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Autismo: a chave da sobrevivência humana?

No final de 2025 foi publicado na prestigiada revista científica Molecular, Biology and Evolution1 um estudo que aborda o transtorno do espectro autista (TEA) como uma neurodivergência que seria o resultado da seleção natural atuando sobre a espécie humana.

O TEA, caracterizado – e até estereotipado – como alterações no comportamento que dificultam a vida em sociedade, segundo os autores da pesquisa, seria o resultado de efeitos da própria epigenética (ações do ambiente que alterariam a expressão gênica). De forma simples e didática: é como se nosso material genético tivesse dois interruptores para certas características – os chamados genes – e a ligação de um ou de outro dependesse dos fatores ambientais).

Entre os fatores que “ligam” ou “desligam” (expressam ou não os genes), temos os agrotóxicos sintéticos, principalmente os dos grupos químicos organofosforados, amplamente usado no Brasil, e até dos organoclorados, já proibidos aqui, mas seguem presentes seja pela forma residual no ambiente, seja pelo comércio irregular e clandestino. Os estudos científicos mostram que essa atuação no material genético se dá principalmente durante à exposição das mães durante a gestação, afetando diretamente os genes dos bebês. 2,3,4,5,6,7,8

Não irei discutir esses fatos neste momento, mas destacar alguns pontos.

O primeiro é justamente a quantidade cada vez maior de pessoas diagnosticadas – algumas, inclusive, tardiamente – com TEA e a necessidade de a sociedade efetivamente apresentar políticas públicas para a verdadeira inclusão dessas pessoas. NO Brasil, de acordo com o Censo Demográfico de 2022, foram registradas 2,4 milhões de pessoas com TEA, o que representa 1,2% da população.9 Nos Estados Unidos, neste mesmo ano, estimou-se que 1 a cada 31 crianças de 8 anos são identificadas com a neurodivergência – taxa essa que aumentou em relação ao levantamento de 2020 que era de 1:36.10 E de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), globalmente o TEA atinge 1 a cada 127 pessoas.11,12

Um segundo ponto que chamo atenção: apesar do artigo mostrar que pode ser considerado um fator evolutivo/adaptativo da espécie humana, uma vez que seria uma estratégia que o cérebro sofreu (lembrando que a seleção natural ocorre ao acaso, não é direcionada e atua sobre a diversidade de genes em uma população) e que, moldando o cérebro para o que definimos como TEA, geraram pessoas com dificuldades de comunicação, interações sociais e sensoriais, porém, com habilidade individuais notáveis. Pessoas mais hábeis, porém, mais isoladas. Uma contradição em relação não apenas à nossa natureza humana social, mas que dificultaria o pensamento e a luta coletiva.

Por fim, um terceiro ponto que pode até soar como teoria conspiratória.

Os estudos científicos – portanto, dotados de método científico – provam que o TEA tem suas raízes genéticas, influenciadas pelo ambiente, em especial os agrotóxicos químicos sintéticos. No entanto, o lobby das corporações/acionistas relacionados com o agronegócio latifundiário segue influenciando/censurando esse tipo de informação. Além, claro, de financiar políticos que estejam alinhados com seus projetos e que coloquem, por exemplo, contra a reforma agrária e a proibição desses venenos.

E piorando a situação, ressurge fortemente um movimento negacionista, surfando e sendo carregado na crista da onda de movimentos neonazifascistas, de uma ultradireita não apenas violenta, mas anticiência, tendo como bandeira principal o movimento contra as vacinas. O que não surpreende, uma vez que visam o extermínio da população que não lhes interessa – principalmente os mais pobres, os quais sabemos, pelo processo de racismo estrutural em nossa sociedade, que são os povos pretos, quilombolas, indígenas e imigrantes.

Entre as mentiras que o movimento antivacina propagam é justamente que “as vacinas causam autismo”. É a necropolítica exposta!

Podemos lembrar do que aconteceu durante a pandemia da Covid-19, ou ainda, mais recentemente, com outras doenças que eram preocupação do passado: o sarampo.

No Brasil, durante o desgoverno do criminoso ex-presidente Jair Bolsonaro e sua gangue, pesquisadores apresentaram estudos durante a audiência na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia mostrando que, se não houvesse uma campanha negacionista que promoveu aglomerações, o não uso de máscaras, de que era “apenas uma gripezinha” e que não apenas incentivou a população a não se vacinar, como atrasou propositadamente a compra de vacinas, mais de 400 mil vidas brasileiras poderiam ter sido salvas.13,14

Movimento similar tivemos nos Estados Unidos, à época também sob a batuta de Donald Trump. E em seu atual governo, não apenas impôs cortes na área da saúde e educação, como nomeou como seu secretário da Saúde um negacionista antivacina: Robert F. Kennedy Jr. 15

Autismo
Autismo

Como resultado, os Estados Unidos passam por um surto de sarampo16 – doença que pode ser letal – tal como aconteceu no Brasil sob a (ir)responsabilidade de negacionistas da extrema-direita.17 Somente como a volta do governo Lula e o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo campanha massiva de vacinação, informação e educação, depois de cinco anos o país conseguiu deixar de ser endêmico do sarampo18 – assim como novamente deixamos o mapa da fome.

A extrema-direita é assim: promove o caos através da mentira e escondem/censuram a verdade quando ela lhe afeta. Neste caso, se realmente se preocupam com os casos de TEA, por que seguem apoiando e permitindo sua liberação e uso dos agrotóxicos? Sabemos a resposta.

Por fim, se o futuro da humanidade será formado por pessoas cada vez mais neurodivergentes, é algo que não podemos prever pela ocasionalidade da evolução. O fato é que o número de pessoas diagnosticadas está aumentando (e não apenas pelo acesso aos profissionais). Estará nossa sociedade preparada para essa inclusão? A luta contra o capacitismo não pode ser apenas leis burocráticas, mas depende de unidade, coletividade, ação conjunta. O aumento de neurodivergentes seria uma resposta à ineficácia da sociedade que se diz coletiva, mas segue com seus interesses individuais e egoístas?

E, ainda que seja potencializado por fatores ambientais, quem nos garante que esses acontecimentos não sejam propositais? Quem garante que nossa sociedade do cansaço (que dorme pouco e mal, que se alimenta mal, que se mata de trabalhar) não é forçada a esse comportamento justamente porque a Ciência está sendo usada contra nós mesmos? (Ah como gostaria de saber o que George Orwell pensa a respeito!)

E se as neurodivergências, selecionadas naturalmente sob influência de um ambiente antropomorfo-capitalista passasse a ser a nova “normalidade”? E os que hoje as rotulam/discriminam passassem a ser a minoria que ainda manteria o senso coletivo e não lhes restaria alternativa a não ser aceitar que todos somos humanos e precisamos da coletividade?

Fica a provocação.


*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação. Autor do livro “Entre mitoses e revoluções”, do blog e do canal no YouTube “Biólogo Socialista”, e do PodCast “ProfPadulla”. Instagram: @BiologoSocialista

Referências bibliográficas

1. STARR, A.L. & FRASER, H.B. 2025. A general principle of neuronal evolution reveals a human-accelerated neuron type potentially underlying the high prevalence of autism in humans. Molecular Biology and Evolution, 42: 9. https://doi.org/10.1093/molbev/msaf189

2. VON EHRENSTEIN, O.S. et al. 2019. Prenatal and infant exposure to ambient pesticides and autism spectrum disorder in children: population based case-control study. BMJ, 364: I962. https://www.bmj.com/content/364/bmj.l962

3. RICE, D. & BARONE JR., S. 2000. Critical periods of vulnerability for the developing nervous system: evidence from humans and animal models. Environmental Health Perspectives. 108 Suppl 3: 511-33. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10852851/

4. GLASSON, E.M. et al., 2004. Perinatal factors and the development of autism: a population study. Arch Gen Psychiatry. 61(6):618-27. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15184241/

5. PHILIPPAT, C. et al., 2018. Prenatal exposure to organophosphate pesticides and risk of autism spectrum disorders and other non-typical development at 3 years in a high-risk cohort. Int J Hyg Environ Health. 221(3):548-555. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29478806/

6. LIZÉ, M. et al., 2022. Prenatal exposure to organophosphate pesticides and autism spectrum disorders in 11-year-old children in the French PELAGIE Cohort. Environ Res. 212(Pt C):113348. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35500857/

7. xu, y. ET AL. 2023. Maternal exposure to pesticides and autism or attention-deficit/hyperactivity disorders in offspring: A meta-analysis. Chemosphere. 313: 137459. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0045653522039522

8. BORGES, L. S., ALMEIDA, R. C., & FIGUEIREDO, A. P. 2024. Genética e epigenética do transtorno do espectro autista: Uma revisão bibliográfica. HPC Health and Science Journal, 3(1), 1–15. https://hpchsj.com/index.php/hpchsj/article/download/65/23/71

9. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022 identifica 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro autista (TEA). Agência de Notícias do IBGE, 23 maio 2025. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43464-censo-2022-identifica-2-4-milhoes-de-pessoas-diagnosticadas-com-autismo-no-brasil

10. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION – CDC. Data and statistics on autism spectrum disorder. CDC, 27 maio 2025. https://www.cdc.gov/autism/data-research/index.html

11. WORLD HEALTH ORGANIZATION – WHO. Autism spectrum disorders: Fact sheet. WHO, 17 setembro 2025. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/autism-spectrum-disorders

12. GBD 2021 AUTISM SPECTRUM COLLABORATORS. 2024. The global epidemiology and health burden of the autism spectrum: findings from the Global Burden of Disease Study 2021. Lancet Psychiatry, 11, p. 290–305. https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366%2824%2900363-8/fulltext

14. Diretor da Pfizer escancara atraso letal do Governo Bolsonaro na compra de vacinas. El País, 13 maio 2021. https://brasil.elpais.com/brasil/2021-05-13/diretor-da-pfizer-escancara-atraso-letal-do-governo-bolsonaro-na-compra-de-vacinas.html

15. Quem é RFK Jr., ativista antivacina que comandará Saúde em governo Trump. CNN Brasil. 14 nov de 2024. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eleicoes-nos-eua-2024/quem-e-rfk-jr-conspiracionista-antivacina-que-comandara-saude-em-governo-trump/

16. Cresce epidemia de sarampo nos EUA com aumento de casos na Carolina do Sul. UOL. 20 jan. 2026. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/01/20/cresce-epidemia-de-sarampo-nos-eua-com-aumento-de-casos-na-carolina-do-sul.htm

17. Por que o sarampo voltou e já causou três mortes em São Paulo. El País. 31 ago 2019.

18. Após cinco anos, Brasil recupera certificado de eliminação do sarampo. https://fiocruz.br/noticia/2024/11/apos-cinco-anos-brasil-recupera-certificado-de-eliminacao-do-sarampo

 
 
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