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Colonos israelenses desenterram corpo de idoso palestino e obrigam família a sepultar pai novamente

A família do palestino Haj Hussein Mohammad Hussein Al-Asaasa, de 85 anos, foi obrigada a retirar seu corpo da sepultura horas após o enterro na aldeia de Al-Asaasa, ao sul de Jenin, na Cisjordânia ocupada, depois que colonos israelenses ameaçaram remover o cadáver à força. O caso ocorreu na sexta-feira, 8 de maio, sob presença de soldados israelenses e colonos ligados ao assentamento ilegal de Tersala. Relatos indicam que a família realizou dois funerais no mesmo dia após o corpo ser exumado e transferido para uma aldeia vizinha.


7 de maio de 2026. (Foto de Majdi Fathi/NurPhoto via Getty Images)
7 de maio de 2026. (Foto de Majdi Fathi/NurPhoto via Getty Images)

Haj Hussein Mohammad Hussein Al-Asaasa, conhecido como Abu Ezzat, morreu ao meio-dia de sexta-feira em decorrência de problemas de saúde acumulados nos últimos anos, incluindo cirurgia cardíaca, complicações arteriais e acúmulo de líquido nos pulmões. Segundo seu filho, Mohammad Al-Asaasa, a família iniciou imediatamente os procedimentos para o enterro no cemitério da aldeia, utilizado há décadas pelos moradores locais e situado a cerca de 500 metros do assentamento israelense de Tersala.


Mohammad afirmou ao The New Arab que a família entrou em contato com as autoridades palestinas, que coordenaram autorização junto ao escritório de ligação israelense para permitir o sepultamento entre 16h30 e 17h30, com participação limitada a aproximadamente 40 pessoas. O cemitério contém entre 150 e 200 sepulturas e passou a ser tratado pelas autoridades israelenses como “zona militar” após o retorno dos colonos ao assentamento há cerca de seis semanas.


Segundo o relato da família, soldados israelenses permaneceram próximos ao cemitério durante o enterro. Colonos posicionados na área elevada do assentamento insultavam e provocavam os presentes enquanto a cerimônia ocorria. Mohammad disse que os familiares ignoraram as provocações porque pretendiam apenas concluir o funeral do pai.


Horas depois do enterro, moradores da aldeia correram até a casa da família para informar que colonos estavam escavando a sepultura recém-fechada. Ao retornar ao cemitério, os familiares encontraram o local ocupado por colonos e soldados israelenses. Mohammad relatou que os militares impediram inicialmente a entrada da família no cemitério até que alguns parentes conseguiram alcançar o portão.


De acordo com Mohammad, um homem que se apresentou como responsável pelo assentamento declarou à família: “Esta sepultura deve ser removida daqui”. O filho de Haj Hussein respondeu que o enterro havia sido autorizado por coordenação oficial prévia, mas recebeu como resposta: “Eu não reconheço a coordenação. Esta terra é nossa”.


A situação evoluiu para um ultimato. Segundo Mohammad Al-Asaasa, os colonos informaram que a família tinha duas opções: retirar o corpo por conta própria ou permitir que um trator destruísse a sepultura e lançasse o cadáver para fora do cemitério. Quando alguns parentes conseguiram entrar na área, encontraram a sepultura já aberta até o nível das pedras que cobriam a câmara funerária.


“Se tivéssemos demorado um pouco mais, eles teriam removido o corpo e o jogado para fora”, declarou Mohammad ao The New Arab.

Soldado israelense. ARQUIVO ©YESH DIN
Soldado israelense. ARQUIVO ©YESH DIN

Diante da ameaça, a família retirou o corpo do cemitério e o levou novamente para casa. Em seguida, iniciou contatos com moradores da aldeia vizinha de Al-Funduqomiya para obter autorização para um novo enterro. Horas depois, Haj Hussein foi sepultado pela segunda vez após uma nova oração funerária realizada no cemitério da aldeia.


Mohammad afirmou que o episódio não se limitou à mudança forçada de um local de enterro. Segundo ele, a violação atingiu diretamente a dignidade dos mortos e ultrapassou limites religiosos e humanos elementares. Após a retirada do corpo, familiares identificaram sinais de vandalismo no cemitério, incluindo roubo do tanque de água, desaparecimento de ferramentas utilizadas na manutenção do local e danos em várias lápides.


Haj Hussein nasceu antes da Nakba de 1948 e havia sido deslocado da cidade de Al-Khdeira, próxima a Haifa, durante a expulsão em massa da população palestina promovida pelas forças sionistas na criação do Estado de Israel. Ele deixou sete filhos, quatro filhas e cerca de 35 netos. Trabalhou durante décadas como operário e comerciante de ovelhas antes de se aposentar há mais de vinte anos.


A aldeia de Al-Asaasa foi estabelecida em 1963 a aproximadamente um quilômetro do assentamento de Tersala. Os moradores relatam mudança nas condições de segurança desde o retorno dos colonos à região há cerca de um mês e meio. O assentamento havia sido evacuado em 2005 durante o chamado “plano de desengajamento”, que incluiu a retirada de assentamentos da Faixa de Gaza e do norte da Cisjordânia ocupada.


Segundo moradores locais, o temor atual deixou de se limitar à expansão territorial dos assentamentos e passou a envolver tentativas de expulsão da população palestina por meio de ataques contínuos, restrições militares e intimidação direta.


Amir Daoud, diretor-geral de documentação e publicações da Comissão Palestina de Resistência ao Muro e aos Assentamentos, afirmou ao The New Arab que o episódio revela “um nível crescente de terrorismo de colonos operando sob proteção direta das forças de ocupação israelenses”.


Daoud declarou que as ações dos colonos têm como alvo “a memória, a existência e o simbolismo nacional e humano” dos palestinos. Segundo ele, a estratégia busca criar um ambiente coercitivo capaz de forçar comunidades palestinas próximas aos assentamentos a abandonarem suas terras, inclusive por meio da negação de direitos básicos como o sepultamento de familiares.


O dirigente palestino também afirmou que o norte da Cisjordânia, principalmente as áreas ao redor de Jenin, enfrenta aumento de ordens militares israelenses destinadas à expansão colonial. Segundo Daoud, o plano prevê a instalação de cerca de 11 novos pontos de assentamento e o retorno a quatro assentamentos ilegais evacuados em 2005, ampliando a presença colonial israelense na região ocupada.

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