Em meio à miséria e ao caos na RD Congo, Igreja Universal replica a teologia da prosperidade
- www.jornalclandestino.org

- há 2 dias
- 4 min de leitura
A atuação da Igreja Universal do Reino de Deus na República Democrática do Congo revela um contraste evidente entre sua opulência no Brasil e sua estrutura modesta na África. Em Kinshasa, capital do país, cultos ocorrem com público reduzido e infraestrutura limitada, apesar do histórico de expansão internacional da instituição. No dia 25 de dezembro de 2025, cerca de 60 fiéis participaram de uma celebração marcada por apelos financeiros e discurso religioso centrado na teologia da prosperidade. A presença da igreja no país africano ocorre desde 2002 e se insere em um contexto de extrema pobreza estrutural. O caso expõe as dinâmicas de atuação de uma organização religiosa brasileira que opera globalmente em territórios marcados por vulnerabilidade social. Fonte: Alma Preta.

No principal templo da Igreja Universal em Kinshasa, localizado na Avenida Democracia, um culto conduzido pelo pastor brasileiro Gilson reuniu aproximadamente 60 pessoas, em sua maioria mulheres idosas, além de cerca de 12 crianças. Durante a cerimônia, o líder religioso incentivou doações como mecanismo espiritual de transformação individual. “Essa entrega é a chave. Venha aqui e coloque para abrir as portas da sua vida. Venha e coloque aqui em nome de Jesus Cristo. Se você quiser um envelope de doação, pegue do altar”, declarou, enquanto disputava a atenção dos fiéis com o ruído constante de motocicletas na rua.
O espaço físico da igreja contrasta com os grandes templos erguidos pela instituição no Brasil. O culto ocorreu em um salão com cerca de 270 cadeiras plásticas brancas, similares às utilizadas em eventos populares, com um palco simples contendo uma cruz, a frase “Jesus é o Senhor” em francês e a bandeira da República Democrática do Congo. A identificação externa do templo é discreta, limitada a uma faixa, e o local ocupa o segundo andar de um prédio de dois andares.
A Igreja Universal está presente em Kinshasa com cinco templos, distribuídos pelos bairros de Kasavubu, Bandal, Ngaliema, Kimbaseke e no centro da cidade. Não há registros de expansão para outras cidades importantes do país, como Lubumbashi, capital da província de Katanga, apesar de seu peso econômico. Dados indicam que a RDC possui forte presença cristã, com 40% da população identificando-se como católica e 15% como evangélica.
Fundada em 1977 no Brasil com participação de Edir Macedo, a Igreja Universal iniciou sua expansão internacional ainda na década de 1980. A primeira unidade fora do país foi aberta em Nova York em 1986, enquanto a chegada ao continente africano ocorreu em 1992, em Angola. Segundo informações da própria instituição, a igreja está presente em quase 150 países.
A pesquisadora Bruna David de Carvalho, autora do livro “Baixou o santo no reino dos céus”, afirma que a internacionalização faz parte da lógica estrutural da instituição. “Desde o seu primórdio, a Igreja Universal se coloca como um empreendimento internacional, universalista, literalmente. O Edir Macedo se torna o grande pensador da igreja e, com esse intuito de internacionalizá-la, ele começa nos Estados Unidos”, declarou.
A dinâmica observada nos cultos em Kinshasa evidencia a centralidade da teologia da prosperidade, que associa contribuições financeiras à obtenção de benefícios espirituais e materiais. Agnes, uma fiel de aproximadamente 70 anos, relatou sua experiência com doações mesmo vivendo em situação de dependência financeira dos filhos. “Quando eu comecei a vir à igreja, eu estava vendendo produtos no Zando. Na primeira vez, eu dei 50 francos congoleses. Aos poucos, eu fui dando mais e mais dinheiro. Quanto mais eu doava, mais eu era abençoada por Deus”, afirmou.
Mesmo sem renda própria, Agnes declarou que continua contribuindo regularmente. “Deus está abençoando meus filhos e eles me dão dinheiro. Eles pagam meu aluguel. Então nós sempre temos comida em casa, a gente nunca fica sem o dinheiro para vir para a igreja aos domingos. Dar o dinheiro destrava as bênçãos”, disse.
A pesquisadora Thayane Fernandes, doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco, explica que essa prática está diretamente ligada a uma lógica de responsabilização individual. “Ela é fundamentada a partir de uma ideia de apropriação de bens e sinais da bênção de Deus. É dever do fiel entregar os bens dele para a igreja, porque só assim ele vai ter retorno”, afirmou. Segundo ela, a estrutura cria pressão contínua sobre os fiéis. “Se ele não tiver bens ou dinheiro, deve entregar a sua devoção. E se ele não for bem sucedido, é porque ele está falhando.”
Dados do Banco Mundial de 2024 indicam que 73% da população da República Democrática do Congo vive com menos de US$ 2 por dia, um aumento em relação aos 69% registrados em 2012, posicionando o país entre os mais pobres do mundo. Esse cenário econômico contrasta com o patrimônio acumulado por Edir Macedo, estimado em R$ 9,8 bilhões, segundo ranking da revista Forbes, onde ocupa a 37ª posição entre os mais ricos do Brasil.
Além da atuação religiosa, a estrutura da Igreja Universal inclui um conglomerado de comunicação e negócios. Macedo é proprietário da TV Record, do Banco Digimais e do Hospital Moriah, em São Paulo. Em Kinshasa, a igreja também opera uma rádio na frequência FM 106.7, que alterna músicas gospel em francês e lingala com mensagens religiosas.
Durante a programação, locutores utilizam discursos direcionados às dificuldades cotidianas dos ouvintes. “Talvez você esteja enfrentando problemas na sua família. Você não sabe o que fazer para sair desse problema”, afirmou um apresentador, incentivando a busca por soluções espirituais nas unidades da igreja.
A estrutura interna da instituição também impõe regras rígidas a seus membros e líderes. Um pastor associado, que preferiu não se identificar, afirmou que não possui bens próprios. “Os pastores não são donos das suas casas. Tudo deles pertence às igrejas. Na Igreja Universal, os pastores não têm pertences”, disse. Segundo ele, a atuação é justificada como missão religiosa.
Tentativas de entrevista com representantes da Igreja Universal em Kinshasa foram negadas. O pastor Gilson informou que qualquer declaração dependeria de autorização da sede no Brasil. “Nós não podemos fazer nada sem a autorização do escritório do Brasil. Tudo o que nós sabemos é que a gente só pode dar entrevista com autorização”, afirmou um representante da instituição.


































