A falta de financiamento para o desenvolvimento ameaça reverter décadas de progresso
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A Organização das Nações Unidas alertou em 9 de abril de 2026 que a combinação de tensões geopolíticas, fragmentação econômica e conflitos ameaça reverter décadas de avanços no desenvolvimento global. O Relatório de Financiamento para o Desenvolvimento Sustentável de 2026 aponta que a lacuna de financiamento para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) continua a se ampliar, exigindo cerca de US$ 4 trilhões anuais até 2030. Dados oficiais indicam que a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento caiu 6% em 2024 e mais 23% em 2025, enquanto o endividamento público global atingiu o nível mais alto em duas décadas. Ao mesmo tempo, tarifas impostas por economias centrais sobre países pobres dispararam, chegando a 28% para exportações dos países menos desenvolvidos em 2025. Autoridades da ONU afirmam que o cenário reflete um enfraquecimento estrutural do multilateralismo em meio à reconfiguração de interesses das potências.

O relatório avalia o cumprimento do chamado Compromisso de Sevilha, firmado em 2025, que estabelece metas para mobilizar os recursos necessários ao financiamento do desenvolvimento sustentável. Segundo a Secretária-Geral Adjunta da ONU, Amina Mohammed, “implementar o Compromisso de Sevilha é a nossa melhor oportunidade para demonstrar o compromisso duradouro da comunidade global com a cooperação e para desbloquear o financiamento necessário para cumprir a promessa dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”.
Apesar dessa diretriz, o diagnóstico apresentado pela ONU revela deterioração acelerada das condições financeiras globais para países em desenvolvimento. Li Junhua, subsecretário-geral da ONU para Assuntos Econômicos e Sociais, afirmou que “lamentavelmente, a lacuna de financiamento está aumentando”, destacando que os países mais pobres enfrentam simultaneamente pressões de dívida, custos elevados de capital e impactos crescentes da crise climática.
O relatório identifica que a retração da ajuda internacional ocorre em paralelo à intensificação de práticas comerciais restritivas por parte de economias centrais. “Nações poderosas estão reformulando alianças comerciais e de investimento, muitas vezes em detrimento dos países mais pobres. Isso mina os próprios fundamentos da cooperação global”, declarou Li durante o lançamento do documento.
Os dados apresentados evidenciam a dimensão dessa mudança: as tarifas médias aplicadas sobre exportações dos países menos desenvolvidos saltaram de 9% para 28% em 2025. Para outros países em desenvolvimento, excluindo a China, as tarifas passaram de 2% para 19%, representando um aumento superior a oito vezes em apenas um ano. A ONU aponta que tais medidas ampliam a vulnerabilidade econômica dessas nações, reduzindo sua capacidade de inserção no comércio internacional e agravando déficits estruturais.
O cenário é agravado pelo impacto de crises geopolíticas recentes sobre a economia global. O relatório destaca que a escalada de tensões no Oriente Médio gerou choques significativos em mercados de energia e alimentos, afetando diretamente países dependentes de importações e pressionando ainda mais a sustentabilidade da dívida. Segundo a ONU, essas repercussões já são visíveis em cadeias de abastecimento, inflação e deterioração fiscal em diversas economias do Sul Global.
Em paralelo, o documento reconhece avanços pontuais que contrastam com o quadro geral de retração. Em 2024, os investimentos globais em energia renovável atingiram US$ 2,2 trilhões, o dobro do volume destinado a combustíveis fósseis. Além disso, o comércio entre países em desenvolvimento quadruplicou nos últimos 20 anos, indicando uma tentativa de reconfiguração econômica fora dos centros tradicionais de poder.
Ainda assim, a ONU sustenta que esses avanços são insuficientes para compensar o recuo no financiamento internacional e o aumento das barreiras comerciais. “Implementar o Compromisso de Sevilha continua sendo o único caminho viável para superar a lacuna de financiamento necessária para atingir os ODS”, afirmou Li Junhua.
O relatório encerra com um apelo direto à ação política dos Estados-membros, indicando que o impasse atual não é técnico, mas resultado de decisões estratégicas. “O mundo agora está de olho na vontade política coletiva dos Estados-Membros. Precisamos passar da retórica do compromisso para a execução de ações concretas”, declarou o subsecretário-geral.



































