E agora, Brasil? Estratégia usada contra a Venezuela começou com lista de terrorismo dos EUA
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A entrada do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas dos Estados Unidos, prevista para entrar em vigor em 5 de junho, amplia os instrumentos legais e operacionais de Washington sobre atividades relacionadas ao Brasil. O precedente mais recente ocorreu na Venezuela, onde a classificação do grupo Tren de Aragua como organização terrorista foi seguida por uma escalada de operações conduzidas pelo governo estadunidense que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro no início de 2026.

O anúncio da inclusão das duas maiores facções brasileiras na lista de organizações terroristas foi feito por Washington em 28 de maio. A decisão foi recebida com críticas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apontou riscos decorrentes da ampliação dos poderes de investigação, sanções e operações vinculadas à legislação antiterrorismo dos Estados Unidos.
Segundo o Departamento de Estado estadunidense, uma organização deve cumprir três critérios para ser enquadrada como terrorista: ser estrangeira, enquadrar-se na definição prevista pela legislação estadunidense e representar ameaça à segurança nacional ou aos cidadãos dos Estados Unidos. Entre as normas utilizadas está a Lei Pública 105-277, que define terrorismo como “violência premeditada e politicamente motivada perpetrada contra alvos não combatentes por grupos subnacionais ou agentes ilegais”.
Durante décadas, a lista foi composta por organizações como Estado Islâmico, Boko Haram, Hamas, Al-Qaeda e Exército de Libertação Nacional. Desde o retorno de Donald Trump à presidência em janeiro de 2025, a lista passou a incorporar organizações da América Latina, refletindo a centralidade da região na política externa estadunidense.
A mudança representou também uma alteração nos mecanismos de atuação. Em vez de priorizar cooperação policial e judicial entre Estados, a classificação de grupos como terroristas permitiu maior participação de órgãos de inteligência e estruturas militares estadunidenses, incluindo a Agência Central de Inteligência (CIA).
A experiência venezuelana tornou-se o exemplo mais citado dessa estratégia. Em setembro de 2025, os Estados Unidos iniciaram uma campanha militar contra embarcações acusadas de transportar drogas pelo Caribe e pelo Pacífico. A operação se estendeu por meses e deixou mais de 100 mortos em dezenas de ataques. Na justificativa enviada ao Congresso estadunidense, o governo argumentou que as organizações classificadas como terroristas representavam ameaça direta aos Estados Unidos e seus cidadãos.
Meses antes, Washington havia incluído o Tren de Aragua na lista de organizações terroristas. Pouco depois do início dos bombardeios, o governo estadunidense classificou também o chamado Cartel de los Soles como organização terrorista. O termo surgiu na imprensa colombiana na década de 1990 para designar acusações envolvendo autoridades venezuelanas associadas a esquemas de corrupção e narcotráfico.
Ao longo dos últimos meses de 2025, o governo Trump sustentou que o Cartel de los Soles seria composto por integrantes do alto escalão das Forças Armadas venezuelanas e acusou Nicolás Maduro de liderar a estrutura. Após o sequestro do presidente venezuelano, porém, a acusação formal passou a concentrar-se em supostos crimes de narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína e posse de metralhadoras. O Cartel de los Soles apareceu apenas de forma secundária na denúncia apresentada pelas autoridades estadunidenses.
No documento judicial, o grupo foi descrito como um “sistema de clientelismo” destinado a direcionar recursos do narcotráfico para “funcionários corruptos de baixa patente, incluindo civis, militares e agentes de inteligência”. A formulação contrastou com a narrativa utilizada durante a campanha política e militar conduzida contra Caracas ao longo de 2025.
Além da Venezuela, organizações criminosas de México, Colômbia, Equador e El Salvador também foram classificadas como terroristas durante o atual governo Trump. Em todos os casos, a medida produziu impactos econômicos e políticos. A legislação estadunidense prevê punições contra indivíduos, empresas ou entidades que forneçam “apoio material” a organizações enquadradas como terroristas, definição que pode atingir atividades econômicas indiretas em países onde esses grupos possuem inserção social e econômica.
No México, a presidente Claudia Sheinbaum declarou que qualquer ação extraterritorial derivada da classificação seria rejeitada por seu governo. “Não aceitamos a violação da nossa soberania”, afirmou. O posicionamento aproximou-se das críticas formuladas pelo governo brasileiro após o anúncio envolvendo PCC e Comando Vermelho.
Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro adotou discurso semelhante ao mexicano ao contestar iniciativas que ampliem a presença operacional estadunidense no território nacional sob o argumento do combate ao narcotráfico e ao terrorismo.
Em sentido oposto, os governos de El Salvador e Equador passaram a incorporar a terminologia do narcoterrorismo às suas políticas de segurança. No Equador, o então presidente Guillermo Lasso classificou facções criminosas como terroristas em 2023. Seu sucessor, Daniel Noboa, aprofundou essa política e firmou acordos de cooperação com os Estados Unidos voltados ao enfrentamento dessas organizações.
Apesar da aproximação entre Quito e Washington, a proposta de restabelecimento de bases militares estrangeiras no Equador foi rejeitada em plebiscito realizado em novembro de 2025. Segundo o resultado oficial, 61% dos eleitores votaram contra a medida, impondo uma derrota ao governo equatoriano.



































