As empresas de petróleo, gás e armamentos que lucram com a guerra contra o Irã
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Enquanto a escalada militar entre Estados Unidos e Israel contra o Irã pressiona mercados e eleva o custo de vida, corporações de combustíveis fósseis e armamentos registram lucros recordes em escala global. O número de mortos no Irã já ultrapassa 3.500 em meio ao conflito em curso, segundo dados citados no debate público internacional. O bloqueio parcial no Estreito de Ormuz deixou cerca de 1.600 embarcações e 20.000 marinheiros retidos no Golfo Pérsico, enquanto o petróleo Brent ultrapassou US$ 107 por barril. No Reino Unido, famílias enfrentam nova alta nas contas de energia, com projeções de aumento de até £300 por ano. Paralelamente, o gasto militar global atingiu US$ 2,887 trilhões em 2025, o maior patamar já registrado pelo SIPRI.

A crise energética e militar expôs um padrão de concentração de riqueza em setores diretamente beneficiados por instabilidade geopolítica. Um levantamento da Global Witness, em parceria com o The Guardian, revelou que grandes empresas de petróleo e gás lucraram mais de US$ 30 milhões por hora apenas no primeiro mês da guerra contra o Irã. O choque no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte de petróleo, agravou a volatilidade dos mercados e impactou cadeias de suprimento em escala global. O aumento dos preços atingiu consumidores na Europa, Ásia e outras regiões dependentes de energia importada, ampliando pressões inflacionárias e insegurança alimentar.
No Reino Unido, o impacto recai diretamente sobre a população. Pesquisas apontam que 44% dos cidadãos não conseguem arcar com novos aumentos nas contas de energia, em um cenário de crescente pobreza energética. Estimativas indicam ainda que cerca de 10 mil mortes anuais no país estão associadas a condições de frio extremo ligadas à falta de aquecimento adequado, resultado direto da desigualdade no acesso à energia. Apesar disso, executivos do setor energético viram suas fortunas crescerem rapidamente no período da crise, com valorização de milhões de libras em ações de empresas como Shell, BP, Centrica e Harbour Energy.
Entre os exemplos citados, a CEO da Harbour Energy, Linda Cook, teve aumento superior a £4 milhões em suas ações, totalizando cerca de £26 milhões após o início da escalada militar. O CEO da Shell, Wael Sawan, registrou valorização de aproximadamente £1,8 milhão, enquanto Chris O’Shea, da Centrica, e Carol Howle, da BP, também tiveram ganhos expressivos em participação acionária. Globalmente, o CEO da Chevron, Michael Wirth, teve acréscimo de mais de £44 milhões em sua posição acionária, enquanto a norueguesa Equinor registrou alta superior a 45% no valor de mercado. Analistas do setor econômico apontam que choques no fornecimento de petróleo tendem a elevar simultaneamente preços globais e margens de lucro das grandes produtoras.
No setor militar, o aumento de gastos também acompanha a escalada do conflito. Os Estados Unidos, financiando operações militares contra o Irã, destinam em média US$ 1,8 bilhão por dia às ações de guerra, enquanto empresas como a Lockheed Martin viram suas ações subirem cerca de 40% desde o início de 2026. O relatório indica que o mercado de defesa reage diretamente a expectativas de instabilidade, transformando risco geopolítico em valorização financeira. Andrew Feinstein, pesquisador da indústria armamentista, afirmou que “nunca vi uma guerra e um conflito serem manipulados de forma tão descarada para obter lucro a curto prazo”, destacando o uso estratégico da instabilidade como mecanismo de ganho financeiro.
O funcionamento desses mercados revela uma estrutura em que o risco é socializado entre populações e o lucro concentrado em corporações. O economista Jagannadha Pawan Tamvada, da Universidade de Kingston, afirma que “interrupções no fornecimento em qualquer ponto do sistema elevam os preços em todos os lugares”, enquanto a capacidade de repasse recai diretamente sobre consumidores. Ruth London, do grupo Fuel Poverty Action, afirmou que “não é que a escassez aumente os custos das empresas. Elas cobram mais porque podem. Elas embolsam a diferença”, relacionando a crise energética à lógica de extração de valor em períodos de instabilidade.
A dimensão política da crise também se expressa no sistema de tributação e subsídios. Organizações como Tax Justice UK defendem taxação mais rígida sobre lucros extraordinários obtidos durante guerras e crises energéticas, enquanto alertam que a estrutura fiscal atual favorece grandes corporações. Em 2022–2023, o Reino Unido arrecadou £6,8 bilhões com imposto sobre lucros extraordinários de energia após a guerra na Ucrânia, mas enfrenta resistência política para repetir medidas semelhantes na atual crise envolvendo o Irã. Caitlin Boswell, da Tax Justice UK, afirma que “durante esses períodos de crises globais, certas empresas obtêm lucros recordes em meio ao sofrimento humano no Irã, e as pessoas comuns acabam pagando a conta”.
No setor de combustíveis fósseis e armamentos, o modelo de financiamento estatal também sustenta parte significativa dos lucros privados. Estima-se que o Reino Unido destine cerca de £17,5 bilhões anuais em subsídios ao petróleo e gás, enquanto empresas de defesa como a BAE Systems recebem aproximadamente £1 bilhão em financiamento público para pesquisa e desenvolvimento. Andrew Feinstein classifica esse modelo como “assistencialismo corporativo”, em que recursos públicos são convertidos em lucro privado através de contratos estatais e subsídios diretos.
A indústria de armamentos mantém ainda vínculos estruturais com governos e cadeias de decisão política. Relatórios indicam práticas de influência direta sobre políticas públicas e acesso privilegiado a informações estratégicas, com casos de corrupção documentados em contratos internacionais. Anna Stavrianakis, da Universidade de Sussex, descreve o setor como integrado ao Estado em uma relação de “escritório de planta aberta”, na qual fronteiras entre política pública e interesse corporativo são continuamente borradas. Enquanto isso, a continuidade da guerra contra o Irã e a disputa por rotas energéticas no Estreito de Ormuz mantêm ativos os mecanismos globais de valorização desses setores.



































