a situação exige apoio político e econômico à África “para pôr fim a esse pesadelo decorrente da crise no Oriente Médio”. A declaração ocorreu enquanto o comércio internacional enfrenta instabilidade após confrontos militares envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã em rotas marítimas estratégicas da Ásia Ocidental. No discurso direcionado aos líderes africanos, o secretário-geral afirmou que “ingerências externas” ampliam guerras e impedem acordos políticos no continente. Ele citou o Sudão como exemplo da atuação de interesses estrangeiros em conflitos armados africanos. “As armas que chegam ao Sudão são financiadas sobretudo por nações não africanas, que possuem interesses difíceis de compreender”, afirmou Guterres. A declaração expôs a dimensão internacional da guerra sudanesa, marcada pela entrada de armas, financiamento estrangeiro e disputa geopolítica por influência regional. O secretário-geral afirmou que drones utilizados na guerra atingem civis e infraestrutura. Segundo ele, essas operações tornam “extremamente difíceis” as negociações de cessar-fogo e acordos políticos conduzidos por organismos africanos. Guterres também citou a Líbia ao abordar o histórico de intervenções militares estrangeiras no continente. Ele recordou que iniciativas diplomáticas da União Africana foram interrompidas por uma operação militar externa, referência à intervenção conduzida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte em 2011, liderada por Estados Unidos, França e Reino Unido, que destruiu o Estado líbio sob a justificativa de “proteção humanitária”. Segundo o secretário-geral, desde a destruição da Líbia o país se transformou em centro de expansão do terrorismo no Sahel e em outras regiões africanas. A fragmentação do território líbio após a operação militar da OTAN abriu corredores de circulação de armas, mercenários e grupos armados em direção ao Níger, Mali, Burkina Faso e Chade. Ao tratar da economia africana, Guterres afirmou que o continente possui uma “vantagem extraordinária” por concentrar minerais utilizados na economia digital e nos projetos de transição energética defendidos pelas potências industriais. O secretário-geral declarou que a ONU atuará para impedir a repetição do modelo colonial baseado na extração de recursos sem industrialização local. Ele afirmou que a exploração mineral africana historicamente deixou no continente “as consequências ambientais e sociais”, enquanto os lucros e o processamento industrial foram transferidos para economias centrais da Europa e da América do Norte. Em discurso marcado por referências históricas ao colonialismo europeu, Guterres afirmou que a relação entre ONU e África deve considerar o legado da escravidão, da ocupação colonial e do tráfico transatlântico de africanos escravizados. O secretário-geral declarou que apoiar as demandas africanas por reconhecimento histórico e reparações constitui “questão política e moral decisiva”. Ele também defendeu mudanças nas instituições financeiras internacionais e no Conselho de Segurança da ONU, afirmando que as estruturas atuais mantêm obstáculos ao desenvolvimento africano. Guterres afirmou que essa poderá ser sua última cúpula com líderes africanos como secretário-geral das Nações Unidas. A declaração foi feita durante a 10ª Conferência União Africana–Nações Unidas realizada em Addis Abeba, capital da Etiópia, em 13 de maio de 2026.
- Agência Espacial Iraniana inicia a fase final de testes de três satélites
A Agência Espacial Iraniana anunciou em 15 de maio a fase final de testes dos satélites Pars-1, Pars-2 e Rad-1. O anúncio ocorre após ataques dos regimes estadunidense e israelense contra centros civis e científicos iranianos durante os 40 dias de agressão iniciados em 28 de fevereiro. Teerã afirma que os bombardeios contra instalações espaciais configuram “terrorismo de Estado” e ampliou investimentos em infraestrutura espacial nacional. A Agência Espacial Iraniana inicia a fase final de testes de três satélites O diretor da Agência Espacial Iraniana (ISA), Hasan Salariye, declarou que os satélites Pars-1, Pars-2 e Rad-1 passam pelos últimos testes antes do lançamento. Os equipamentos incluem sistemas de radar atualizados e integram projetos desenvolvidos pela indústria aeroespacial iraniana em meio à pressão econômica, militar e tecnológica conduzida por Washington e aliados contra o país persa. Durante visita do primeiro vice-presidente iraniano Mohammad Reza Aref às instalações da agência espacial, Salariye afirmou que “a indústria espacial é nacional, baseada no conhecimento e depende da experiência dos jovens e das elites iranianas”. Segundo ele, o setor obteve “resultados valiosos” com apoio do governo iraniano e do Ministério das Comunicações e Tecnologia da Informação. O dirigente da ISA detalhou os seis setores estruturais do programa espacial iraniano: construção de satélites, desenvolvimento de veículos lançadores, bases de lançamento, centros de controle orbital, estações terrestres de recepção e processamento de dados. Ele informou que cinco desses segmentos permanecem sob responsabilidade do Ministério das Comunicações, enquanto os veículos lançadores são administrados pelo setor de Defesa do Irã. Salariye citou projetos concluídos nos últimos meses, incluindo os satélites Chamran, Kosar-1, Hodhod, Fajr, Navak, Nahid-2, Zafar-2, Paya e Kowar-2. Também mencionou o modelo experimental da constelação Shahid Soleimani, apresentada em homenagem ao tenente-general Qasem Soleimani, assassinado pelos Estados Unidos em janeiro de 2020 em Bagdá, durante operação ordenada pelo governo estadunidense. Segundo a ISA, as versões atualizadas dos satélites Pars-1 e Pars-2 foram concluídas junto ao satélite radar Rad-1. “Estão atualmente nos estágios finais de testes”, declarou Salariye. O programa espacial iraniano inclui ainda o satélite de telecomunicações Pars-3, a carga de imagens de radar Nahid-3, os projetos de pesquisa denominados Pesquisa 1, Pesquisa 2 e Pesquisa 4, além do bloco de transferência orbital Saman. O diretor da agência afirmou que a disputa internacional por órbitas terrestres baixas e altas ampliou a necessidade de autonomia espacial do Irã. Ele citou a limitação de serviços de lançamento oferecidos por países com capacidade espacial e o crescimento de constelações privadas de comunicação em órbita baixa da Terra como fatores que pressionam o desenvolvimento de infraestrutura independente. Segundo Salariye, a infraestrutura espacial iraniana foi distribuída em várias regiões do país. Ele afirmou que a expansão da rede espacial nacional abriu espaço para crescimento de empresas baseadas em conhecimento técnico e produção interna de tecnologia. O avanço anunciado pela ISA ocorre após ataques conjuntos dos regimes estadunidense e israelense contra centros espaciais e científicos iranianos durante a ofensiva militar iniciada em 28 de fevereiro. As operações atingiram instalações civis ligadas à pesquisa aeroespacial e ao controle orbital do país. Entre os locais atingidos estavam o Instituto de Pesquisa Espacial, o Instituto de Pesquisa de Sistemas de Satélites, o Instituto de Pesquisa de Transporte Espacial Avançado, o Instituto de Pesquisa de Propulsão Espacial, o Centro Espacial Mahdasht e estruturas terrestres ligadas ao observatório Khayyam. Em carta enviada à Organização das Nações Unidas em 22 de abril, o embaixador iraniano Amir Said Iravani classificou os bombardeios como atos de “terrorismo de Estado”. No documento, Teerã afirmou que os ataques tinham como alvo instalações civis utilizadas para pesquisa científica e segurança pública.“O ataque a instalações essenciais para o progresso científico e a segurança pública demonstra a verdadeira intenção criminosa dos agressores”, escreveu Iravani na comunicação enviada à ONU. Os ataques ocorreram em meio à escalada militar conduzida por Washington e Tel Aviv contra infraestrutura iraniana, incluindo instalações civis, centros energéticos, sistemas de transporte e estruturas científicas. Autoridades iranianas acusam os governos estadunidense e israelense de utilizar sabotagem tecnológica, sanções econômicas e operações militares para impedir o avanço científico e industrial do país. A HispanTV informou que as estações terrestres de Salmas e Chenaran entraram em operação nos últimos meses, permitindo maior capacidade de controle e monitoramento dos satélites iranianos em órbita. O anúncio da fase final de testes dos satélites Pars-1, Pars-2 e Rad-1 foi publicado pela HispanTV em 15 de maio de 2026.
- Operação Brasil Contra o Crime Organizado apreende mais de 2 toneladas de drogas
A operação Brasil Contra o Crime Organizado apreendeu 2.192 quilos de drogas entre 11 e 14 de maio em ações coordenadas pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A ofensiva mobiliza forças estaduais e federais até 8 de agosto em operações terrestres, fluviais e de inteligência realizadas em nove estados brasileiros. Segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública, o impacto econômico calculado contra organizações criminosas supera R$ 110,6 milhões em quatro dias de operações. A operação começou em 11 de maio e prevê 90 dias de ações integradas entre estruturas policiais estaduais e federais Coordenada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), por meio da Diretoria de Operações Integradas e de Inteligência (Diopi) e da Coordenação-Geral de Fronteiras e Amazônia (CGFron), a operação começou em 11 de maio e prevê 90 dias de ações integradas entre estruturas policiais estaduais e federais. O governo federal afirma que a iniciativa integra o programa Brasil Contra o Crime Organizado, apresentado como eixo de articulação entre União e estados para repressão a facções, crimes transfronteiriços e lavagem de dinheiro. Entre os casos registrados nos primeiros dias da operação, equipes do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), em Mato Grosso do Sul, apreenderam mais de duas toneladas de maconha em Sidrolândia. A carga era transportada em uma caminhonete furtada, também recuperada durante a ação. De acordo com a Senasp, o prejuízo financeiro estimado para os grupos envolvidos ultrapassa R$ 4,2 milhões. As operações ocorreram em Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. As ações incluíram bloqueios em rodovias, patrulhamento ostensivo, fiscalização ambiental e operações em áreas de fronteira consideradas corredores logísticos do narcotráfico e do transporte ilegal de mercadorias. Segundo os dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, as apreensões envolveram maconha, skunk, crack, cocaína, oxicodona e Ice. Também foram recolhidas seis armas de fogo, 29 munições e veículos utilizados nas operações criminosas investigadas. No Amazonas, uma operação integrada no Porto de Codajás resultou na apreensão de aproximadamente 30 quilos de skunk e na prisão em flagrante de uma mulher de 26 anos acusada de tráfico de drogas. A apreensão ocorreu em uma região marcada pela circulação fluvial utilizada para transporte de cargas ilícitas na Amazônia, rota monitorada por forças federais e estaduais em operações ligadas ao controle territorial e repressão ao narcotráfico. Na Bahia, uma operação interestadual voltada ao combate de fraudes eletrônicas e lavagem de capitais cumpriu mandados judiciais e determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 103 milhões em ativos financeiros vinculados a uma organização criminosa. A ofensiva integrou setores de inteligência financeira e estruturas policiais mobilizadas para rastreamento de transferências bancárias e patrimônio associado aos investigados. As ações também atingiram crimes ambientais em estados do Nordeste. No Ceará e no Rio Grande do Norte, operações ambientais apreenderam aves silvestres mantidas em cativeiro ilegal, fiscalizaram áreas de extração mineral irregular e realizaram ações contra caça ilegal. Segundo a Senasp, a operação utiliza integração de inteligência, compartilhamento de informações e presença operacional em áreas consideradas estratégicas pelo governo federal. A pasta afirma que o programa busca ampliar mecanismos de coordenação entre forças policiais estaduais e federais em um cenário marcado pelo crescimento de facções ligadas ao tráfico de drogas, circulação de armas e lavagem de dinheiro em regiões de fronteira. A operação segue até 8 de agosto sob coordenação do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A informação foi divulgada pela Agência Gov em comunicado publicado em 14 de maio de 2026 pelo governo federal.
- A viagem de Trump foi marcada por confrontos entre autoridades estadunidenses e chinesas
A visita oficial do presidente estadunidense Donald Trump à China registrou um confronto físico entre agentes do Serviço Secreto dos Estados Unidos e forças de segurança chinesas em Pequim. O incidente ocorreu na quinta-feira, 15 de maio de 2026, durante a entrada das delegações no complexo do Templo do Céu, um dos locais históricos da capital chinesa. Segundo a Fox News e relatos de jornalistas presentes no local, autoridades chinesas impediram a entrada de um agente armado da equipe presidencial estadunidense, provocando um atraso superior a 30 minutos na cerimônia oficial. Donald Trump, posa para fotos com o presidente da China, Xi Jinping, durante em Pequim, em 15 de maio de 2026. — Foto: Kenny Holston/The New York Times De acordo com a Fox News, o confronto ocorreu no segundo dia da visita de Trump à China, em meio ao aumento das tensões entre Pequim e Washington em torno de Taiwan, comércio e presença militar estadunidense na Ásia-Pacífico. Testemunhas relataram empurrões e discussões entre agentes do Serviço Secreto estadunidense e integrantes da segurança chinesa após a recusa de acesso ao agente armado. O jornal britânico The Telegraph informou que um de seus jornalistas acompanhava a movimentação no local e descreveu a situação como “muito intensa”. Segundo os relatos publicados pela imprensa presente, o governo chinês sustentou que agentes estrangeiros não possuem autorização para ingressar armados em áreas cerimoniais e históricas sob administração estatal chinesa. O lado estadunidense respondeu afirmando que o porte de armas por integrantes da segurança presidencial constitui parte do protocolo operacional permanente do Serviço Secreto. O impasse ocorreu no complexo do Templo do Céu, construído durante a dinastia Ming e utilizado historicamente em cerimônias imperiais chinesas. As autoridades chinesas mantêm regras de segurança e circulação específicas para delegações estrangeiras em locais considerados patrimônio histórico e político do Estado chinês. A negativa de entrada ao agente armado foi interpretada pela delegação estadunidense como quebra dos procedimentos diplomáticos aplicados em viagens presidenciais dos Estados Unidos. A visita de Trump a Pequim ocorre em meio ao aprofundamento das disputas entre China e Estados Unidos sobre Taiwan. Nos últimos meses, Pequim voltou a denunciar a venda de armamentos estadunidenses para Taipei e a presença militar dos Estados Unidos no estreito de Taiwan. O governo chinês considera a ilha parte inseparável do território nacional e acusa Washington de utilizar Taiwan como instrumento de contenção militar e econômica contra a China. Horas antes do incidente, autoridades chinesas haviam advertido o governo estadunidense sobre novas operações militares e acordos de armamento envolvendo Taiwan. A viagem de Trump também ocorre enquanto Washington amplia alianças militares na região do Indo-Pacífico e mantém exercícios conjuntos com Japão, Coreia do Sul e Filipinas, estratégia apresentada pela Casa Branca como mecanismo de “dissuasão”, mas interpretada por Pequim como expansão do cerco militar estadunidense na Ásia. A presença de agentes armados estadunidenses em solo estrangeiro durante deslocamentos presidenciais já provocou atritos diplomáticos em outros países. Protocolos de segurança adotados por Washington estabelecem que integrantes do Serviço Secreto acompanham o presidente armados em qualquer território, prática que governos rivais dos Estados Unidos classificam como demonstração de extraterritorialidade e imposição unilateral de normas estadunidenses sobre legislações locais. O incidente em Pequim ocorre em um momento de deterioração das relações sino-estadunidenses, marcado por sanções comerciais, disputas tecnológicas, presença militar no Mar do Sul da China e confrontos diplomáticos envolvendo o fornecimento de armas para Taiwan. A visita de Trump à China havia sido apresentada pelos dois governos como tentativa de estabilizar canais de diálogo após meses de escalada política e militar entre as duas potências.
- o espírito de gaza em resposta ao genocídio
Yasser Jamil Fayad Médico pediatra, poeta, escritor e doutorando em História. Hoje, faz 78 anos da Nakba, a maior tentativa de destruição do povo palestino e também a marca de nascença do Estado de Israel. Muito já foi escrito sobre o período e o território da Nakba, a grande catástrofe planejada contra o povo palestino, que levou a expulsão forçada de seu território milenar de cerca de 700 mil habitantes – metade da população originária à época. Os livros acadêmicos, literatura, artigos, entrevistas, documentários, filmes etc. giram principalmente tendo no horizonte a perspectiva do colonizador, ou seja, da criação do Estado de Israel. Assim, aquele tempo e espaço são reconstruídos e representados como um momento de festividade dos judeus sionistas e, mesmo, de certo alívio para o ocidente político em especial, para a Europa, pois se tratava de uma “compensação”, a sua moda é claro, pelos horrores da Segunda Grande Guerra. Realizado como veremos à custa de outros horrores, contra outras pessoas, que nada tinham a ver com os acontecimentos em Europa – eis à moda europeia. O significado é restrito, desta forma, a vitória do projeto colonizador e a nascente de um Estado que, permanentemente, iria impor a todo aquele espaço geográfico e a sua vizinhança seu domínio, como um pedaço do ocidente político transposto no coração da região do levante. Os palestinos são nessas versões, da historiografia oficial dos vencedores, "o negativo", aquilo que se quer esconder, ocultar, negligenciar, ignorar... todavia antes de jogarmos luz sobre os horrores sofridos, no passado e no presente, pela única população originária da Palestina é necessário fazer algumas observações. A primeira delas diz respeito ao holocausto, na medida em que se questiona comumente como a vítima, na Europa, tornou-se algoz, na Palestina, em um período tão curto de tempo? A pista para responder esta questão está a meu ver em Aimé Césaire, no seu fabuloso "Discurso sobre o Colonialismo". Para aquelas pessoas, que fizeram e festejaram a Nakba, o holocausto não se constituiu em um crime universal, isto é, para toda a humanidade, mas sim, em um crime particular "inaceitável". No qual europeus praticavam métodos horríveis de morte e tortura, aceitáveis e toleráveis apenas para os povos colonizados (não europeus), contra outros europeus – eis “o” crime, incluindo os de crença religiosa distinta, como os europeus que professavam o judaísmo. Os horrores sempre foram "aceitáveis" quando foram feitos contra outros povos em África, Oceania, Ásia e nas Américas. Desta forma, podemos compreender como foi possível a passagem do holocausto, na Segunda Grande Guerra, para a produção deliberada de horrores similares contra os palestinos na Nakba. A segunda está intimamente ligada a primeira e diz respeito a um processo característico da colonização, qual seja, a desumanização do outro (não europeu) como algo "aceitável" e “desejável”. As descrições, na história oficial israelense e de muito dos seus cúmplices, subtraem do tempo e espaço da Nakba a presença do outro (o palestino) e de seu sofrimento físico e psíquico. A Palestina é apresentada como um espaço vazio ou pouca habitada por indivíduos (e não um povo!) que não pertenceriam aquele território. Sendo comum a acusação de que os palestinos seriam na verdade egípcios, ou iraquianos ou árabes da Península Arábica, mas não originários da Palestina... pior ainda, os colonizadores que chegavam de Europa seriam os “legítimos donos” da terra. Esta negação da dignidade do outro é fundamental para alicerçar as bases de um projeto colonizador que visa o extermínio físico, cultural (material e imaterial), arqueológico do povo colonizado. Ao retirar a humanidade dos palestinos, ao negar sua história naquele território é possível praticar os horrores de morte e tortura como os realizados na Nakba. A Nakba foi uma tentativa de destruição do tecido social palestino através do desespero ocasionado pelos assassinatos, massacres, estupros, expulsões, bombardeios, incêndios etc. O que se desejava era o rompimento das relações de sociabilidade dos palestinos e de sua ligação ancestral com seu território. Na equação do colonizador, os palestinos se tornariam uma espécie de “árabe genérico” passível de se difundir e diluir nos países árabes circunvizinhos. Seria esse, o desejado e planejado, fim do povo palestino. Os resultados devastadores que tal evento teve sobre o tecido social palestino foi tamanho que, no fundo recriou um "novo palestino". Os efeitos da diáspora, campos de refugiados e suas condições precárias de vida, fome, sede, frio, tendas da agência de refugiados da ONU, desemprego, mortalidade elevada, falta de medicamentos etc. e a vontade de retomar à Palestina fez com que as novas gerações pós-Nakba saíssem da condição passiva do sofrimento de seus pais e avós, para uma condição ativa de luta de libertação nacional. Esse "novo palestino", muitos sem nunca terem visto a Palestina, doaram suas vidas a uma legítima e nobre causa. Ajudaram a construir um legado de luta transmitido para as outras gerações... da qual a Gaza, de hoje, com uma população de 70% de refugiados é uma das signatárias dessa herança como é Jenin, Nablus, Hebron, Qalandiya etc. A Gaza pré-Nakba se transformou e seu povo mais ainda... reconstruídos pela luta contínua com suas derrotas, vitórias, sofrimentos etc. Este “espírito” está em toda a Palestina e tem na Faixa de Gaza sua maior expressão, na atualidade, por isso o chamo de “espírito de Gaza”. Todavia é preciso reconhecer que a Nakba gerou tensões entre as gerações subsequentes de palestinos e aqueles que a viveram – como ferida aberta produziu mais dores. Alguns jovens do passado não aceitavam que seus pais tivessem saído da Palestina... “deveriam ter morrido lutando por ela”. Muitos lutaram e morrem, muitos recuaram e voltaram a lutar logo em seguida, e é também verdade que muitos daqueles que viveram tal tragédia planejada achavam, ingenuamente, que aquilo tudo logo passaria e que retornariam para suas vidas normais. Levaram as chaves das portas na esperança de logo voltarem, hoje, símbolo da diáspora e desejo de retorno. Ghassan Kanafani explora parte dessa tensão em seu romance “Retorno a Haifa”, obra em que os pais são levados pelas circunstâncias dramáticas de violência a deixarem para trás um filho. O clímax da obra é este reencontro de uma criança criada por colonos europeus, que se torna soldado israelense, e seus pais biológicos palestinos. Nesta obra literária que foi adaptada para o teatro, Said, personagem que fora o pai jovem na Nakba, em um tom de desabafo e angústia (na versão teatral), diz a sua mulher anos depois: "Não deveríamos ter ido embora". Não obstante, o estado de inferioridade militar produzido contra os palestinos, principalmente pelo Mandato Britânico, à época, mantendo-os com poucas e obsoletas armas com a finalidade de se tornarem vítimas fáceis, na Nakba, de grupos judaicos terroristas, bem treinados e equipados, que se transformariam logo depois no exército regular israelense... a despeito disso tudo... a lição histórica que ficou foi: nunca sair da Palestina! Passados anos, os palestinos especialmente da Faixa de Gaza, sofreram mais uma vez os horrores da morte e da tortura. O primeiro genocídio com imagens instantâneas, de fotos e vídeos da história da humanidade, certamente marcou e marcará definitivamente o século XXI. As explosões, incêndios, corpos mutilados, crianças assassinadas, hospitais e ambulâncias como alvos, jornalistas assassinados, escolas destruídas, refúgios de civis bombardeados, massacres de palestinos famintos à procura de comida, destruição de infraestruturas civis, prisões em massa, uso deliberado de fome e sede com armas de guerra etc. ao mesmo tempo, com festas de colonos judeus diante dos massacres aos palestinos, imagens de soldados estuprando civis palestinos e depois sendo libertados, soldados saqueando as casas palestinas invadidas, imagens de jovens israelenses ridicularizando as vítimas palestinas e seus sofrimentos em mídias sociais, as arquibancadas construídas por israelenses para assistirem com binóculos os bombardeios em Gaza, apoio nas pesquisas de opinião da população israelense ao genocídio, declarações de altos cargos do governo israelense em favor do genocídio etc. ainda estão sendo processados no mundo afora através de livros, filmes, literatura, palestras, debates etc. Ainda que o impacto concreto de mais este horrendo evento planejado contra os palestinos não esteja totalmente claro, o que vimos, foi definitivamente a morte do mito da "eterna vítima", construído em torno dos judeus europeus após o holocausto, em simultâneo, da moralidade política liberal do ocidente e de seus organismos internacionais. O genocídio de cerca de 65 mil pessoas de forma direta e estimado entre 150 mil a 300 mil, incluindo as formas indiretas como falta de medicamentos, cirurgias, diálises renais, quimioterapias, alimentos, água potável etc., tinha a cristalina intenção de produzir uma nova Nakba. Diante das formas modernas de guerra e seus instrumentais mais destrutivos seria novamente possível produzir o desespero através de assassinatos, massacres, estupros, expulsões, bombardeios, incêndios etc. Conjuntamente, de levar a fragmentação política interna pela delação e entrega dos guerrilheiros palestinos, como se os que lutam e resistem fossem “os culpados” e, não, a colonização judaica. A esperança judaica sionista era levar a população da Faixa de Gaza a se desfazer e, por fim, abandonar o seu território milenar em direção ao Egito. Para tanto, a população era deslocada sob bombardeios do norte da Faixa de Gaza, local mais populoso, para o sul da Faixa de Gaza, na fronteira com Egito. As cenas de horrores, assassinatos e torturas são chocantes durante todo esse período, contudo a resposta não foi a almejada pelo colonizador. Foto:@mahmoudhamda Décadas de lutas, resistências, resiliências, formações políticas, debates internos, organizações populares, obras literárias reflexivas (como a de Ghassan Kanafani), poesias de combate, encontros com outras experiências anticolonialistas, avaliações e reavaliações táticas, assembleias etc. formaram um povo distinto daquele de 1948. Um povo mais experimentado, mais consciente de si mesmo, seus aliados e inimigos – um povo forjado na luta! Os palestinos marcharam mais de 30 km, em direção ao norte da Faixa de Gaza, território sabidamente sem água, alimentos, moradia, estruturas hospitalares e de saúde, estruturas educacionais etc., tampouco traíram os seus guerrilheiros denunciando sua presença ou sabotando a luta. Foi como se Gaza estivesse respondendo firmemente ao passado da Nakba e ao presente do genocídio, dizendo, em alto e bom-tom: "Nunca sairemos da Palestina e continuaremos a lutar!" Eis o espírito de Gaza, que sintetiza o melhor da longa história de luta do povo palestino, diante do genocídio sua resposta foi o da anti-Nakba! Da certeza de que nunca mais ocorrerá outra Nakba. É também este espírito, que se espalha e anima a luta de tantos outros povos... hoje, ele está também no Irã e Líbano. 15 de maio de 2026.
- Abu Ahmed al-Ghazali: Como uma das figuras mais reverenciadas do Islã ainda fala ao mundo moderno
A ocupação israelense intensificou restrições contra a Mesquita de Al-Aqsa enquanto autoridades israelenses e colonos ampliam ações para alterar o status histórico do local sagrado em Jerusalém Oriental. O ministro de Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, voltou a invadir o complexo religioso em maio de 2026 e declarou: “Sinto-me como o dono aqui”. Em paralelo, acadêmicos palestinos denunciaram ao Middle East Eye que o cerco israelense ameaça não apenas o acesso de muçulmanos ao local, mas também o patrimônio histórico e intelectual ligado ao estudioso Abu Hamid al-Ghazali. Uma pintura não contemporânea retratando Abu Hamid al-Ghazali | Chat GPT A reportagem publicada pelo Middle East Eye em 13 de maio de 2026 descreve o aumento do controle israelense sobre a Mesquita de Al-Aqsa, terceiro local sagrado do Islã, em meio ao aprofundamento da ocupação de Jerusalém Oriental. Jornalistas do veículo relataram revistas policiais, interrogatórios e restrições de entrada logo na chegada ao Portão dos Leões, um dos acessos ao complexo administrado pelo Departamento Islâmico de Waqf, órgão ligado à Jordânia. Segundo o texto, o representante do Waqf responsável por receber os visitantes demonstrou irritação diante da interferência policial israelense contra convidados previamente autorizados pela administração islâmica. Mesmo com comunicação oficial ao aparato de segurança israelense, o grupo enfrentou demora e interrogatórios antes de conseguir entrar no local. Dentro do complexo, o cenário descrito pelo Middle East Eye indicava presença reduzida de fiéis muçulmanos e concentração de forças israelenses e visitantes israelenses. A reportagem afirma que o ambiente da mesquita encontrava-se sob clima de tensão após semanas de fechamento imposto pelas autoridades israelenses. O Middle East Eye recorda que os acordos históricos do chamado Status Quo, reconhecidos por decisões da Corte Internacional de Justiça, proíbem presença militar israelense dentro do complexo religioso. Apesar disso, Israel mantém uma delegacia policial dentro da área de Al-Aqsa. A reportagem relata que as paredes da Mesquita Al-Qibli apresentam marcas de disparos efetuados por forças israelenses contra fiéis palestinos durante incursões anteriores. O texto sustenta que Israel controla reformas, acessos e funcionamento interno da mesquita sob vigilância militar permanente. “Estou esperando há quatro anos pela autorização da polícia [israelense]. Se você fizer qualquer alteração sem permissão, será preso”, declarou um guia palestino de Al-Aqsa ao Middle East Eye, referindo-se às restrições impostas pelas autoridades israelenses até mesmo para manutenção básica de instalações do complexo. A visita do veículo tinha como objetivo entrevistar Mustafa Abu Sway, vice-presidente do Conselho do Waqf e professor de filosofia e estudos islâmicos da Universidade Al-Quds. Dias antes, Abu Sway havia reagido às invasões conduzidas por Ben Gvir contra Al-Aqsa e declarou ao Middle East Eye que Israel “não deveria brincar” com o local sagrado. Abu Sway ocupa a cátedra acadêmica Al-Ghazali em Al-Aqsa, criada pelo rei Abdullah II da Jordânia. O professor dedicou décadas ao estudo de Abu Hamid al-Ghazali, filósofo e teólogo persa nascido em Tus, no atual Irã, em 1058. Segundo Abu Sway, Al-Ghazali exerceu papel central na tradição intelectual islâmica ao integrar teologia, jurisprudência e sufismo dentro do pensamento sunita. O estudioso lecionou na Universidade Nizamiyyah, em Bagdá, considerada uma das instituições acadêmicas centrais do Império Seljúcida. “Havia centenas de estudantes e estudiosos assistindo às suas aulas”, afirmou Abu Sway. “Ele tornou-se parte da corte de Nizam al-Mulk, o vizir do império seljúcida. Seus livros eram celebrados e traduzidos.” O professor relatou que Al-Ghazali abandonou sua posição acadêmica antes dos 40 anos após enfrentar crise espiritual. Segundo Abu Sway, o estudioso perdeu a capacidade de falar durante aulas e deixou Bagdá após romper com estruturas de prestígio e poder político. “Ele tinha fama, poder e riqueza. Mas repudiou tudo isso”, declarou Abu Sway. Trechos do livro A Treasury of Ghazali, citados pelo professor, registram o relato do próprio Al-Ghazali sobre o período de ruptura: “Por quase seis meses fui lançado entre os desejos mundanos e os impulsos da vida eterna... Allah secou minha língua e fui impedido de lecionar”. Segundo Abu Sway, Al-Ghazali distribuiu sua riqueza, deixou Bagdá e passou a viver em isolamento espiritual em Damasco e Jerusalém. Parte de sua principal obra, A Revivificação das Ciências Religiosas, teria sido escrita em uma sala localizada acima do Portão Dourado de Al-Aqsa, conhecido como Bab al-Rahmah. A reportagem afirma que o espaço associado ao estudioso encontra-se atualmente sob controle israelense. Acima da sala existem postos policiais israelenses, e o acesso à ala leste da mesquita é restringido durante invasões de colonos israelenses. Abu Sway afirmou que os ensinamentos de Al-Ghazali confrontam a lógica de autopromoção das redes sociais contemporâneas. “O ensinamento de Ghazali é fazer o oposto das regras das redes sociais modernas, um mundo quase sem preocupação com os outros e obcecado consigo mesmo”, declarou. O professor citou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como exemplo dessa lógica de culto ao ego. “A plataforma Truth Social é uma extensão do ego dele. Sua assinatura grande é uma extensão do ego dele”, afirmou. Ao discutir o legado intelectual islâmico, Abu Sway rejeitou acusações feitas por intelectuais ocidentais de que Al-Ghazali teria bloqueado o desenvolvimento científico no mundo islâmico. Segundo ele, a destruição da produção intelectual islâmica ocorreu por invasões militares estrangeiras. “Em 1258 os mongóis destruíram Bagdá, centro da civilização islâmica no leste. Eles mataram políticos e estudiosos, destruíram escolas e bibliotecas. Não foi Ghazali. Foram os mongóis”, afirmou. O professor também citou a destruição de Al-Andalus após a reconquista conduzida por Fernando e Isabel no século XV e o domínio cruzado sobre Jerusalém no século XII como fatores ligados ao desmonte das tradições intelectuais islâmicas. “A ala oriental do Islã, a ala ocidental do Islã e o centro do Islã foram devastados por potências estrangeiras. Não é correto culpar um estudioso muçulmano”, declarou. A reportagem recorda que a Mesquita de Al-Aqsa permaneceu fechada por cinco semanas sob ordens israelenses, período descrito como o maior bloqueio desde a tomada de Jerusalém pelos cruzados em 1099. Cronistas da época registraram massacres de muçulmanos e judeus após a invasão conduzida pelos exércitos cruzados. O texto também menciona que o Secretário de Guerra estadunidense Pete Hegseth possui tatuada no braço a frase cruzada “Deus Vult” e uma cruz associada às campanhas militares cristãs medievais. Segundo o Middle East Eye, movimentos israelenses ligados ao chamado Temple Mount defendem destruição da Cúpula da Rocha e da Mesquita de Al-Aqsa para construção de um terceiro templo judaico no local. A reportagem afirma que esses grupos recebem apoio de integrantes da administração Trump e contam com incentivo político de Itamar Ben Gvir. O Middle East Eye encerra afirmando que, após 13 séculos de peregrinações islâmicas em Al-Aqsa, a ocupação israelense tornou difícil para muitos palestinos até mesmo entrar na mesquita para rezar.
- Mudanças climáticas ampliam área de risco da dengue e pressionam sistemas de saúde nas Américas
A expansão da dengue nas Américas passou a atingir regiões dos Estados Unidos após o avanço do mosquito Aedes aegypti impulsionado pelas mudanças climáticas. A Organização Pan-Americana da Saúde alertou em 13 de maio de 2026 que a crise sanitária ameaça sistemas públicos, força de trabalho e economias nacionais em todo o continente. Enquanto governos ampliam gastos militares e operações de controle geopolítico, sistemas de saúde enfrentam déficit projetado de até 1 milhão de profissionais até 2030. Aedes aegypti, mosquito da dengue ©ARQUIVO A Organização Pan-Americana da Saúde, braço regional da Organização Mundial da Saúde nas Américas, afirmou que a disseminação da dengue deixou de estar restrita às regiões tropicais e passou a atingir áreas dos Estados Unidos como Texas e Flórida. O alerta foi apresentado pelo diretor da entidade, Jarbas Barbosa, em entrevista divulgada pela ONU News em 13 de maio de 2026. Segundo Barbosa, o avanço da dengue transformou-se em problema econômico e social ligado à deterioração estrutural dos sistemas de saúde no continente. “Sem saúde, não há força de trabalho; sem força de trabalho, a economia estagna”, declarou. A Opas informou que o continente poderá enfrentar déficit entre 600 mil e 1 milhão de profissionais de saúde até 2030. O diretor da organização afirmou que o cenário pressiona hospitais públicos e compromete a capacidade de resposta diante de epidemias transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, chikungunya e zika. “Estimamos que até 2030, o déficit de profissionais de saúde nas Américas possa atingir 600 mil ou mesmo 1 milhão de profissionais que faltarão nestes sistemas. Também apoiamos a melhoria dos recursos humanos em saúde na região por meio do nosso campus virtual de saúde pública”, afirmou Jarbas Barbosa. Diante da falta de trabalhadores da saúde, a Opas passou a investir em formação digital por meio do campus virtual de saúde pública da entidade. O programa busca capacitar médicos e enfermeiros no manejo clínico da dengue e de outras doenças infecciosas em áreas atingidas pelos surtos. A Opas também acompanha a ampliação da vacinação contra dengue em países da região. A organização informou que o objetivo é reduzir a pressão sobre sistemas públicos de saúde diante do aumento de casos registrados em diversos países americanos. Jarbas Barbosa afirmou que a estratégia sanitária passou a incorporar novas tecnologias para reduzir a transmissão do vírus. Entre elas está o uso da bactéria Wolbachia, utilizada para impedir que o mosquito Aedes aegypti transmita dengue. “Esta bactéria não traz qualquer problema para os seres humanos, mas quando infecta o mosquito, impede que o mosquito seja infectado pelo vírus da dengue”, declarou. A estratégia apoiada pela Opas busca alterar o funcionamento biológico do mosquito em vez de depender apenas de campanhas de eliminação do vetor. Além da Wolbachia, a entidade mencionou uso de radiação para esterilização de mosquitos e expansão da produção regional de vacinas. O Instituto Butantan, no Brasil, foi citado pela Opas como um dos centros responsáveis pela ampliação da capacidade regional de produção de imunizantes contra dengue. A organização informou que a produção local busca reduzir dependência externa em meio à pressão sobre sistemas públicos das Américas. Apesar da incorporação de novas tecnologias, Jarbas Barbosa afirmou que a maioria dos focos do mosquito continua localizada em residências. Dados apresentados pela Opas indicam que entre 80% e 85% dos criadouros encontram-se dentro das casas. “Entre 80% e 85% do foco do mosquito da dengue encontra-se nas casas das pessoas. Se cada família cuidar da sua casa e as autoridades cuidarem dos espaços públicos podemos ter uma redução importante da população de mosquitos e assim evitar surtos e epidemias de dengue”, afirmou. As medidas indicadas pela Opas incluem limpeza de calhas, uso de areia em vasos de plantas e eliminação de recipientes com água parada. A organização sustenta que ações domésticas e políticas públicas locais precisam operar simultaneamente para reduzir transmissão do vírus. Jarbas Barbosa também relacionou a crise da dengue às consequências deixadas pela pandemia de Covid-19 sobre os sistemas de saúde das Américas. Segundo ele, a pandemia demonstrou que colapsos sanitários produzem impactos econômicos diretos sobre produção, emprego e funcionamento das sociedades. O diretor da Opas afirmou que investimentos em saúde pública devem ser tratados como elemento ligado ao desenvolvimento econômico. Segundo ele, o funcionamento do setor sanitário afeta desempenho econômico e capacidade operacional das sociedades. A entidade declarou que sua estratégia regional envolve expansão da saúde digital, fortalecimento da atenção em saúde mental e preparação para futuras epidemias. A Opas defende aumento imediato de investimentos públicos em saúde diante da expansão das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti nas Américas.
- Trump enfrenta crescente pressão em meio ao impasse nas negociações de paz com o Irã
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta pressão política e militar após o colapso de novas propostas de cessar-fogo entre Washington e Teerã. O governo iraniano recusou exigências estadunidenses sobre seu programa nuclear e sobre o controle do Estreito de Ormuz, enquanto autoridades estadunidenses e israelenses passaram a ameaçar retomada dos bombardeios iniciados em junho de 2026. Pesquisas publicadas nos Estados Unidos indicam aumento da rejeição popular à campanha militar, crescimento da inflação energética e desgaste eleitoral do Partido Republicano antes das eleições legislativas de novembro. O presidente Trump está deixando os Estados Unidos para visitar a China, onde se encontrará com o presidente Xi em Pequim [Bonnie CashEPA] As negociações entre Irã e Estados Unidos entraram em novo impasse após o governo iraniano apresentar condições para a continuidade do diálogo. Segundo a Al Jazeera, Teerã exigiu encerramento total das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano, antes da abertura de uma segunda etapa de conversas sobre o programa nuclear iraniano e sobre suas alianças regionais. O governo iraniano também rejeitou desmontar suas instalações nucleares, exigiu suspensão das sanções econômicas impostas por Washington e reivindicou reconhecimento de sua influência estratégica sobre o Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde transita cerca de 20% das exportações globais de energia. Donald Trump classificou a proposta iraniana como “lixo” e afirmou que o cessar-fogo em vigor desde 8 de abril encontra-se em “estado crítico”. Integrantes da administração estadunidense passaram a sugerir retomada dos ataques contra o Irã, enquanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou à CBS que “há trabalho a ser feito”, sustentando que o Irã ainda mantém capacidade militar após os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel em junho. Apesar das ameaças de nova escalada militar, autoridades estadunidenses enfrentam obstáculos políticos internos e limitações estratégicas no exterior. Allison Minor, ex-funcionária do Departamento de Estado e do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, afirmou ao Atlantic Council que “a Casa Branca ficou com um conjunto de opções ruins”. Segundo Minor, Trump está preso entre aprofundar a ofensiva militar ou aceitar concessões políticas ao Irã, cenário que expõe contradições da política externa estadunidense após semanas de ataques sem obtenção dos objetivos declarados por Washington. O governo estadunidense e Israel não conseguiram desmontar as instalações nucleares iranianas. Parte do urânio enriquecido do Irã permanece enterrada sob áreas atingidas pelos bombardeios realizados em junho, enquanto estruturas de enriquecimento continuam operacionais. O governo iraniano também preservou seu arsenal de mísseis balísticos e suas alianças regionais, elementos apontados por Netanyahu como fatores centrais para continuidade da pressão militar contra Teerã. Ian Lesser, pesquisador do German Marshall Fund dos Estados Unidos, afirmou que um conflito prolongado pode transformar-se em responsabilidade política para Trump. Segundo Lesser, o governo iraniano demonstrou capacidade de resistência superior ao esperado pela administração estadunidense, tanto no campo econômico quanto militar. “As coisas não evoluem da maneira que qualquer um dos lados imagina”, declarou. O prolongamento das operações militares também passou a afetar a capacidade operacional das forças armadas estadunidenses em outras regiões. Lesser afirmou que o envolvimento no confronto contra o Irã compromete a capacidade de resposta dos Estados Unidos no Indo-Pacífico, em meio ao esgotamento dos estoques de munição após cinco semanas de bombardeios. Relatório do Center for Strategic and International Studies apontou redução da prontidão militar estadunidense diante de possíveis confrontos contra a China. O governo iraniano respondeu à iniciativa estadunidense chamada “Projeto Liberdade”, anunciada por Trump para forçar abertura do Estreito de Ormuz à navegação internacional. Após o anúncio, o Irã lançou mísseis e drones contra os Emirados Árabes Unidos, principal aliado regional de Washington no Golfo. Autoridades estadunidenses evitaram classificar os ataques como violação formal do cessar-fogo firmado em abril, sinalizando ausência de disposição da Casa Branca para retomar imediatamente os bombardeios. Menos de 24 horas depois, Trump suspendeu a iniciativa relacionada ao Estreito de Ormuz, embora embarcações ligadas ao Irã continuem submetidas a bloqueio naval estadunidense na região. A reação da Casa Branca demonstrou limites operacionais da ofensiva militar conduzida por Washington e expôs dependência das monarquias do Golfo à proteção militar estadunidense diante da capacidade iraniana de atingir infraestrutura regional. A pressão política doméstica também aumentou nos Estados Unidos. Pesquisa Reuters/Ipsos publicada em 12 de maio mostrou que dois terços dos entrevistados afirmaram que Trump não apresentou justificativa clara para a campanha militar contra o Irã. O mesmo percentual declarou sofrer impacto econômico causado pelo aumento dos preços de gasolina, petróleo e fertilizantes desde o início dos ataques. A aprovação de Trump caiu para 36%, abaixo dos 47% registrados no ano anterior, antes da aproximação das eleições legislativas de novembro de 2026, disputa que pode definir o controle do Congresso estadunidense. O desgaste ocorre em meio ao aumento dos custos energéticos e ao crescimento da inflação, fatores que atingem setores da base eleitoral republicana. Allison Minor afirmou que Trump demonstra preocupação com inflação, preços da energia e oscilações do mercado financeiro. Segundo ela, o presidente estadunidense tentará apresentar qualquer eventual acordo com Teerã como vitória política, mesmo que seja obrigado a recuar em pontos centrais das exigências feitas por Washington. “Ele encontrará uma forma criativa de apresentar algum acordo como vitória mesmo que tenha que conceder algo”, declarou. Minor avaliou que Trump dificilmente conseguirá impor simultaneamente limitações ao programa nuclear iraniano e controle estadunidense sobre o Estreito de Ormuz. “Ele será forçado a priorizar um em detrimento do outro e priorizará o acordo nuclear”, afirmou. Enquanto isso, o governo iraniano endureceu sua posição nas negociações. Dennis Citrinowicz, pesquisador do Institute for National Security Studies, afirmou que Teerã saiu do confronto convencido de que mantém vantagem estratégica sobre Washington. Segundo Citrinowicz, o governo iraniano interpreta que a campanha militar e econômica conduzida pelos Estados Unidos fracassou em produzir concessões estratégicas. Citrinowicz afirmou que o Irã passou a enxergar a crise como oportunidade para ampliar capacidade de dissuasão diante dos Estados Unidos e redefinir o equilíbrio regional. Apesar disso, ele reconheceu que o país enfrenta pressão econômica interna e danos em partes de sua infraestrutura militar após os bombardeios realizados em junho. “O posicionamento iraniano deixa Trump com poucas opções viáveis, e todas variam entre ruins e piores: aceitar termos politicamente impossíveis em Washington ou aprofundar a escalada de maneira que possa desencadear uma confrontação regional mais ampla sem alterar as posições centrais de Teerã”, escreveu Citrinowicz na rede X.











