Haiti: violência de gangues e ação policial causam 1,6 mil mortes em 3 meses
- www.jornalclandestino.org

- há 10 horas
- 3 min de leitura
Mais de 1,6 mil pessoas morreram e 745 ficaram feridas no Haiti entre janeiro e março de 2026, segundo relatório divulgado em 14 de maio pelo Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti, Binuh. A ONU informou que operações policiais apoiadas por empresas militares privadas e drones responderam por mais de 60% das vítimas registradas no período. Enquanto Porto Príncipe permanece sob domínio armado de facções, a expansão da violência para regiões centrais do país expõe o colapso político haitiano após décadas de intervenções estrangeiras e tutela internacional.

O representante da ONU no Haiti, Carlos Ruiz Massieu, afirmou que parte das operações de segurança conseguiu conter o avanço territorial de gangues em áreas da capital, Porto Príncipe, mas reconheceu que a população continua vivendo sob “forte sensação de insegurança”. Segundo o Binuh, a violência segue avançando para departamentos centrais do país, em meio à incapacidade do Estado haitiano de restabelecer controle administrativo e social sobre territórios dominados por grupos armados.
O relatório apresentado pela ONU descreve assassinatos, sequestros, extorsões e destruição de propriedades em regiões controladas pelas gangues. O documento também registra denúncias de execuções sumárias atribuídas a agentes policiais durante operações conduzidas com apoio de empresas militares privadas e uso de drones. A ONU informou que essas ações foram responsáveis por mais de 60% dos mortos e feridos contabilizados no primeiro trimestre de 2026.
Na região de Artibonite, no centro do Haiti, ataques coordenados ocorreram no fim de março contra diferentes localidades do país. Segundo o Binuh, guardas comunitários foram alvo direto das ofensivas. O relatório aponta que 27% das vítimas mortas ou feridas no período resultaram de ações conduzidas por gangues armadas.
A ONU registrou ainda casos de violência sexual cometidos contra mulheres e adolescentes entre 12 e 17 anos. O Binuh afirmou que estupros e exploração sexual vêm sendo utilizados como instrumentos de controle social em áreas dominadas pelas facções. O relatório não apresentou números absolutos sobre vítimas de violência sexual, mas indicou que os crimes cresceram junto da expansão territorial das gangues.
Imagens divulgadas por agências humanitárias ligadas à ONU mostram filas de haitianos aguardando distribuição de ajuda alimentar e financeira em diferentes regiões do país. Segundo o Programa Mundial de Alimentos, parte da população deslocada depende de programas emergenciais de transferência de renda e alimentação para sobreviver após abandonar bairros controlados por grupos armados.
A crise haitiana ocorre após anos de ocupações estrangeiras, operações militares patrocinadas por potências ocidentais e sucessivas intervenções conduzidas sob bandeiras da ONU e da Organização dos Estados Americanos. Desde a ocupação estadunidense iniciada em 1915 até as missões internacionais das últimas décadas, o Haiti permaneceu submetido a mecanismos externos de controle político, financeiro e militar que desmontaram estruturas produtivas locais e aprofundaram dependência econômica.
Em março de 2026, a ONU já havia alertado que ao menos 26 gangues operavam em Porto Príncipe e arredores. O organismo internacional informou na ocasião que 85% da capital haitiana encontrava-se sob influência de grupos armados. Dados divulgados pela própria ONU apontavam que mais de 55 mil pessoas morreram no Haiti em 2025 em episódios ligados à violência armada.
Em 23 de abril de 2026, outro relatório das Nações Unidas registrou que gangues haviam ampliado presença para territórios fora da capital, agravando deslocamentos internos e a crise humanitária. O documento citava superlotação de presídios, avanço do tráfico de armas e incapacidade das autoridades haitianas de conter a expansão territorial das facções.
O Binuh pediu que autoridades haitianas e a comunidade internacional reforcem medidas contra o tráfico de armas e acelerem reformas judiciais no país. A ONU também declarou que operações de segurança precisam respeitar direitos humanos, após denúncias envolvendo execuções atribuídas a agentes do aparato policial haitiano durante ações realizadas com suporte armado privado e tecnologia militar de vigilância.



































