Mais de 6 milhões de somalis enfrentam a fome em meio aos impactos climáticos e conflitos
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Mais de 6,5 milhões de pessoas enfrentam fome na Somália em 2026, impulsionadas por secas sucessivas, conflitos armados e crise econômica global. Dados divulgados em 23 de abril por Al Jazeera e Reuters indicam que cerca de um terço da população vive em insegurança alimentar grave. Pelo menos 2 milhões estão em situação crítica, próxima da fome generalizada, segundo classificações internacionais. A crise afeta diretamente 1,8 milhão de crianças menores de cinco anos, ameaçadas por desnutrição aguda. Organizações humanitárias alertam para um colapso simultâneo de meios de subsistência, serviços básicos e financiamento internacional.

Nos arredores da cidade de Kismayo, no sul do país, a devastação é visível: carcaças de gado se acumulam após repetidas estações de chuva fracassadas, destruindo a base econômica de comunidades pastoris. Famílias que dependiam do rebanho para alimentação e renda agora enfrentam perda total de sustento.
Segundo a organização Save the Children, a crise é resultado de “várias temporadas de chuvas que falharam em todo o país”, como afirmou a diretora humanitária Francesca Sangiorgi à Al Jazeera. Mesmo quando a chuva ocorre, ela é irregular e tardia, incapaz de recuperar ecossistemas já colapsados.
A insegurança alimentar atinge níveis alarmantes. Com um terço da população classificada na Fase 3 ou superior do sistema IPC, milhões de somalis enfrentam escassez severa de alimentos, sendo forçados a pular refeições diariamente. Mais de 2 milhões estão na Fase 4, considerada emergência, onde a sobrevivência depende diretamente de ajuda externa. Nessas condições, aumentam os casos de doenças como sarampo, diarreia e infecções generalizadas, agravadas pela desnutrição.
A crise atinge com maior intensidade as crianças. Segundo dados das Nações Unidas, cerca de 1,8 milhão de menores de cinco anos estão em risco imediato de desnutrição aguda. Sangiorgi relatou que “a situação das crianças em todo o país é extremamente preocupante”, destacando a disseminação de doenças e o aumento das taxas de abandono escolar. A ausência de acesso a serviços de saúde e nutrição compromete diretamente a sobrevivência infantil.
O deslocamento em massa intensifica o colapso social. De acordo com Médicos Sem Fronteiras (MSF), mais de 3,3 milhões de pessoas foram deslocadas internamente, enquanto estimativas mais amplas apontam para 3,8 milhões — cerca de 22% da população total. Muitos desses deslocados enfrentam múltiplos deslocamentos, migrando de um assentamento precário a outro à medida que os recursos se esgotam. Campos superlotados, como os próximos a Kismayo, concentram famílias sem acesso a alimentos ou serviços básicos.
Relatos de campo evidenciam o impacto direto da crise. Uma mulher deslocada afirmou ter perdido quase todo seu rebanho, reduzido de 200 cabeças para apenas quatro animais, eliminando sua fonte de sobrevivência. Barwaqo Aden, moradora deslocada da região de Lower Juba, chegou recentemente a um campo de refugiados e já enfrenta a hospitalização de sua filha de oito meses por desnutrição severa. Outro relato, de Hodhan Mohamed, descreve dias de caminhada e travessia do rio Juba para alcançar um assentamento onde a assistência é incerta.
Além da crise climática, conflitos armados agravam a situação. Regiões sob controle do grupo al-Shabab dificultam o acesso de trabalhadores humanitários e forçam deslocamentos contínuos. A insegurança impede a distribuição regular de ajuda e amplia o isolamento de comunidades inteiras.
O colapso econômico global também contribui diretamente para o agravamento da crise. A escalada provocada pela ofensiva militar conjunta estadunidense-israelense contra o Irã impactou cadeias de suprimento e elevou custos logísticos internacionais. Em março de 2026, um alto funcionário humanitário da ONU declarou à Reuters que essas disrupções estão “aumentando os custos e enfraquecendo a capacidade de entregar assistência”. O encarecimento de energia, combustível e alimentos afeta diretamente países dependentes de importações, como a Somália.
Dados do MSF indicam que os custos de transporte aumentaram até 50% em algumas regiões do país, dificultando o acesso da população a serviços de saúde e elevando o custo operacional das organizações humanitárias. Paralelamente, mais de 200 unidades de saúde e nutrição foram fechadas desde o início de 2025 devido a cortes abruptos de financiamento internacional.
O financiamento da resposta humanitária entrou em colapso. O plano das Nações Unidas para a Somália, que necessita de US$ 1,42 bilhão, recebeu apenas US$ 288 milhões — cerca de 20% do total necessário.
Como resultado, o número de pessoas atendidas foi drasticamente reduzido de 6 milhões para apenas 1,3 milhão. A resposta humanitária sofreu um corte de 75%, deixando milhões sem qualquer assistência.
Tom Fletcher, chefe humanitário da ONU, afirmou à Reuters em março: “Essas restrições vão prejudicar nossas cadeias de suprimento humanitário, reduzir os recursos que conseguimos levar às pessoas e também aumentar os custos de energia e alimentos em toda a região. É uma tempestade perfeita de fatores, e estou seriamente preocupado”.


































