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EBC: Como o Bolsa Família ajuda a transformar vidas e quebrar ciclos de pobreza

O Programa Bolsa Família retirou milhões de famílias da dependência de renda emergencial e levou parte da primeira geração de beneficiários ao ensino superior e ao mercado formal de trabalho. Dados divulgados em 2023 pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), em parceria com pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), do Oppen Social e da Università Bocconi, mostram que 64,1% das crianças inscritas no programa em 2005 deixaram o Cadastro Único até 2019. A trajetória da estudante Gabrielly Gomes, de 19 anos, moradora de Santa Maria, no Distrito Federal, integra esse processo de mobilidade social construído por políticas públicas implementadas em meio a décadas de desigualdade estrutural produzida pelo modelo econômico defendido por organismos financeiros internacionais e pelas agendas neoliberais aplicadas na América Latina.


A estudante Gabrielly Gomes, de 19 anos, com sua mãe, Clevia Natanael Gomes, e seu pai, Vilmar Manoel Gomes
A estudante Gabrielly Gomes, de 19 anos, com sua mãe, Clevia Natanael Gomes, e seu pai, Vilmar Manoel Gomes

Filha caçula de uma família com seis irmãos, Gabrielly cresceu em Santo Antônio do Descoberto, município goiano localizado no entorno do Distrito Federal. O pai, Vilmar Manoel Gomes, trabalhava como marceneiro autônomo e enfrentava períodos sem renda fixa. A criação do Bolsa Família, em 2003, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, passou a complementar a renda doméstica em um período marcado pelo desemprego e pela precarização do trabalho informal.


“O cartão em nome de Vilmar Manoel Gomes está guardado até hoje. É a lembrança de uma trajetória que levou a família às atuais conquistas”, registrou a Agência Gov em reportagem publicada em 25 de maio de 2026.


“Eu sempre trabalhei como autônomo e, você sabe, dessa forma um mês tem, outro mês não tem. Realmente as condições não eram favoráveis para a gente. Com criança a despesa é grande, e eu tinha filhos pequenos. Então para mim foi muito bom, me ajudou muito. Sou muito grato”, declarou Vilmar à Agência Gov, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

Com o crescimento dos filhos mais velhos e o aumento da renda familiar, a mãe de Gabrielly, Clevia Natanael Gomes, passou a trabalhar fora de casa. A família deixou o programa em meados de 2012, após atingir renda considerada suficiente para sair do Cadastro Único.


“Com condições melhores, eu não necessitei mais. Fiquei feliz porque me ajudou na hora que eu precisava e essa ajuda já passou para outra pessoa, que realmente estava precisando mais do que eu”, afirmou Vilmar. “Eu fiquei tranquila porque eu sabia que a gente ia conseguir superar todas as dificuldades, a gente já estava bem melhor financeiramente”, acrescentou Clevia.


Hoje estudante de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de Brasília, Gabrielly afirma que a experiência familiar moldou sua visão sobre programas sociais e desigualdade.


“Eu sempre entendi o que os programas sociais significavam para as pessoas que precisam, que estavam nas mazelas, assim como eu e minha família. E, desde então, eu sabia que queria trabalhar e atuar na área de políticas sociais”, declarou. “O que eu passei com os meus pais influenciou muito na forma como eu vi as políticas sociais. Eu fui beneficiária, por que não atuar nessa área e ajudar outras pessoas?”


A pesquisa “Mobilidade Social no Brasil: uma análise da primeira geração de beneficiários do Programa Bolsa Família”, divulgada em 2023, analisou o destino social de crianças pobres e extremamente pobres cadastradas no programa em seus anos iniciais. Em 2005, 11,6 milhões de beneficiários tinham entre sete e 16 anos. Em 2019, quando esse grupo alcançou faixa etária entre 21 e 30 anos, apenas 2,37 milhões permaneciam no programa. Cerca de 7,45 milhões deixaram o Cadastro Único e ingressaram no mercado formal de trabalho.


O levantamento foi conduzido por pesquisadores do IMDS, do Oppen Social, da FGV e da Università Bocconi. Os dados desmontam parte do discurso construído por setores do mercado financeiro, da mídia corporativa e de grupos políticos alinhados à agenda de austeridade fiscal, que durante anos classificaram programas de transferência de renda como mecanismos de “dependência estatal”.


Na residência da família Gomes, quem administrava os recursos do Bolsa Família era Clevia Natanael Gomes. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, as mulheres representam 84% das responsáveis familiares do programa, totalizando mais de 16 milhões de pessoas.


“Eu estava sempre ajudando em casa como dava, cuidando dos meninos, levando na escola, quando precisava, levava também no posto de saúde. E às vezes eu pensava como seria se ficássemos sem [o Bolsa Família], mas deu tudo certo”, relatou Clevia.


O benefício era utilizado para alimentação, material escolar, roupas e calçados. Gabrielly recorda uma das compras feitas pela mãe após o saque do benefício. “Eu tenho lembrança de uma vez ela ter chegado com tênis para eu ir para escola e eu ficar muito feliz”.


As chamadas condicionalidades do programa também marcaram a rotina da família. O Bolsa Família exige acompanhamento de vacinação, monitoramento nutricional de crianças menores de sete anos, pré-natal para gestantes e frequência escolar mínima para estudantes de quatro a 17 anos.


“Eu lembro da gente ir ao posto de saúde para fazer a pesagem, acompanhar. Também tinha a frequência escolar. E sei que, antes de eu nascer, meus irmãos eram presentes nessa trajetória de acompanhar a vacinação, todas essas questões muito importantes”, afirmou Gabrielly.


Segundo as regras do programa, crianças de quatro a seis anos incompletos devem manter frequência escolar mínima de 60%. Para crianças e adolescentes entre seis e 18 anos incompletos que ainda não concluíram a educação básica, a exigência é de 75% de presença nas aulas. Os dados são monitorados pelas redes públicas de ensino por meio do Sistema Presença.


Gabrielly afirma que outras famílias do bairro em Santo Antônio do Descoberto também recebiam o benefício durante os anos em que o programa atendia a comunidade local. Parte dos antigos colegas de infância ingressou no ensino superior.


“Ainda há contato com os amigos da infância e ela comemora o fato de que, assim como ela, a maioria seguiu para a universidade – passo para a autonomia financeira. ‘É muito marcante não só para mim, mas para eles também, lembrar dessa virada de chave que nós conseguimos dar com a nossa família’”, registrou a Agência Gov.

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