326 trabalhadores humanitários foram assassinados em 2025. mais da metade das mortes ocorreu na Palestina
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Pelo menos 326 trabalhadores humanitários foram mortos em 2025 em 21 países, segundo dados apresentados ao Conselho de Segurança da ONU em 8 de abril de 2026. O total de mortos nos últimos três anos ultrapassa 1.010 profissionais em serviço. Mais da metade dessas mortes ocorreu na Palestina. Autoridades da ONU e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha denunciaram o colapso das proteções legais internacionais. As declarações expõem o avanço de um cenário descrito como “mundo sem lei, belicoso, egoísta e violento”.

De acordo com o coordenador de ajuda emergencial da ONU, Tom Fletcher, mais de 560 trabalhadores humanitários foram mortos em Gaza e na Cisjordânia ocupada desde 2023, no contexto do genocídio conduzido por Israel com apoio político, militar e diplomático estadunidense. Outros 130 morreram no Sudão, 60 no Sudão do Sul, 25 na Ucrânia e 25 na República Democrática do Congo, compondo o total global apresentado ao Conselho de Segurança.
“Esta não é uma escalada acidental. É o colapso da proteção”, afirmou Fletcher aos embaixadores em Nova York, destacando que os trabalhadores foram mortos enquanto distribuíam alimentos, água, abrigo e medicamentos, muitas vezes em comboios claramente identificados. Ele acrescentou que profissionais humanitários não estão apenas sendo mortos, mas também enfrentam restrições sistemáticas: “nossas ações estão sendo restringidas, penalizadas e deslegitimadas”.
Fletcher, que lidera o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), denunciou ainda interferências diretas no trabalho de assistência. “Dizem-nos para onde não devemos ir, a quem não devemos ajudar. Somos assediados ou presos por fazermos o nosso trabalho. Mentem sobre nós e essas mentiras têm consequências”, declarou, evidenciando um padrão de criminalização da ajuda humanitária em múltiplos cenários de conflito.
O chefe humanitário da ONU questionou abertamente a eficácia das resoluções internacionais diante da continuidade das mortes. Ele citou a Resolução 2730 de 2024, redigida pela Suíça e aprovada por 14 votos, com abstenção da Rússia, que exigia proteção a trabalhadores humanitários conforme o direito internacional. Apesar disso, os ataques persistem, levantando questionamentos sobre a real capacidade de aplicação dessas normas.
Fletcher levantou hipóteses diretas sobre o esvaziamento do direito internacional humanitário: se ele “não é mais conveniente”, se os responsáveis “não enfrentam consequências” ou se trabalhadores humanitários passaram a ser vistos como “alvos legítimos”. A formulação rompe com a retórica diplomática tradicional e expõe a normalização da violência contra civis e equipes de socorro.
O cenário descrito inclui também o colapso do financiamento internacional para operações humanitárias, agravando a vulnerabilidade das equipes em campo. Segundo Fletcher, esse conjunto de fatores reflete um sistema internacional em deterioração, incapaz de garantir sequer a proteção mínima a quem atua em missões de sobrevivência básica.
Dados apresentados por Gilles Michaud, responsável pela segurança do pessoal da ONU, reforçam esse quadro. Em 2025, foram registrados 14 sequestros, 145 prisões e detenções e 441 episódios de intimidação ou assédio contra trabalhadores humanitários. No mesmo período, ocorreram 62 ataques a instalações da ONU e 84 ataques a veículos da organização.
“Os perpetradores raramente são responsabilizados – raramente são identificados e envergonhados publicamente, muito menos processados”, afirmou Michaud ao Conselho de Segurança, indicando um padrão de impunidade estrutural. Ele acrescentou que o sistema de segurança das Nações Unidas opera no limite, sendo “cada vez mais subfinanciado, ignorado e minado”.
As mortes ocorreram em contextos diversos, incluindo operações de vacinação, distribuição de alimentos, apoio a populações deslocadas e atuação em bairros sob violência constante. Trabalhadores também morreram ao escoltar comboios humanitários destinados a milhões de pessoas em situação de necessidade extrema.
Elyse Mosquini, representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha junto à ONU, sintetizou o diagnóstico ao declarar: “Estamos perdendo nossa humanidade na guerra”. Ela destacou que a impunidade alimenta a continuidade dos ataques: “Cada ataque contra pessoal humanitário que passa impune permite que esse padrão insidioso continue. Cada ataque desse tipo sinaliza para os outros que as vidas dos trabalhadores humanitários são descartáveis”.
Mosquini também alertou para o crescimento de campanhas deliberadas de desinformação voltadas a deslegitimar organizações humanitárias. Segundo ela, essas campanhas buscam retratar trabalhadores como alvos legítimos, minando a confiança pública e ampliando os riscos operacionais. “Isso não pode continuar”, afirmou.
Ao encerrar sua intervenção, Fletcher dirigiu-se diretamente aos membros do Conselho de Segurança: “Não estamos aqui para lembrá-los desses compromissos, mas para desafiá-los a cumpri-los”, reiterando a distância entre resoluções formais e a realidade concreta enfrentada por trabalhadores humanitários em zonas de conflito.



































