Milei proíbe entrada de jornalistas na Casa Rosada pela primeira vez na história democrática do país
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O governo argentino impediu a entrada de cerca de 60 jornalistas credenciados na Casa Rosada em 23 de abril de 2026. A decisão, inédita no país, foi justificada por autoridades como medida preventiva diante de suposta “espionagem ilegal”. Profissionais tiveram seus registros biométricos bloqueados e foram barrados no acesso à sala de imprensa. O episódio ocorreu no mesmo dia em que o presidente Javier Milei recebeu o bilionário estadunidense Peter Thiel. A medida provocou reação imediata de parlamentares e dos próprios jornalistas, que denunciaram censura e ataque à liberdade de imprensa.

De acordo com informações publicadas pela agência Noticias Argentinas e repercutidas pelo portal Emergentes, o bloqueio atingiu profissionais que já possuíam credenciamento oficial para cobrir atividades no interior da sede do governo argentino. Pela primeira vez na história do país, o acesso à sala de imprensa da Casa Rosada foi totalmente vetado, interrompendo a rotina de cobertura jornalística institucional.
O governo de Javier Milei, que tem histórico de hostilidade pública contra a imprensa - frequentemente sintetizado na frase “não odiamos o suficiente os jornalistas” - já havia imposto exigências adicionais a correspondentes, incluindo registro ampliado de dados pessoais e imposição de códigos de vestimenta. A nova medida, no entanto, eleva o nível de restrição ao impedir fisicamente o exercício da atividade jornalística dentro da sede do Executivo.
A justificativa oficial foi apresentada pelo secretário de imprensa, Javier Lanari, por meio da rede X. “A decisão de retirar as impressões digitais dos jornalistas credenciados da Casa Rosada foi tomada de maneira preventiva diante da denúncia da Casa Militar por espionagem ilegal”, afirmou. Segundo ele, a medida teria “o único objetivo de garantir a segurança nacional”.
A alegação de espionagem se baseia em um episódio envolvendo a gravação não autorizada de imagens dentro da Casa Rosada por um programa do canal TN. Segundo a Casa Militar, responsável pela segurança presidencial, um jornalista utilizou óculos com câmera embutida para registrar corredores e escadas do edifício. Em nota, o órgão afirmou que “o vídeo mostra de forma inequívoca que o autor da reportagem registrou sem filtro a atividade da sede principal do governo por meio de uma gravação sub-reptícia”.
O caso foi amplificado pelo próprio presidente, que reagiu com ataques diretos aos profissionais de imprensa. Em publicação nas redes sociais, Milei escreveu: “Lixos repugnantes. Gostaria de ver esses lixos imundos, que portam credencial de jornalistas (95%), saírem para defender o que fizeram esses dois delinquentes. Espero que isso chegue aos responsáveis máximos”.
O endurecimento contra jornalistas ocorreu simultaneamente à visita de Peter Thiel à Casa Rosada, empresário do Vale do Silício e fundador da Palantir Technologies, empresa especializada em análise massiva de dados e vigilância preditiva. A tecnologia da Palantir é utilizada por órgãos de segurança estadunidenses, como o ICE, em operações contra migrantes, além de ter sido empregada por Israel em ações contra palestinos na Faixa de Gaza, no contexto do genocídio em curso desde outubro de 2023.
A coincidência entre a visita de um dos principais nomes globais da indústria de vigilância e a adoção de medidas restritivas contra jornalistas dentro da sede do governo argentino expôs contradições no discurso oficial, que invoca “segurança nacional” para justificar o bloqueio de acesso à imprensa.
A reação política foi imediata. O deputado Maximiliano Ferraro, da Coalizão Cívica, publicou nas redes sociais: “Basta, pessoal. Não houve nenhum tipo de espionagem ilegal. Restituam imediatamente as credenciais e o acesso à Casa Rosada dos jornalistas credenciados”. Segundo a revista Noticias, blocos de oposição preparam pedidos formais de informação para que o governo explique a decisão.
Os jornalistas credenciados também divulgaram um comunicado conjunto exigindo a reversão da medida. “A medida, que segue sem justificativa oficial por parte do governo nacional, sugere um avanço explícito contra a liberdade de imprensa, o exercício da profissão e o direito de acesso à informação de toda a cidadania”, afirmaram.
No mesmo documento, os profissionais denunciaram um padrão crescente de hostilidade institucional. “Solicitamos uma pronta resolução do caso e exigimos do governo o fim dos ataques à imprensa”, declararam, acrescentando que o episódio representa “um ato de censura que se soma à escalada de abusos de poder por parte de Javier Milei, que não apenas insulta, difama e hostiliza jornalistas e trabalhadores da imprensa, como também pressiona por demissões, como é de conhecimento público”.


































