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Arábia Saudita anistia quase 2 mil etíopes detidos

Quase dois mil cidadãos da Etiópia presos na Arábia Saudita receberam anistia das autoridades sauditas, segundo comunicado divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores da Etiópia na segunda-feira, 14 de julho de 2026. Após a decisão, o governo etíope iniciou procedimentos para facilitar o retorno de 1971 cidadãos ao país. A medida ocorreu após uma reportagem do Middle East Eye revelar a situação de etíopes mantidos no corredor da morte em centros de detenção sauditas.


Gebremeskel Haile, que tem dois filhos no corredor da morte na Arábia Saudita, fotografado em sua casa | Foto: MEE
Gebremeskel Haile, que tem dois filhos no corredor da morte na Arábia Saudita, fotografado em sua casa | Foto: MEE

O Ministério das Relações Exteriores da Etiópia afirmou que a concessão das anistias ocorreu após “esforços diplomáticos e consulares contínuos” junto às autoridades da Arábia Saudita. O governo etíope informou que permanece “em estreita colaboração” com Riad sobre questões envolvendo cidadãos etíopes no reino, incluindo pessoas submetidas a processos judiciais e disputas legais.


A declaração oficial indicou que os contatos entre os dois países ocorreram “nos mais altos níveis de governo”. O anúncio foi divulgado após uma reportagem publicada pelo Middle East Eye no início de julho sobre cidadãos etíopes condenados ou aguardando execução na Arábia Saudita.


Entre os casos investigados pelo veículo estavam pessoas presas por acusações relacionadas a drogas, incluindo situações envolvendo khat, uma planta estimulante utilizada em partes do leste africano, mas proibida pela legislação saudita. Alguns dos detidos relataram ao Middle East Eye que foram submetidos a processos sem compreender documentos apresentados em árabe e denunciaram abusos durante a prisão.


Centenas de etíopes permaneciam no corredor da morte no centro de detenção de Khamis Mushait, na Arábia Saudita. Um relatório da Anistia Internacional informou que as autoridades sauditas executaram quase 100 pessoas naquele ano, incluindo pelo menos 61 condenações relacionadas a crimes envolvendo drogas. As execuções no país são realizadas, em muitos casos, por decapitação com espada.


Hailay Berhane, migrante da região de Tigray, na Etiópia, detido em Khamis Mushait, afirmou ao Middle East Eye por meio do aplicativo de mensagens Imo que ele e outros cidadãos etíopes foram obrigados a assinar documentos em árabe sem compreender o conteúdo.


“Eles me entregaram 41 kg de drogas e me obrigaram a acreditar que eram minhas, além de me fazerem assinar documentos que eu nem sequer entendia o que estavam escritos em árabe”, declarou Berhane ao relatar sua prisão por agentes de segurança sauditas três anos antes.


A situação dos migrantes etíopes na Arábia Saudita ocorre em meio a dificuldades econômicas e sociais na Etiópia, onde desemprego, crise econômica e impactos de conflitos internos levaram jovens a buscar oportunidades de trabalho no exterior, especialmente no Golfo Pérsico.


A região de Tigray, no norte da Etiópia, foi atingida por um conflito armado entre 2020 e 2022, período marcado por deslocamentos populacionais e danos à infraestrutura. Organizações de direitos humanos relataram impactos sobre comunidades civis durante o período.


Yared Hailemariam, especialista etíope em direitos humanos, afirmou ao Middle East Eye que fatores políticos e econômicos influenciam a migração de jovens etíopes. “A instabilidade política, os conflitos armados e a crise econômica são os principais fatores que afetam a vida dos jovens etíopes”, declarou.


Hailemariam também afirmou que parte dos jovens etíopes é submetida a recrutamento forçado e enviada para treinamentos militares e confrontos armados internos e externos.


Segundo relatos reunidos pelo Middle East Eye, alguns migrantes etíopes acabam presos por violações das rígidas leis antidrogas sauditas, enquanto outros afirmam terem sido acusados por crimes que não cometeram ou forçados a apresentar confissões falsas.


Gebremariam Gebrezgiabher, pai de Kibrom, um cidadão etíope executado na Arábia Saudita, relatou ao Middle East Eye o impacto da morte do filho. “Foi muito difícil para um pai saber de sua morte, especialmente da forma como ele foi morto. Sua morte matou uma parte de mim”, afirmou.

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