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Casos de violência sexual em conflitos mais que duplicaram em 2025

Em 2025, as Nações Unidas registraram 9.788 casos de violência sexual relacionada a conflitos armados em 21 países. O número representa mais que o dobro dos registros contabilizados em 2024, segundo relatório divulgado em 29 de maio pelo secretário-geral da ONU. O documento aponta mulheres e meninas como principais alvos e inclui, pela primeira vez, forças de segurança da Rússia e de Israel entre os atores citados por padrões documentados de abusos.


© Unicef/Tess Ingram A violência sexual relacionada a conflitos continua a ser usada como arma de guerra
© Unicef/Tess Ingram A violência sexual relacionada a conflitos continua a ser usada como arma de guerra

O relatório anual das Nações Unidas sobre violência sexual em cenários de conflito registrou 9.788 casos confirmados durante 2025, abrangendo episódios de estupro, escravidão sexual, casamento forçado, tráfico de pessoas e sequestros associados a guerras e confrontos armados em países da África, Oriente Médio, Europa e Caribe. Os dados foram divulgados em 29 de maio e revelam uma expansão do uso da violência sexual como instrumento de controle territorial, repressão social e intimidação de populações civis.


A representante especial do secretário-geral da ONU para Violência Sexual em Conflitos, Pramila Patten, afirmou que os números refletem uma escalada das violações registradas em áreas atingidas por confrontos armados. Segundo ela, os dados reunidos pela ONU representam apenas uma parcela da dimensão do problema. “Os números contidos neste relatório devem ser entendidos não como o quadro completo, mas como um indicador de um padrão muito mais amplo de violações que permanecem em grande parte invisíveis e subnotificadas”, declarou.

A ONU informa que mulheres e meninas continuaram sendo as principais vítimas dos crimes documentados. O relatório também registrou casos envolvendo homens e meninos submetidos a violência sexual utilizada como forma de tortura, coerção ou punição por grupos armados e forças de segurança.


O documento aponta ainda que pessoas LGBTQI+ enfrentaram perseguições e abusos sexuais direcionados em diferentes contextos de conflito. Entre as vítimas identificadas pelas Nações Unidas havia pessoas com idades entre um e 70 anos, incluindo indivíduos com deficiência.


Segundo Pramila Patten, muitos dos episódios registrados foram acompanhados por outras formas de violência. O relatório menciona casos de assassinatos cometidos após estupros e episódios de suicídio envolvendo sobreviventes dos abusos.


Os dados reunidos pelas Nações Unidas indicam que grupos armados não estatais continuaram utilizando a violência sexual para consolidar domínio sobre comunidades, rotas estratégicas e territórios com recursos naturais. Em diversas regiões, o controle de áreas de mineração, exploração de matérias-primas e corredores comerciais esteve associado a padrões documentados de violência contra civis.


O relatório também relaciona a continuidade desses crimes à circulação de armas leves em zonas de conflito. Segundo as conclusões apresentadas pela ONU, a disponibilidade desses armamentos contribuiu para a manutenção de ambientes onde abusos sexuais são empregados como instrumento de coerção e imposição de poder.


Pela primeira vez desde o início da publicação anual desse mecanismo de monitoramento, as forças armadas e de segurança da Rússia e as forças armadas e de segurança de Israel foram incluídas no documento em razão de padrões documentados de violência sexual relacionados aos conflitos analisados pelas Nações Unidas.


A inclusão ocorre em um contexto de ampliação das denúncias internacionais sobre violações de direitos humanos em diferentes teatros de guerra. O relatório não apresenta apenas casos isolados, mas padrões observados por mecanismos de investigação e monitoramento vinculados à ONU.


As Nações Unidas também destacam que restrições ao acesso humanitário, insegurança em áreas de combate e insuficiência de recursos financeiros dificultaram tanto a coleta de informações quanto o atendimento às vítimas. Em diversos países, equipes humanitárias enfrentaram obstáculos para alcançar comunidades afetadas e documentar violações.


A publicação ressalta que a subnotificação continua sendo um dos principais desafios para compreender a dimensão do problema. Em muitas regiões, vítimas deixam de denunciar os crimes por medo de represálias, estigmatização social ou ausência de estruturas de proteção.


O relatório encaminhado ao Conselho de Segurança da ONU solicita medidas voltadas à prevenção dos crimes, à responsabilização dos autores e ao fortalecimento da assistência aos sobreviventes. Entre as recomendações estão a ampliação dos mecanismos de monitoramento, o fortalecimento dos regimes de sanções, a proteção de mulheres em operações da ONU e a expansão do financiamento destinado a serviços médicos, apoio psicossocial e assistência jurídica.


A ONU também defende a garantia de acesso humanitário às populações atingidas por conflitos armados, apontando que a presença de equipes médicas, organismos internacionais e mecanismos independentes de investigação permanece condicionada à segurança e às condições de acesso impostas pelos atores envolvidos nos confrontos.

 
 

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