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Fraude bilionária e escravidão moderna: Relatório da ONU revela que centenas de milhares de pessoas traficadas são submetidas a tortura, estupro e trabalho forçado no Sudeste Asiático

Um relatório divulgado em 20 de fevereiro de 2026 pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) revela que centenas de milhares de pessoas traficadas são submetidas a tortura, estupro e trabalho forçado em centros de golpes online no Sudeste Asiático. O documento, baseado em entrevistas diretas com vítimas e fontes confidenciais, aponta que a indústria criminosa movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano. As operações se concentram especialmente na região do Mekong e contam com estruturas de segurança comparáveis a prisões de alta vigilância. Segundo o relatório, vítimas de pelo menos 66 países foram enganadas com falsas ofertas de emprego e acabaram confinadas em complexos controlados por redes criminosas. A investigação indica ainda a existência de conivência de autoridades locais e uma rede financeira global que sustenta o esquema.


Arquivo
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De acordo com o ACNUDH, o setor de golpes online alcançou “proporções industriais”, com pelo menos 300 mil pessoas atuando sob coerção em operações no Sudeste Asiático. Estimativas citadas no documento indicam que a receita global anual dessas fraudes chega a US$ 64 bilhões, sendo cerca de US$ 43,8 bilhões apenas na região do Mekong. Imagens de satélite analisadas no relatório mostram que 74% das instalações utilizadas nesses crimes estão concentradas nessa área, com complexos que vão de zonas de fronteira remotas a zonas econômicas especiais e grandes centros urbanos.


“O tratamento a que as pessoas são submetidas no contexto de operações fraudulentas é alarmante”, afirma o relatório intitulado Um problema complexo. O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, declarou que “a lista de abusos é estarrecedora e, ao mesmo tempo, de partir o coração”, destacando que as vítimas raramente recebem proteção e, em muitos casos, são criminalizadas ao serem resgatadas.

Os depoimentos reunidos descrevem estruturas que funcionam como cidades autossuficientes com até 500 acres, cercadas por muros com arame farpado e vigiadas por guardas armados. Em alguns desses locais existem supermercados, cassinos, restaurantes e bordéis. As vítimas relataram passaportes confiscados, comunicação restrita, vigilância constante e punições severas para qualquer tentativa de fuga, descrevendo os complexos como verdadeiras prisões.


Dentro dessas instalações, os trabalhadores são forçados a executar fraudes digitais, como esquemas de investimento em criptomoedas, golpes românticos, extorsão e manipulação de plataformas de apostas. As operações são organizadas em células especializadas em recrutamento, desenvolvimento de roteiros de fraude e movimentação financeira internacional. O dinheiro é lavado por meio de contas de “laranjas”, convertido em criptomoedas e reinserido no sistema financeiro formal.


As vítimas relatam que a coerção inclui tortura física e psicológica sistemática. “As assembleias matinais frequentemente incluíam equipes de baixo desempenho sendo submetidas publicamente a torturas como forma de advertência para as demais”, diz o relatório. Uma sobrevivente do Sri Lanka afirmou ter sido mantida por horas em uma “prisão de água” por não atingir metas de lucro. Outras vítimas relataram confinamento em celas escuras por dias, privação de sono, fome e jornadas de trabalho de até 19 horas diárias.


A violência sexual aumentou significativamente desde 2024, segundo o documento. Mulheres relataram estupros, prostituição forçada e abortos forçados. Doze mulheres libertadas de centros em Mianmar disseram ter sido estupradas e engravidadas durante o cativeiro. Homens também relataram agressões e humilhações sexuais. Há registros de mortes dentro dos complexos, frequentemente mencionadas por sobreviventes como forma de intimidação.


O relatório também documenta extorsão financeira direta. Famílias de vítimas são forçadas a pagar resgates de dezenas de milhares de dólares, muitas vezes após assistirem por videochamadas às agressões sofridas por seus parentes. Uma vítima tailandesa relatou ter sido obrigada a gerar US$ 9.500 por dia em golpes para evitar espancamentos ou ser “vendida” para outro centro.


O ACNUDH aponta que essas operações são sustentadas por corrupção institucional. Testemunhos indicam que agentes de imigração e policiais estariam em conluio com recrutadores e gestores dos complexos. Algumas vítimas relataram pagamentos diretos a autoridades que visitavam os centros. O órgão classifica a corrupção como “profundamente enraizada” no funcionamento do sistema.


Embora operações policiais tenham libertado milhares de pessoas — incluindo cerca de 7 mil vítimas resgatadas em fevereiro de 2025 na fronteira entre Tailândia e Myanmar — o relatório alerta que essas ações são pontuais e frequentemente seguidas pela reabertura das redes criminosas em novas localidades.


Após a libertação, muitas vítimas continuam em situação de vulnerabilidade. Diversos sobreviventes são detidos por violações migratórias ou processados por crimes que foram forçados a cometer. O ACNUDH defende a aplicação do “princípio da não punição” e a garantia de assistência médica, psicológica e jurídica. “As respostas eficazes devem estar centradas nas leis e normas de direitos humanos”, afirmou Volker Türk.


O relatório conclui que a convergência entre cibercrime, tráfico de pessoas e corrupção institucional constitui uma engrenagem transnacional altamente lucrativa que opera à sombra da economia digital global. Sem ação coordenada entre Estados, instituições financeiras e plataformas digitais, a ONU alerta que esse sistema continuará a se expandir, aprofundando uma forma contemporânea de escravidão que transforma seres humanos em peças descartáveis de um mercado bilionário.

 
 

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