Guerra no Sudão intensifica colapso hospitalar e expõe mortes evitáveis em maternidade com falta de insumos
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A escalada da guerra civil no Sudão levou o sistema de saúde da região de Kordofan ao limite, com hospitais operando sob colapso estrutural. No Hospital Maternidade de El-Obeid, profissionais relatam mortes de recém-nascidos por falta de leitos e equipamentos básicos. Dados divulgados em 3 de abril de 2026 por agências das Nações Unidas indicam que mais de 230 mil deslocados dependem da unidade. A crise ocorre após quase três anos de conflito, que deixou 33 milhões de pessoas necessitando de ajuda humanitária. O cenário combina deslocamento em massa, ataques a infraestrutura civil e escassez crítica de insumos médicos.

O Hospital Maternidade de El-Obeid, localizado no estado de Kordofan do Norte, tornou-se o principal centro de referência para populações que fogem da violência em Kordofan do Sul. A unidade enfrenta uma sobrecarga contínua diante da chegada de dezenas de milhares de pessoas, muitas em estado grave e sem acesso prévio a cuidados médicos. Segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o hospital opera com capacidade reduzida e enfrenta limitações severas em infraestrutura e suprimentos.
O médico Hasan Babikir relatou a impossibilidade de salvar recém-nascidos prematuros devido à ausência de leitos adequados. “Tivemos que assistir à morte de dois dos bebês diante dos nossos olhos”, afirmou, ao descrever o caso de trigêmeos que não puderam ser tratados por falta de unidade de terapia intensiva neonatal disponível.
A escassez de recursos atinge desde equipamentos cirúrgicos até itens básicos para partos. “Há uma grave escassez de equipamentos cirúrgicos e para partos normais, bem como de itens essenciais como antibióticos, suturas cirúrgicas e luvas”, disse Babikir ao UNFPA. Ele acrescentou que a falta de insumos obriga profissionais a recorrerem ao mercado local, onde os preços são elevados, agravando ainda mais a precariedade do atendimento.
O hospital atende atualmente mais de 230 mil pessoas deslocadas, em sua maioria mulheres e meninas que enfrentam condições extremas, incluindo fome, violência sexual e ausência de assistência médica regular. A cidade de El-Obeid também tem sido alvo frequente de ataques com drones, incluindo ofensivas contra instalações de saúde, resultando em mortes e ferimentos entre pacientes e profissionais.
A crise se agrava no atendimento materno e neonatal. Embora uma unidade de terapia intensiva neonatal tenha sido inaugurada no início de 2026, ela conta com apenas quatro leitos, que permanecem constantemente ocupados. “Perdemos pacientes devido aos longos tempos de espera. Embora haja duas salas de cirurgia de emergência, elas estão atualmente fora de serviço”, relatou Babikir. Ele destacou que, em situações de emergência, a falta de espaço e estrutura resulta na morte de mães e fetos.
A precariedade também afeta diretamente os cuidados com recém-nascidos. A parteira Laila Sarfo afirmou: “Não temos mesas para colocar os recém-nascidos, nem equipamentos adequados para o controle de infecções nas salas de parto”. A ausência de condições mínimas compromete protocolos básicos de segurança sanitária.
Para mitigar parte dos impactos, o UNFPA instalou um sistema de energia solar na unidade, reformou salas de parto e enviou profissionais especializados para apoiar atendimentos obstétricos e neonatais. As intervenções, no entanto, não são suficientes para reverter o quadro de colapso diante da magnitude da demanda.
Os profissionais de saúde também enfrentam deterioração nas condições de trabalho. Insaf, parteira com experiência na unidade, relatou dificuldades para manter a própria subsistência. “Os salários que recebemos não são suficientes nem para cobrir o transporte básico ou as refeições de que precisamos durante nossos turnos”, afirmou. Ela acrescentou que, frequentemente, os próprios profissionais custeiam materiais essenciais para pacientes que chegam sem recursos.
A sobrecarga de trabalho levou equipes a operar em jornadas extremas. “Algumas parteiras estão trabalhando em turnos de 24 horas para atender à demanda excessiva”, disse Insaf, evidenciando o desgaste físico e emocional das equipes.
A crise humanitária se estende aos campos de deslocados. No campo de Al Moaskar Al Mwahhad, em Kordofan do Sul, o UNFPA mantém uma clínica móvel e espaços de acolhimento para mulheres e meninas. Relatos apontam para um cenário de violência generalizada, incluindo estupros, sequestros e casamentos forçados.
Salma, de 50 anos, deslocada há oito meses, descreveu o impacto do conflito sobre as mulheres: “As mulheres estão exaustas por causa da guerra. Muitos crimes foram cometidos contra mulheres, incluindo estupro. Muitas mulheres ficaram viúvas. Neste campo, o número de mulheres que ainda estão com seus maridos pode ser contado nos dedos de uma mão”.
A travessia até os campos de deslocados também evidencia a gravidade da situação. Ismailia, de 16 anos, relatou ao UNFPA que percorreu três dias de viagem em burro antes de chegar à região, sendo posteriormente transportada em caminhões. “Espero voltar para minha cidade e minha escola. Por favor, permitam-nos reconstruir nossa casa e voltar”, disse.
Para manter suas operações no Sudão em 2026, o UNFPA lançou um apelo de US$ 129 milhões em financiamento. Até o início de abril, apenas US$ 33 milhões haviam sido efetivamente prometidos, indicando um déficit significativo na resposta internacional diante da escala da crise.



































