Alemanha: Julgamento dos manifestantes acusados de invadir a fábrica da Elbit é adiado
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Cinco ativistas serão julgados na Alemanha sob acusação de participação em organização criminosa após ação contra uma instalação da empresa israelense Elbit Systems. O julgamento, previsto para 27 de abril de 2026, foi adiado após os réus serem colocados atrás de barreiras de vidro, impedindo contato com seus advogados. Os acusados, conhecidos como “Ulm Five”, estão presos desde setembro de 2025 em diferentes unidades prisionais no sul do país. A defesa denunciou violações de direitos processuais e condições severas de detenção. O caso ocorre em meio à intensificação da repressão europeia contra ativistas que denunciam o genocídio em Gaza.

Os cinco ativistas - Daniel Tatlow-Devally, Zo Hailu, Crow Tricks, Vi Kovarbasic e Leandra Rollo - são acusados de invadir uma instalação da Elbit Systems em Ulm, no sul da Alemanha, em 8 de setembro de 2025. Segundo as acusações, o grupo quebrou a fachada de vidro da fábrica e destruiu equipamentos de escritório, incluindo computadores, monitores e telefones. A ação teve como alvo uma empresa que, de acordo com dados da organização Cage International, fornece 86% das armas e tecnologias de vigilância utilizadas pelas forças israelenses em Gaza, cenário de genocídio desde outubro de 2023.
Após a invasão, os ativistas foram presos e permanecem em prisão preventiva há mais de sete meses, período que ultrapassa o limite legal de seis meses estabelecido pela legislação alemã. A advogada de defesa Nina Oner afirmou que “os clientes estão detidos há mais de sete meses, o que equivale, na prática, a uma punição sem condenação definitiva”. Relatos anteriores indicam que os réus enfrentam isolamento rigoroso, monitoramento constante e restrições severas de comunicação, com cartas sendo previamente lidas e conversas supervisionadas e gravadas por autoridades policiais.
O julgamento, inicialmente marcado para a manhã de 27 de abril de 2026, foi interrompido após advogados denunciarem que seus clientes foram posicionados atrás de cabines de vidro no tribunal, impossibilitando qualquer interação direta. Segundo comunicado divulgado pelos próprios ativistas, “não foi possível chegar a um acordo entre o juiz e os advogados sobre a saída dos Cinco das caixas de vidro”. Ainda de acordo com a nota, “os advogados se recusaram a sair das cabines de vidro para ficar ao lado de seus clientes. O juiz então decidiu adiar o julgamento”. A primeira audiência foi remarcada para a semana seguinte.
O processo ocorre no Centro Correcional de Stuttgart, conhecido como Prisão de Stammheim, local historicamente associado ao julgamento de membros da Fração do Exército Vermelho (RAF) na década de 1970. Além das acusações de invasão de propriedade e danos materiais, os ativistas enfrentam a acusação mais grave de pertencer a uma “organização criminosa”, especificamente a Palestine Action Germany, com base no artigo 129.º do código penal alemão, legislação frequentemente utilizada em casos de “terrorismo” e que prevê penas de até cinco anos de prisão.
Em comunicado publicado em seu site oficial, os ativistas afirmaram: “Não nos tornaremos cúmplices nem nos resignaremos a um sistema em que todos os meios disponíveis sejam usados para legitimar o colonialismo e a ocupação, e o sofrimento inimaginável que eles causam”. O texto acrescenta: “É nosso dever pôr um fim a isto e interromper a situação até que a verdade venha à tona e a justiça prevaleça”.
O caso se insere em um contexto mais amplo de alinhamento político e militar europeu com Israel, incluindo a aprovação, pela Alemanha, de acordos de venda de armas no valor de US$ 3,1 bilhões, mesmo diante das denúncias internacionais sobre o genocídio em Gaza. Paralelamente, organizações denunciam o uso crescente de legislação antiterrorismo para criminalizar ações diretas e movimentos de solidariedade à Palestina, enquanto empresas de armamentos continuam operando com apoio estatal e contratos públicos.
A repressão ao ativismo ocorre simultaneamente ao fortalecimento das relações entre governos europeus e a indústria militar, frequentemente beneficiada por subsídios públicos e proteção política, consolidando um modelo no qual a contestação ao complexo industrial-militar é tratada como ameaça criminal, mesmo quando direcionada a empresas diretamente envolvidas em operações militares contra populações civis.



































