Na Etiópia, Guterres alerta para ações externas que agravam conflitos na África
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O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em 13 de maio, na Etiópia, que intervenções externas alimentam conflitos armados no continente africano. Durante reuniões com dirigentes da União Africana e com o presidente francês Emmanuel Macron, ele declarou que a África será “a primeira vítima da crise no Oriente Médio” diante do impacto econômico provocado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. O chefe da ONU também associou guerras, tráfico de armas, colonialismo e exploração mineral ao bloqueio histórico do desenvolvimento africano.

Guterres participou em Addis Abeba da abertura do Diálogo Anual de Alto Nível entre Nações Unidas e União Africana. O encontro reuniu representantes da ONU, chefes de Estado africanos e integrantes da União Africana em meio à expansão das tensões militares no Oriente Médio e ao agravamento de disputas armadas em regiões africanas atingidas por operações estrangeiras, redes de armas e disputas por recursos minerais.
Durante reunião com o presidente da Comissão da União Africana, Mahamoud Ali Youssouf, e com o presidente francês Emmanuel Macron, Guterres afirmou que os impactos econômicos da crise no Oriente Médio atingirão o continente africano antes de outras regiões. Segundo ele, mesmo uma eventual reabertura imediata do Estreito de Ormuz não impediria desaceleração econômica e inflação nos países africanos.
“A África será a primeira vítima da crise no Oriente Médio”, declarou o secretário-geral da ONU. Ele acrescentou que as dificuldades de acesso à energia derivada de combustíveis fósseis e fertilizantes provocarão aumento de custos e inflação em vários países do continente.
Guterres afirmou que a situação exige apoio político e econômico à África “para pôr fim a esse pesadelo decorrente da crise no Oriente Médio”. A declaração ocorreu enquanto o comércio internacional enfrenta instabilidade após confrontos militares envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã em rotas marítimas estratégicas da Ásia Ocidental.
No discurso direcionado aos líderes africanos, o secretário-geral afirmou que “ingerências externas” ampliam guerras e impedem acordos políticos no continente. Ele citou o Sudão como exemplo da atuação de interesses estrangeiros em conflitos armados africanos.
“As armas que chegam ao Sudão são financiadas sobretudo por nações não africanas, que possuem interesses difíceis de compreender”, afirmou Guterres. A declaração expôs a dimensão internacional da guerra sudanesa, marcada pela entrada de armas, financiamento estrangeiro e disputa geopolítica por influência regional.
O secretário-geral afirmou que drones utilizados na guerra atingem civis e infraestrutura. Segundo ele, essas operações tornam “extremamente difíceis” as negociações de cessar-fogo e acordos políticos conduzidos por organismos africanos.
Guterres também citou a Líbia ao abordar o histórico de intervenções militares estrangeiras no continente. Ele recordou que iniciativas diplomáticas da União Africana foram interrompidas por uma operação militar externa, referência à intervenção conduzida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte em 2011, liderada por Estados Unidos, França e Reino Unido, que destruiu o Estado líbio sob a justificativa de “proteção humanitária”.
Segundo o secretário-geral, desde a destruição da Líbia o país se transformou em centro de expansão do terrorismo no Sahel e em outras regiões africanas. A fragmentação do território líbio após a operação militar da OTAN abriu corredores de circulação de armas, mercenários e grupos armados em direção ao Níger, Mali, Burkina Faso e Chade.
Ao tratar da economia africana, Guterres afirmou que o continente possui uma “vantagem extraordinária” por concentrar minerais utilizados na economia digital e nos projetos de transição energética defendidos pelas potências industriais. O secretário-geral declarou que a ONU atuará para impedir a repetição do modelo colonial baseado na extração de recursos sem industrialização local.
Ele afirmou que a exploração mineral africana historicamente deixou no continente “as consequências ambientais e sociais”, enquanto os lucros e o processamento industrial foram transferidos para economias centrais da Europa e da América do Norte.
Em discurso marcado por referências históricas ao colonialismo europeu, Guterres afirmou que a relação entre ONU e África deve considerar o legado da escravidão, da ocupação colonial e do tráfico transatlântico de africanos escravizados.
O secretário-geral declarou que apoiar as demandas africanas por reconhecimento histórico e reparações constitui “questão política e moral decisiva”. Ele também defendeu mudanças nas instituições financeiras internacionais e no Conselho de Segurança da ONU, afirmando que as estruturas atuais mantêm obstáculos ao desenvolvimento africano.
Guterres afirmou que essa poderá ser sua última cúpula com líderes africanos como secretário-geral das Nações Unidas. A declaração foi feita durante a 10ª Conferência União Africana–Nações Unidas realizada em Addis Abeba, capital da Etiópia, em 13 de maio de 2026.



































