França se prepara para deportar o ativista palestino Ramy Shaath
- www.jornalclandestino.org

- 18 de mai.
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O ativista palestino Ramy Shaath afirmou que o governo francês tenta deportá-lo por causa de sua atuação pública em defesa da Palestina e de declarações políticas sobre o genocídio em Gaza. Shaath recebeu em 18 de maio uma notificação oficial da prefeitura de Nanterre informando que as autoridades pretendem expulsá-lo do território francês sob a alegação de “ameaça à ordem pública”. Segundo sua advogada, Damia Tahraoui, o processo não contém qualquer condenação criminal e se apoia exclusivamente em discursos, manifestações e posições políticas públicas.

Shaath declarou ao The New Arab que compareceu à prefeitura de Nanterre, onde vive com a esposa francesa e a filha desde 2022, acreditando que receberia finalmente sua autorização de residência após mais de dois anos de atrasos administrativos. Em vez disso, saiu do local com uma notificação de deportação emitida pelas autoridades francesas. Ele afirmou que o processo representa uma mudança deliberada de uma disputa migratória para uma tentativa de expulsão política.
“Todo o caso se baseia no fato de eu participar de manifestações e expressar minhas opiniões políticas em palestras e conferências. Não me acusam de violência, incitação à violência ou antissemitismo, porque não fiz nada disso. Então, como me tornei uma ameaça à segurança da França?”, declarou.
O documento apresentado a Shaath menciona suas falas em eventos públicos, sua rejeição à solução de dois Estados e sua defesa de um “Estado palestino democrático do rio ao mar”. Segundo o ativista, as autoridades francesas transformaram posições políticas em justificativa administrativa para deportação.
“Eu disse que a solução de dois Estados foi um engano usado durante 30 anos para colonizar nosso país, e direi isso novamente amanhã. Onde está o crime nisso?”, afirmou.
Shaath acusou o Estado francês de tratar a identidade palestina como ameaça política desde o início do genocídio em Gaza, iniciado em outubro de 2023. Segundo ele, o processo faz parte de uma ofensiva contra organizações e movimentos de solidariedade à Palestina em território francês.
O ativista informou que o caso será analisado em 21 de maio pela comissão regional de deportação de Nanterre, órgão consultivo que emitirá parecer antes da decisão administrativa final. Ele ressaltou, porém, que o governo francês não possui obrigação legal de seguir a recomendação da comissão.
“A comissão poderia rejeitar a deportação, e então as autoridades poderiam vir no dia seguinte para me deportar e emitir outra decisão”, declarou.
Em entrevista ao The New Arab, Shaath descreveu o dossiê de segurança anexado ao processo como “repleto de racismo e linguagem israelense”. Segundo ele, o documento reúne informações sobre suas relações com organizações pró-Palestina na França, sua participação na fundação do movimento “Urgence Palestine” e sua presença em seminários, manifestações e atividades públicas autorizadas pelas próprias autoridades francesas.
“Uma parte do documento diz que eu estava usando roupas militares e agindo como um general durante um seminário, quando na verdade eu estava de suéter e calça jeans e explicando a história da Palestina em um evento cultural. Devo processar a empresa onde comprei as roupas porque elas estão me causando problemas?”, declarou.
Shaath também acusou as autoridades francesas de utilizarem denúncias produzidas por organizações sionistas atuantes na França. Segundo ele, alguns trechos do processo administrativo reproduzem literalmente campanhas lançadas contra sua atuação política. O ativista afirmou ainda que o dossiê menciona contatos realizados com instituições culturais e intelectuais palestinas em outros países, o que classificou como monitoramento de segurança sem base legal.
O caso ocorre após uma investigação aberta em 2024 por suposta “apologia ao terrorismo”. Na ocasião, Laurent Nunez, então chefe da polícia de Paris e atual ministro do Interior francês, acusou Shaath de “cruzar a linha vermelha” durante uma manifestação em apoio ao povo palestino realizada em novembro de 2023. Nunez alegou que o ativista afirmou que “o verdadeiro terrorismo é Israel”, interpretando a declaração como defesa do Hamas.
Os tribunais franceses encerraram o caso em junho de 2025 por ausência de provas suficientes, segundo os advogados de Shaath. O ativista declarou que, após não conseguirem produzir acusações criminais, as autoridades recorreram a instrumentos administrativos para restringir sua permanência no país.
Shaath afirmou que a França não poderia deportá-lo ao Egito, país que revogou sua cidadania após sua libertação das prisões egípcias em 2022, nem aos territórios palestinos submetidos ao genocídio conduzido por Israel contra Gaza. Segundo ele, o cenário mais provável é sua permanência na França sem direitos legais.
“O verdadeiro perigo é me manter em uma situação frágil, sem residência, sem o direito de trabalhar ou viajar, e sob ameaça permanente de prisão domiciliar e processo administrativo”, afirmou.
O ativista relatou que as medidas administrativas começaram ainda em 2023, quando as autoridades passaram a bloquear a renovação de sua autorização de residência. Segundo Shaath, isso provocou suspensão de contrato de trabalho, encerramento de conta bancária e bloqueio de cobertura de saúde, mesmo após ele ter sido submetido a duas cirurgias cardíacas.
“Um dia fui comprar meus remédios e me disseram que meu cartão de saúde havia sido suspenso porque minha residência não havia sido renovada”, declarou.
Ele afirmou que as medidas também atingem sua família, composta por esposa e filha francesas, acusando as autoridades de ignorarem deliberadamente sua situação familiar. “As autoridades agem como se minha esposa e filha não existissem”, disse.
Damia Tahraoui confirmou ao The New Arab que o processo administrativo contra Shaath se baseia exclusivamente em declarações públicas e posições políticas relacionadas à Palestina. Segundo ela, os serviços de segurança franceses recomendaram inclusive a imposição de prisão domiciliar, com obrigação de comparecimento diário a uma delegacia.
A advogada destacou que a participação de Shaath na fundação da organização “Urgence Palestine”, o uso do slogan “do rio ao mar” e suas críticas à solução de dois Estados aparecem entre os principais elementos utilizados pelas autoridades para justificar a deportação.
O caso produz constrangimento político para o governo de Emmanuel Macron. Shaath chegou à França em 2022 após campanha diplomática conduzida com participação francesa para obter sua libertação das prisões egípcias. Na época, Macron publicou mensagem na plataforma X celebrando sua chegada a Paris.
“Saúdo a decisão das autoridades egípcias de libertar Ramy Shaath. Compartilho com sua esposa, Celine Lebrun, o alívio de reencontrá-lo na França. Não abandonamos essa causa. Agradeço a todos que desempenharam um papel positivo neste final feliz”, escreveu Macron no início de 2022.
Ao comentar a mudança de posição do governo francês após o início do genocídio em Gaza, Shaath afirmou: “Tudo mudou desde o início da guerra em Gaza. A França, que me acolheu em nome dos direitos humanos, hoje, na minha opinião, criminaliza todo discurso palestino que não se alinha com a narrativa israelense.”



































